TRAUMA PÓS-NATAL

Meu ano termina com o Natal: é como se fosse um parto.

Ocorrem reações conscientes e inconscientes que reativam em mim profundas ansiedades.

Possivelmente, o nascer do Cristo, faz reviver em mim a angústia do trauma do meu próprio nascimento, quando fui empurrado para um mundo novo e hostil: uma perda repentina de percepções conhecidas, como os fatos e situações ocorridas no ano que termina, do aconchego ou não que ele me proporcionou, enfim, do sentido de perda de certa proteção, para o mergulhar em percepções novas e assustadoras do período que vai se iniciar.

E meu Papai Noel , mais uma vez, não veio, e fiquei esperando em vão por um milagre de Natal que não aconteceu: o fim da existência de meninos que continuam nascendo em manjedouras e de homens que passam a vida sofrendo na cruz das dores e das misérias humanas.

A secção do cordão umbilical que me separou de 2007 — um ano com o qual convivi por 365 dias, e que foi parte integrante de mim mesmo — deixa em mim, ao findar bruscamente, uma cicatriz umbilical que marca o significado profundo dessa separação: é como se eu estivesse perdendo algo valioso e seguro, ou até parte importante de mim mesmo, de minha vida.

Natal então se transforma em vida e morte: o Menino do presépio se confunde com o Cristo na cruz.

Então resolvi, no dia seguinte ao Natal, encarar a perda e desvencilhar-me do que restou de 2007, fazendo uma limpeza geral: doei tudo aquilo que não me serviria mais em 2008 num processo de quase exorcismo placentário.

Escancarei armários, esvaziei gavetas, e, sem esperar, reencontrei minha infância — bons tempos em que eu ainda acreditava em Papai Noel — numa coleção de marcas de cigarros e em 38 exemplares de Foto West.

Dentre os nomes das marcas de cigarro, algumas me devolveram à década de sessenta, quando eu andava pelas ruas do bairro, olhando para o chão, em busca de maços vazios: Misbela, numa embalagem vermelha, com rosto de mulher, da Cia Lopes Sá Indl. de Fumos ; Everest, vermelho no azul , da Caruso ; Urca, com o Pão-de-açucar em fundo amarelo, da Sudan; Rebeca, da manufatura Paulista de Tabaco S.A.; Negritos, Fulgor, Athenas, da Fábrida Flórida; Saratoga, com imagem de turfe; Petit Londrinos,da tabacaria Londres; Fio de Ouro, Sir,listras brancas em fundo marron, da S.A. Brasileira de Tabacos; Nilo, com pirâmides do Egito; Pullman,com uma carruagem branca em fundo vermelho; Beduíno, com silhueta de beduíno sobre camelo; Noturno, Marusca, Chesterfield, Belair, Majestic, todos do tempo em que um maço custava entre CR $ 15,00 e CR$ 30,00. Na capa de A volta do Cheyenne, com Randolf Scott — no. 1 da Foto West, da editora Editormex Internacional Ltda , do Rio de Janeiro, publicação em quadrinhos retirados de filmes de far-west, — voltei à Agência São Paulo, onde era atendido pelo já falecido Castroviejo, e aproveitava para trocar figurinhas defronte a Única.

Voltei no tempo, e nessa volta, voltei aos Natais em que eu ganhava presentes: e descobri que o meu Noel ficou no meu passado, perdido entre meus guardados e lembranças.

ANTÔNIO CARLOS TÓRTORO

ancartor@yahoo.com

Tórtoro
Enviado por Tórtoro em 14/01/2008
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