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O "ídolo" da Vila Areia


     A “Vila Areia” para quem não é daqui é uma (ainda) pequena favela às margens da BR-290 (free-way) na chegada de Porto Alegre, bem ali onde o Rio Gravataí deságua no Guaíba.

     Naquele local há depósitos de areia para construções, surgiu de repente uma favela. E favela, a gente sabe, é um amontoado de barracos, onde expulso dos bairros melhores da cidade, o povão vai se juntando em sub-habitações de todo jeito. Um local esquecido pelas autoridades se torna o habitat de bandidos e traficantes. Nas favelas também moram pessoas honradas, pobres, mas direitas, que não se identificam com a delinqüência, e que moram ali quem sabe de forma provisória, até achar coisa melhor.

     Nesta semana (dia 12 de novembro de 2008) a “Vila Areia” foi palco de um tiroteio. A polícia entrou lá para buscar um bandido foragido. Até aí nada de mais, embutido no corriqueiro de uma cidade sem sensibilidade social, incapaz de se solidarizar com o drama alheio. O surgimento das favelas é fruto dessa insensibilidade.

     Do confronto entre policiais e bandidos houve uma baixa lamentável: um brigadiano (PM) levou um tiro e morreu. Sabendo-se acuado, o bandido fez reféns, na esperança de não ser morto. Depois de algumas horas de negociação, ele se entregou, sendo colocado no camburão da polícia, com destino ao Presídio Central de Porto Alegre.

     O que chama a atenção, no entanto, é que ao sair algemado o bandido foi aplaudido pelo povo da favela. Observa-se nesse gesto a simpatia dos moradores da vila pelo bandido, em contraponto a certa hostilidade para com a polícia, revelando que um delinqüente é ali mais benquisto que o Estado, representado pelas polícias civil e militar. Para a polícia, o PM morto é herói; para o pessoal da vila, o bandido.

     Essa história de Robin Hood é comum nas periferias brasileiras. Quem não lembra o famoso Pareja? O marginal ali se instala e torna-se um com a comunidade. Ajuda materialmente, patrocina algumas atividades e dá proteção. Ora, a ajuda material, o patrocínio e a proteção é tudo o que o povo quer, é o que ele espera do Estado e quase nunca recebe. A decisão é apoiar aquele, que mesmo sendo visto pelo outro lado da sociedade, como bandido, vive com eles e os apóia. Uma moradora, depois da prisão, disse que a tutela do bandido sobre o povo dava a todos uma ponderável segurança. A que ponto chegamos! O povo despreza a autoridade oficial para entregar-se sob a liderança de um criminoso!

     Ora, nós sabemos que líder é quem conhece necessidades e toma atitudes para realizá-las. A liderança não é imposta, mas conferida pelo grupo a alguém capaz de estabelecer mudanças. Ele é bandido, mas é quem se tornou disponível para “quebrar o galho” do povinho.

     Quando a sociedade do lado de cá, fracassa, qualquer um que liderar os grupos do lado de lá assume o poder. Quando o povo entrega sua vida à liderança de um bandido é sinal que a estrutura da sociedade fracassou completamente.



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 14/11/2007
Código do texto: T736752
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 75 anos
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Antônio Mesquita Galvão