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Relato de experiência: uma articulação mais do que necessária.*

“Ninguém nasce feito. Vamos nofazendo aos poucos,
na prática social de que tornamos parte.”

“A educação para a libertação, responsável em face a radicalidade do ser humano, tem como imperativo ético a desocultação da verdade.”

(Paulo Freire, in: Política e Educação).
 

         Ao contrário da maioria das pessoas, iniciei o contato com a extensão popular através do movimento estudantil, isso talvez tenha contribuído para que eu entendesse e enxergasse a extensão como um instrumento muito além que acadêmico-curricular.Levada por amigos/as também militantes estudantis, quando cursava o fim do segundo período, a algumas das reuniões do programa “Estágio Nacional de Extensão em Comunidades - ENEC” comecei a entender o porquê de se fazer extensão e na prática vivenciei uma transformação individual e coletiva que nunca imaginara vivenciar... Conheci a chamada extensão popular que era alardeada entre meus/minhas amigos/as como algo transformador... E me entreguei a ela.
Esse programa de extensão possui uma característica interessante, quase todos/as os/as integrantes de diferentes cursos da UFPB ou não, também compartilhavam da opção de estar à frente de um centro acadêmico ou executiva nacional de estudantes de curso, o que tornava o grupo bastante politizado e contestador da realidade da universidade e da própria extensão.
       Estar naquela salinha, todo fim de tarde das quintas–feiras era energizante, renovador de forças dentro da militância diária e diante de um cenário de (de)formação imposto aos estudantes  no cotidiano universitário.

       1."Lembro das primeiras reuniões... Algo novo, diferente e ao   mesmo tempo encantador que me fazia sair da rotina exaustiva das salas de aula e me levava a um outro mundo. Com outras pessoas, outras energias, outros pensamentos que assim como os meus se expandiam, dispostos a encarar o desafio de encontrar o desconhecido e de fazer dele uma rotina agradável em suas vidas...
Educação popular, complexidade, sustentabilidade... Palavras novas. Conceitos novos...   Co-gestão, protagonismo, autonomia... Autonomia? Sim. Esse é o maior dos princípios, é dele que o ENEC se alimenta e é ele que o ENEC propõe às comunidades. Uma parte do todo e o todo de uma parte juntos, buscando um algo a mais dentro de uma academia esquecida de seu papel social. Buscando um algo a mais nas relações humanas, um algo a mais na complexidade do mundo e na simplicidade das ações."

No ENEC, conhecido nacionalmente também como Vivências e Estágios em Educação Popular no Sistema Único de Saúde - VEPOP-SUS, somos convidados a explorar as nossas potencialidades e se fazer protagonistas na transformação da realidade posta dentro e fora da universidade. Algo que o movimento estudantil, para os que realmente o identificam como transformador de pessoas e de concepções/estruturas sociais impostas pelo modelo capitalista, também se disponibiliza a fazer.

  2."Junto os retalhos do desvendamento...
As vendas caem. Não se sustentam mais... Minhas vivências pessoais em ambientes que evidenciaram disparidades sociais, exploração e lutas por sobrevivência foram abrindo meus olhos, expandindo minha consciência...
A essas vivências outras se juntaram.  A universidade passa a ser mais do que aulas medíocres, baseadas na necessidade de colocar alguém em patamar superior, seja por quem transmite os conteúdos e por quem os recebe, sejam por quais conteúdos são transmitidos.
Para quem serve esta universidade? Começo a perceber possibilidades maiores, e identifico pessoas que pensam diferente da maioria. Pessoas que constroem instrumentos de resistência e de embate com o que está posto. Insiro-me no movimento estudantil e descubro novas possibilidades, novas pessoas dispostas a se doarem um pouco pela defesa de seus ideais.  Pela defesa de uma universidade que sirva à sociedade, tentando desfazer erros históricos, construindo e não reproduzindo conhecimentos válidos à nossa realidade. Pela defesa de uma sociedade justa e com acesso universal à saúde, à educação crítico-reflexiva, à comida, a terra, à auto - sustentabilidade...
Amplio as possibilidades e começo a participar da tão falada extensão universitária num viés popular...
O discurso passa a ser mais fundamentado e próximo da realidade. Sensibilização, auto - conhecimento, desprendimento e novos olhares..."


       O contato com as comunidades, praieiras, de início (Praia da Penha) e posteriormente do interior (Município de Cabaceiras no Cariri paraibano), junto com a prática cotidiana do movimento estudantil, no espaço do Centro Acadêmico de Fisioterapia e da Executiva Nacional de Estudantes de Fisioterapia, se não transformaram de forma tão impactante a realidade local pelas diversas variantes envolvidas, foram capazes de expandir a minha consciência de tal forma que me situaram no tempo e espaço da universidade, da Fisioterapia e da sociedade.

 3."Lembro das primeiras vivências...  Ansiedade em pôr os pés na comunidade e em perceber com meus olhos o que outras pessoas já haviam percebido... Unir minhas próprias vivências de mundo às experiências novas que o projeto iria me conceder... Comunidade da Penha: vários olhares sobre a história, a educação, a saúde, a organização, sobre o mar; vários olhares sobre um povo sujeito às diversas dificuldades que resiste, mas que está a esmorecer... O que fazer? Como fazer? Por que tentar? Por que insistir? Devemos fazer?
Vínculos criados... A comunidade percebe sua presença e anseia por sua visita...
Vínculos desfeitos / interrompidos... É hora de conhecer novas realidades.  É hora de passar os fios da rede (de pesca) para outras pessoas."


          Na comunidade, consegui enxergar a relação que tem uma aula “bancária” com a forma de pensar/agir desconectada da maioria dos/das estudantes dentro de uma prática de estágio curricular de saúde coletiva dentro da periferia de uma comunidade. Lá consegui conectar o conceito ampliado de saúde que me foi apresentado nos espaços da aula de introdução à saúde pública e muito mais nos espaços de debate do movimento estudantil e de saúde Coletiva de que participei. Lá também consegui entender a necessidade de esperar o tempo do outro quando a falta de vontade política dentro um município do interior, a disputa egocêntrica de um ou outro grupo político interfere diretamente na vida de um cidadão comum desmotivado com a vida “sem oportunidades” que leva.
 
 4."A partir do contato com a realidade social o indivíduo é potencializado a ter uma visão crítica, servindo como um instrumento transformador da mesma e de si próprio, em conjunto com a sociedade local, o Estado e os acadêmicos, ao mesmo tempo em que tenta estimular a autonomia da comunidade e a participação popular através do controle social. Dentro desta perspectiva, estudantes dos cursos de ciências sociais, fisioterapia, nutrição e psicologia estão desenvolvendo um trabalho no município de Cabaceiras - PB, o qual consiste em três etapas principais: a primeira, conhecer a realidade local; a segunda, discutir e planejar ações em conjunto com a comunidade e a terceira, juntamente com os moradores, executar as ações planejadas."

        Foi no ENEC também, que pude estimular, junto com o grupo de estudantes, pessoas com que nunca tinha convivido antes a participarem e a permanecerem ativamente da vida política da cidade através de um conselho tutelar, com o suporte do saber científico. Foi possível entender como a organização político-social interfere na qualidade de vida das pessoas ao passo que a mobilização e o controle social se tornam necessidade.
 
    5."E o ENEC nisso tudo?
O Estágio Nacional de Extensão em Comunidades (ENEC) apresenta-se pra mim como um instrumento revelador de potencialidades, minhas e das comunidades diversas.  Um instrumento integrador da técnica (conhecimento especifico), com o conhecimento de mundo (saber popular), com as vivências e aprendizados no movimento estudantil...
Apresenta-se como Uma possibilidade de estar mais próxima da realidade, sendo mera coadjuvante na organização de comunidades e no processo de empoderamento desta, bem como uma oportunidade de juntar elementos que reorientem a minha formação, elementos que me tornem uma cidadã de verdade, uma profissional de saúde humanizada, consciente de meu papel social.
Algo desafiante... Nos números, nos objetivos, nas heterogeneidades, nos resultados esperados, na paciência histórica, na co-gestão..."

       É nos espaços do movimento estudantil e da extensão que consigo entender como a articulação movimento estudantil com a extensão popular é necessária. E quanto ambos são importantes no seu processo de aperfeiçoamento. Por enquanto valho-me de compreensões/experiências individuais que ratifiquem isso, a mim elas já são fortes o suficiente para defender essa articulação, porém acredito na necessidade de se construir algo mais sistematizado.
      É inclusive no espaço compartilhado do movimento estudantil e da extensão popular que começamos a avaliar a extensão enquanto elemento de transformação social e com vistas a contribuir com sua evolução. Julgamos interessante que essa extensão popular que para nós já aparece como vontade política, deixe clara, porém, qual a intencionalidade política que ela possui e a quem essa intencionalidade serve.
     Reconhecer a extensão como caminho de aproximação das classes populares com a universidade burguesa é também reconhecer que essa universidade burguesa precisa sofrer transformações radicais para se tornar popular e expressar realmente as transformações sociais que muitos militantes estudantis almejam. A sensibilização e as micro transformações que a extensão realiza precisam ser melhor trabalhadas, ao meu ver nessa articulação  do movimento estudantil , com o docente e com outros movimentos sociais, a fim de   estimularmos autonomia real das classes populares e modificações radicais (no sentido de ir à “raiz dos problemas”) que superem a proposta de gestão da crise e caminhem para uma revolução do modelo econômico vigente a partir do poder popular.

  1.PEREIRA, Ângela Maria. Trecho do texto “O porquê do ENEC/VEPOP-SUS...” redigido para sistematização das atividades do programa ENEC/VEPOP-SUS.

  2.PEREIRA, Ângela Maria. Trecho do texto “A vida?! Continua ...de retalhos em retalhos se transformando...” escrito para sistematização das atividades e livro do VEPOP-SUS.

   3.PEREIRA, Ângela Maria. Trecho do texto “O porquê do ENEC/VEPOP-SUS...” redigido para sistematização das atividades do programa ENEC/VEPOP-SUS.

  4.PEREIRA, A. M.; MEDEIROS, M.L; JARDIM, G. A.S.; OLIVEIRA, A. F; FALCÃO, E.F. Trecho do texto “ Implementação do VEPOP/SUS em Cabaceiras- PB.

  5.PEREIRA, Ângela Maria. Excerto do texto “A vida?! Continua ...de retalhos em retalhos se transformando...”, escrito para sistematização das atividades e livro do VEPOP-SUS.

* Ângela Maria Pereira é estudante de Fisioterapia da Universidade Federal da Paraíba, militante estudantil e ex-bolsista do Programa Vivências e Estágios em Educação Popular no Sistema Único de Saúde.
Anja
Enviado por Anja em 16/11/2007
Reeditado em 16/11/2007
Código do texto: T739240
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Sobre a autora
Anja
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 34 anos
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