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Uma Travessia do Saara

É tempo de Ramadão, um mês de jejum para os muçulmanos. Um período pouco aconselhável para viajar no deserto.” Esta é a entrada de uma peça que, na minha opinião, é um excelente exemplo de jornalismo: o relato, ao mais pequenino pormenor, de uma viagem realizada por Gonçalo Cadilhe.

“O meu primeiro dia no Sara coincide com o primeiro dia do Ramadão. Durante um mês, entre o nascer e o pôr-do-sol, milhões de muçulmanos à minha volta abster-se-ão devotamente de fazer passar entre os lábios o que quer que seja, desde uma gota de água a uma passa de cigarro. Eu estarei no meio deles tentanto passar despercebido à hora das refeições.” Este lead está muito bem conseguido. Em poucas palavras consegue resumir o porquê desta sua viagem e relata-nos o seu objectivo principal, conjuntamente com a sua futura forma de estar.

“Ficamos atolados na areia a meia da tarde. Há que empurrar. Cerca de dez horas depois da última refeição de todos os passageiros. Eu, incluído. Não trouxe uma única bolacha, não sabia que se encontrava no Ramadão. E o minibus não vai estar, só por minha causa, a parar numa tasca - que de qualquer das formas não estaria aberta. Empurramos o veículo com os estômagos vazios. Custa mais. Poucos minutos depois, enterramo-nos outra vez. E outra.” Aqui é feita uma descrição exímia e muito bem complementada através de uma fotografia na qual se vê este grupo de homens a empurrar a carrinha, completamente atolada na areia. Muito bem conseguido.

 ”Em Agadés, chega-me finalmente a diarreia. É obra: seis meses por África acima e, até agora, nenhum roubo, nenhum susto, nenhuma arma apontada ao peito, nenhum incidente racista, nenhum problema de saúde. Nem sequer uma diarreia. Só esta, que cai na melhor altura: hoje, um dia inteiramente dedicado a descansar no hotel.” Pode ser um pouco fora de normal mas, na minha opinião, este relato está bastante interessante até porque, mais à frente, o jornalista dá a explicação (possível) para o sucedido.

“Sento-me à sombra de uma árvore. A única árvore. Chega um senhor com uma cabra. Cumprimenta-me amigavelmente, põe-se na conversa comigo. Qual o meu nome, de onde sou, qual a capital do meu país, que conhece o Figo, claro, saca de uma faca e, tranquilamente, degola a cabra.” Inesperada esta parte final, surpreendente sem dúvida. Continua a agarrar o leitor, sempre de uma forma muito curiosa e imensamente descritiva. Dá cor ao que se lê, dá-lhe “fotografia” sem que seja necessário esta estar presente.

 ”Mais um dia sem comer. Não trouxe uma única bolacha, não tive tempo, ontem, com as correrias. E o camião não vai, só por minha causa, parar numa tasca. Mesmo que pare, já sei o que será o almoço: cabra acabadinha de degolar. Explicarei ao senhor Ibrahim que estou de jejum. Poupo-lhe a vergonha de um passageiro tão ímpio, e aproveito para expulsar mais umas toxinas do corpo”. Assim acaba este relato do jornalista em viagem. Recorre, de novo, às bolachas. Acaba por também ele aderir ao Ramadão, como  se também ele já fizesse um pouco parte desta tradição. As fotografias, assim como as frases chave que acompanham a peça estão muito bem conseguidas, dando ainda mais vivacidade a esta peça, já de si tão calorosa (pelo que transmite, e pelo que nos faz sentir).


Escrito por Gonçalo Cadilhe
Ricardo Barbosa
Enviado por Ricardo Barbosa em 30/11/2007
Código do texto: T759548
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Sobre o autor
Ricardo Barbosa
Governador Valadares - Minas Gerais - Brasil, 39 anos
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Ricardo Barbosa