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MANICÔMIOS...


Ao longo da história, houve uma tendência em várias sociedades para excluir os marcados pela diferença. Durante a Inquisição, o desvio da fé cristã-a heresia (palavra grega que significa opinião discordante)-era punida com torturas e os hereges poderiam ser queimados vivos num ritual denominado auto-de-fé. Os asilos manicomiais surgiram durante o Renascimento e o Iluminismo, com o objetivo de proteger e dar abrigo aos doentes mentais, mas acabaram por segregá-los ainda mais do que os sintomas que o conduziram até lá.No Brasil, desde a segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, estes asilos passaram a ser chamados de hospitais psiquiátricos, para evitar o estigma e assumir um aspecto de estabelecimentos médicos. Mas em virtude de muitos insistirem em manter sua característica essencial de agência de segregação e desindividualização, não mudaram senão no nome. E por muitos deles terem como filosofia a idéia de empresa, não poderiam perder de vista o objetivo primordial de toda empresa, ou seja, o lucro. Foi somente a partir de 1980 que se intensificou a análise das condições dos hospitais psiquiátricos, destacando-se muitas vezes a violência exercida sobre os internos em muitas destas instituições e a comprovada ineficiência do modelo assistencial (prevalecendo aí a segregação) da maioria destas instituições. A conduta de segregação e institucionalização, como historicamente já foi comprovada, resulta em um empobrecimento afetivo tão grande dos internos, que ele se coisifica. Não há nada lá dentro que ele possa sentir como seu. Tudo pertence à empresa, inclusive ele. Como já ficou comprovado, o mundo nestas instituições é o da solidão, do abandono, da impessoalidade. É a morte do tempo, e após vários anos tendo como única visão do mundo os muros altos, e como único caminho a seguir aquele determinado objetivando unicamente o bom funcionamento destas empresas, acaba por acontecer também a morte do indivíduo, da pessoa como um ser humano. Basaglia, psiquiatra italiano pioneiro da desinstitucionalização psiquiátrica na Itália, compara os hospitais psiquiátricos a campos de concentração nazista: o “habitat” manicomial é isolado do exterior, fechado com total ausência de privacidade pessoal.. Ao longo da história destas instituições, os instrumentos que se sobressaem, são os de controle. O choque elétrico (que graças a constante fiscalização de auditores do Ministério da Saúde, e apesar da grande resistência inicial de muitos hospitais, foram reduzidos) e a camisa de força. Com a difusão dos psicofarmacos, a camisa de força passou a ser química. Muitas vezes causam impregnação nos internos, ou seja, um travamento da musculatura, o que acarreta movimentos rígidos, robotizados. A exclusão isola o diferente do restante do corpo social. Neste caso, o excluído é considerado estranho, louco. Ele incomoda e desperta inquietações e diante disso, é punido com o exílio, a morte ou a prisão num hospital psiquiátrico. O “enclausuramento do louco” produz o chamado paciente crônico (aqueles internos que um dia entraram para serem tratados, mas nunca mais saíram. Alguns estão asilados há décadas) e a destruição gradativa dos vestígios de humanidade. O louco é o herege dos tempos atuais, e a sua punição é o confinamento em hospitais psiquiátricos. Na maioria das vezes, uma vez diagnosticado, mesmo após uma situação de vida isolada, o rótulo se torna permanente, e a maneira de lidar com ele passa a ser desconfiada, temerosa e cuidadosa. Caso seja internado em um hospital psiquiátrico, aí então é que se configura realmente o preconceito e a discriminação, principalmente porque como já foi comprovado através da história, em muitas destas instituições, o objetivo maior não é promover a saúde mental, mas sim desencadear e alimentar o adoecimento mental. Infelizmente, mesmo tratando-se de uma “doença”, nunca se percebeu na maioria destes hospitais psiquiátricos, um tratamento direcionado para promover a cura, muito ao contrário, a conduta adotada até então pela maioria destas “clínicas”, foi a de armazenamento e manutenção mínima possível para que continuassem vivos e, portanto gerando lucros, através do pagamento das suas AIHs(autorizações de internações hospitalares). A partir do momento que se posicionaram principalmente como empresa e direcionaram as internações no sentido de asilar e institucionalizar, perderam assim a conotação médica e adotaram uma filosofia carcerária, que resultou na cronificação de um grande número de seres humanos, diminuindo drasticamente as suas possibilidades de exercerem seus direitos de cidadãos, e os tornou alvos de estigmatização e preconceito, dificultando assim, a sua aceitação social, colocando-os numa posição de “doidos”, ou seja, sem direito de voz ou de vontades. A lei da reforma psiquiátrica que tem como objetivo principal justamente a humanização do tratamento direcionado ao portador de sofrimento mental, teve que se transformar numa luta devido a resistência de muitos daqueles que na verdade deveriam ser seus mais atuantes defensores: os proprietários destas instituições,aqueles que até então se colocaram como habilitados( e receberam verbas da saúde pública) para cuidarem destes pacientes. O direito do portador de ser respeitado e tratado dignamente tem sido rebatido por muitos donos de hospitais. Nesta tentativa de derrubar esta lei que defende o ser humano, muitos destes empresários têm usado artimanhas que só comprovam a total ignorância e o total desrespeito que têm por estes seres humanos que internam em suas instituições. Muitos, numa tentativa de causar pânico na população, ameaçaram abrir as portas e despejarem das suas empresas pacientes que insistiram em manter aprisionados por anos e até mesmo por décadas. Outros ameaçam os familiares (aqueles mesmos familiares que durante o período de internação foram mantidos afastados e ignorantes a respeito do tratamento utilizado), sobre a possibilidade de reativarem aquele (dentre tantos outros) triste episódio na história da doença mental, quando, por exemplo,  os “loucos” do interior de Minas, eram levados para Barbacena, e desapareciam para sempre nos porões da loucura. Cresce a preocupação de se prestar um atendimento ético. Felizmente, o direito a um tratamento digno para estes seres humanos está sendo aos poucos reconhecido Já é um começo!
Francisquini
Enviado por Francisquini em 06/12/2007
Código do texto: T767508
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Francisquini
Lavras - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
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