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O RÁBULA

Entre algumas missões que assumi, duas delas me proporcionaram preciosos momentos: A direção de meu escritório de advocacia em Brasília e a Editoria de Política do jornal Notícias da Capital.   Aqui relato uma experiência que envolveu esses dois ambientes de trabalho revelando, inclusive, a importância de um processo de otimização de um "insight".

Certa vez recebi no escritório a visita de um senhor desesperado em função da prisão em flagrante de seu filho, acusado que fora de incentivar o consumo de drogas, por vestir uma camiseta com estampa de maconha. Sem entender o caso, encaminhei-o ao meu sócio, Dr. Severo Neto, competente advogado que pouco tempo depois se tornaria respeitado Juiz de Direito.

 Na fase de apuração dos fatos, descobre-se que o réu não era primário.  Já havia cumprido pena por porte de drogas, sendo impossível, portanto, alegar tal condição e, conseqüentemente, sua ignorância quanto ao significado da mensagem que veiculava através daquela estampa.  Só que havia também a convicção, por parte de meu colega, de sua total recuperação. Levantamentos preliminares por ele conduzidos apontaram que o acusado havia trocado todo seu círculo de amizades; trabalhava regularmente como comerciante formalmente estabelecido e, curiosamente, até abandonara o simples vício de consumo do cigarro convencional.  Logo, estávamos diante de uma causa difícil, porém defensável.

O problema é que, a despeito da reversão do quadro do réu, nosso nobre advogado não encontrava argumentos para sua defesa. Não havia remédio jurídico à disposição para tal caso. Então resolvi, com base na conjuntura do cenário internacional da época (final dos anos 70), desenvolver um raciocínio de analogia com o objetivo de influenciar o livre arbítrio do Juiz, através da redação de uma matéria a ser publicada em minha coluna, comparando a questão que ora tínhamos em mãos para defender, com os resultados que a propaganda política da época produzia nas multidões. Pronto o texto, submeti-o à apreciação de meu colega que, ao final de sua leitura, pediu para que eu o publicasse imediatamente, na certeza de tê-lo como seu próprio instrumento de defesa a ser acostado aos autos.

Começava assim: “Às tantas horas do dia tal, na Praça do Relógio, em Taguatinga, foi detido em flagrante o Sr. Fulano de Tal, portando camiseta com estampa de maconha, etc, etc.”  e terminava com o seguinte argumento:
“Meritíssimo Senhor Juiz, cuidado com os portadores de camiseta com estampa de Che Gevara! São perigosos comunistas!;
Meritíssimo Senhor Juiz, cuidado com os portadores de camiseta com estampa do Solidarnosk (*)! São perigosos agitadores!
Por fim, Meritíssimo, cuidado com os portadores de camiseta sem estampa! São perigosos ilusionistas...!”

O réu foi absolvido.




(*) Versão polonesa de Solidariedade, nome do sindicato de metalúrgicos navais baseado na cidade portuária de Gdansk, berço político de Lech Walessa, mais tarde eleito Presidente daquela República.
Dom AFONSO
Enviado por Dom AFONSO em 05/12/2007
Reeditado em 05/12/2007
Código do texto: T765876

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Sobre o autor
Dom AFONSO
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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