De amor e de LAÇOS....

De amor e de laços...

Homens e mulheres se perguntam: O que é isso que faz laço e desenlaça?

Até por serem laços e não nós (entendamos nós, como desejarmos).

A questão está colocada e todos convocados a pensar sobre ela.

Não há uma pergunta toda, não há uma resposta toda. Não existem palavras concretas que nos possibilitem elaborá-las. Falta-nos palavras -material para dizê-las.

O amor e as relações amorosas estão presentes no nosso dia a dia. Nas nossas vidas pessoais, de nossos amigos, nos livros, nas novelas, nas músicas... Exaltado como um bem supremo da existência. As pessoas confirmam, nas suas atitudes, a importância do amor. Esse muitas vezes associado à felicidade e à capacidade de alcançar sua realização plena.

Há tanto quem defenda e preze o amor único, quanto quem não o defenda. Assim o amor recebe na contemporaneidade um deslocamento nas suas configurações. O amor se atualiza historicamente. As mudanças no comportamento feminino nas últimas décadas e, seu alcance no comportamento masculino, apresenta-nos novas configurações do amor.

O universo gira... O mundo sofre transformações, as relações se transformam historicamente. O sujeito contemporâneo tem suas peculiaridades. O amor e suas vicissitudes permeiam a vida de cada pessoa através dos tempos. Desde sempre as pessoas se procuram umas nas outras, mais que umas as outras. Toda demanda é de amor. Desejamos sermos amados! Mas também desejamos encontrar o Outro-todo. Completo! Capaz de satisfazer aos nossos desejos de toda ordem. De preencher nossas faltas, de atender nossas expectativas e necessidades. O sujeito, com quem nos encontramos, se torna assim objeto. Objeto de nossos desejos e satisfações.

Um famoso psicanalista pontuava em seus seminários a impossibilidade do encontro do sujeito e do objeto. Dizia que amar é dar o que não se tem. Se pensarmos que quando nos amamos somos fisgados por alguma coisa inexplicável no outro, que não encontra representação simbólica, podemos ensaiar uma compreensão dos vínculos que construímos nas relações de amor.

Somos seres de falta, todos nós. Não completos. A falta possibilita-nos movimentar, desejar, construir, tornarmo-nos sujeitos, fazermos laços. Os encontros acontecem entre dois sujeitos incompletos. Duas faltas se encontram no amor. Obturar a falta-a-ser do sujeito é impossível. É preciso que cada um se saiba só. O encontro possível é o encontro não todo. A satisfação é sempre parcial. Suportar a relação com o outro é suportar o fracasso! No que concerne ao encontro entre o homem e a mulher há algo do campo da arte -vários modos de romancear. Há o trágico do amor. Presentifica-se nas relações afetivas o enquadramento dos sentidos do amor em: bom ou mau, certo ou errado e, mais freqüentemente, em amor romântico (marcado pela idealização e unicidade). Nesses modos de romancear, a relação fracassa. É preciso ligarmo-nos à realidade sempre incompleta, acolhendo as incertezas, aguardando os benefícios da dúvida.

O amor é da ordem da contingência -acontece ou não, quando menos esperamos. E nós o transformamos no campo do necessário. Que é o campo dos sintomas - uma manifestação humana com significados a serem interpretados. Permitirmo-nos interpretar essas manifestações é permitirmo-nos o risco de mantermos os laços.

Os ritos amorosos, próprios de cada cultura e de cada pessoa, a parceria, o entendimento e a capacidade de convivência são uma saída para os nós, substituindo-os por laços. Laços pressupõem liberdade! A tentativa de controle os inviabiliza. Mata o amor! A vida é transitória, o amor pode ser transitório. Pode, também, ser atualizado, renovado. Com liberdade ética e o desejo compartilhado.

Laços não surgem. Eles são construídos. As relações são construções exigentes. Necessitam de cuidados. Cada pessoa precisa cuidar bem de si e se amar. Ser aquilo que se é, sem adjetivos. Quando o amor acontece e encontra pessoas capazes de se amar e respeitar, de saber-se incompletas, de suportarem os fracassos e a falta de garantias. Capazes de se falarem e sustentarem na palavra a relação, ele pode seguir em sua natureza poética com sua face realística.

Soraia Maria Lopes Martins

Gov. Valadares, 2.004.

SoraiaMaria
Enviado por SoraiaMaria em 24/03/2005
Código do texto: T7737