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Síndrome
Publicado por: Andre Leonardo
Data: 22/08/2019
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Texto: Laryssa Leonardo
Intérprete: André Leonardo
Música de Fundo: Saudade
Autor da música:
Cícero Euclides

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
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Texto

Síndrome

Criei a nossa história em minha cabeça, o velho hábito do qual tento me desvencilhar. Estava coagida a acreditar e creditar todas as minhas fichas nessa novela épica com o enredo mais bonito que já vi. Não vi as correntes invisíveis que nos prendiam, cada um a seu passado como meros fantoches do acaso, um descaso.

Encarei-o, olhos escuros e sem brilho, mesmo quando falava com fervor. Lembro-me como me senti menina mal vivida quando me contou as suas desventuras como se fossem as melhores aventuras, mas não percebi como suas íris se enevoavam diante de tais circunstâncias. Sua fala era meramente ilustrativa, aquilo me arrasava. Eu era silêncio, silábica, entrelinhas. Não era indecifrável, sempre entregando os pontos. No nosso silêncio abrasado por beijos confusos, fogo desleixadamente aceso, nunca houve promessas, só pseudo-promessas, daquelas que uma ratoeira faz ao propor um pedaço qualquer de comida. Mas para uma alma romântica, a cola são os percalços que fazem o final infindável funcionar.

Me agarrei àquela superfície grudenta que criou, sabendo que quando me arrancasse, deixaria os padrões voltarem à tona. Porém, eu queria me testar, me reconhecer, te conhecer, te perfurar. Eu sonhei com você na noite retrasada, me pareceu tão real que quando o vi, não disfarcei a tremedeira. É o frio e sorri. Você engoliu como engole todas as coisas que aparece a sua vista e que brilham a seus olhos. Fomos. Eu para cima, você para baixo. Assim, me faz rir. Vi-me em seus abraços, pensando em te salvar. Cuidar da sua solidão, abalando-a na noite da cidade.

E o vi. Lá estava ele, parado na esquina da rua escura, iluminado como sempre. Dessa vez, era a luz do poste e não a minha mente. Ele sorriu o seu sorriso esperto, o mesmo que você tem e minhas pernas bambearam. Tão vívido, tão perto. De repente, suas mãos suadas não estavam mais entre as minhas. E olhei para o lado, você sumia. Só ele e eu. Ele me olhava, os óculos brilhando, como um ídolo que tive o cuidado de cultivar. Não bastaram palavras, não precisávamos delas para falar. Zonza era o meu estar, ouvindo as vozes, achando que fosse desmaiar. Você percebeu e tentou me abordar, a minha garganta secou. Você e ele, ele e você. Inversamente iguais. Não, eu não poderia falar.

A vulnerabilidade. Eu não era você que sabia mentir com os olhos. Você era alegoria como ele, daquelas de tirar o fôlego enquanto tudo escurece e perco os sentidos. Você também tinha velhos hábitos, dos que intoxicam a alma, a saúde, os milagres. Você também tinha ela. Ela não estava na esquina, estava nos seus braços e me abraçou, nos seus lábios e me beijou, nos seus corpos e me comeu, devorando cada pedacinho. Tive até que tomar banho de ervas. Ela era dual: mulher e refúgio. Passava por cima de tudo e todos. E eu devia ter notado, você não se importava nem consigo, como se importaria com outras coisas?

Eu estava em fogo cruzado sem ao menos saber. Pow! Levei um tiro no braço, poderia ter sido meu coração. Deitada no chão, vendo o céu azul anil, arranquei o pequeno projétil, o buraco aberto. Você passou por cima, com o cuidado de não me pisar para quando quisesse voltar. Igual a ele. Levantei-me ainda zonza, vendo você no horizonte, o asfalto quente querendo me queimar. Andei cambaleante, eu não tinha força o suficiente? Não era decente. Mais uma vez, achei fazer tudo por mim, para mim. E estava ferida por causa de outro. Consumia-me como trago  cigarro. As vozes mais fortes. Sem saída, o rato na ratoeira, desgrudei-me de uma vez só. O meu silêncio calou-se mais ainda, construindo barreiras que já existiam e que, porém, você nunca entenderia ou enxergaria.

Assim, as páginas e páginas, linha por linha, palavra por palavra, da minha história criada foram queimadas. Não falei antes, ele me viu e sorriu aquele sorriso idêntico ao seu. E não doeu, nem ardeu, nem viveu. Morto estava o sentimento, sedimento para o novo. Inundada da luz mais brilhante estava a minh'alma. Nas profundezas da sua omissão, tinha uma missão que recusei. De ontem para hoje, sonhei com o outro. Terceiro nesse triângulo do qual não sou aresta, sou o que resta, o miolo que une o improvável e irreconhecível. O terceiro é amarelo, minha cor favorita. Uma incógnita que não sei se me permitirá decifrar. Ele é espelho, me olha de esguelho enquanto o sonhei essa noite que passou. De novo tão real que preciso tocá-lo.

Acordei chorando. Lágrimas que não secam, abertas no buraco perfurado. Ploc. Ploc. Ploc. Caindo ao chão, escarlate, fazendo o maior alarde enquanto a pressão rompe as barreiras. Não, não consigo imaginar o terceiro a estar no lugar que você o culpou, ocupou, mas nunca pertenceu. Te vi hoje, o sorriso. Eu estava morrendo, quase sorrindo. Que bom, balbuciei em frente aos brancos do seu dente. Cabelos aos ventos. Fiz suas profecias acontecerem até os ossos me doerem e chorei no breu que me desfez, te refez. E ali está a luz amarela, corro para alcançar. O terceiro me sorri, me cumprimenta com um beijo, no rosto que é o seu lugar, e eu queimo em ensejo. Espero que ele coloque minha cabeça em seu peito enquanto me embala devagar. Shhh, vai ficar tudo bem. Shhh, você vai se curar.

Vejo e sei que sou meu próprio lar e sempre faço minhas malas para me refugiar em outro até morrer e renascer de novo nesse recipiente que me faz ser gente. Quero correr para o seus braços, quero correr para os braços do terceiro e posso fazer isso o dia inteiro. Mas de que adianta? No final do dia, me sinto vazia e preciso ir embora para casa, sem ratoeiras, sem esquinas, sem amarelo. Somente eu e meu lar.
Laryssa Leonardo
Enviado por Andre Leonardo em 22/08/2019
Código do texto: T6726241
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Andre Leonardo
Guarulhos - São Paulo - Brasil
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Andre Leonardo
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