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A Garota Escarlate (Comentando um conto)
Publicado por: Waldryano
Data: 10/10/2019
Classificação de conteúdo: seguro
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A Garota Escarlate Marcelo Fávaro (Conto um Conto)

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Texto

A Garota Escarlate

A garota escarlate
Marcelo Fávaro

Desperto da letargia noturna, que de forma inquietante me invadira os porões da subconsciência durante toda a madrugada, por meio dos dedos membranosos de sua mão coberta de um pálamo empapado de fluidos que exalavam odor pútrido das profundezas do tártaro, eu iniciava minha incursão pelos danosos labirintos do inferno nesta terra.
Era a sua mão em meu ombro, enquanto eu, virado para a parede na cama, buscava em vão recordar o motivo da forte dor de cabeça que me penetrava a alma. Fora o rum de má qualidade? pudera ser, decerto seria. Ainda que sequer lembrasse da noite passada. Era bem possível se tratar de uma dessas farras intermináveis, essas viagens noturnas são tão excitantes. Lembro-me apenas de estar em companhia de Pierre. Descíamos pela Major Diogo em busca de diversão, a noite estava amena até aquele momento. Havia no ar uma placidez mórbida da cidade em busca do sono. Luzes sombrias, sombras vivas que se mexiam nas arestas mórbidas da nove de julho. A mão agourenta agora me balança, de onde vem tal ser espectral? Abro os olhos novamente, faço menção em virar-me para encarar a dona da palma horrenda que agora chacoalha meus ombros paralisados diante de tamanho pavor. A orla de horror continua, agora que fito o chão do quarto antigo onde moro e vislumbro as roupas femininas jogadas sobre as minhas no assoalho. Imediatamente me lembro, agora lembro! Entramos no Barrados, um velho inferninho que geralmente é frequentado por boêmios e seres esquecidos pela grande cidade que mói gente no almoço e cospe na madrugada. Parecia uma moçoila bela de rosto, mas misteriosa de modos. Totalmente vestida com o negro da noite até o pescoço, sequer mantinha as mãos de fora, cuidadosamente cobertas por luva de película, que outrora fora fina, mas hoje apenas gasta pelo uso. Os cabelos, notava-se, eram artificiais, moldados por peruca escarlate fulgurante. O rosto encoberto pela maquiagem transmitia uma forte sensação de desamparo, estagnado na prateleira de bebidas por trás do balcão, onde se encontrava sentada.
Agora sinto suas unhas cadavéricas arranharem meus braços. Um grunhido monstruoso sopra-me a nuca, sinto o toque áspero de sua língua em minhas costas, aumentando minha repulsa pela entidade fúnebre que me atormentava.
O nojo, a aversão, a abominação tomavam conta de mim. Pelo meu braço um visco glutinoso descia em lodo esverdeado de seus dedos grudados pela membrana cheia de rugas aumentando ainda mais minha repugnância pelo desconhecido ente.
Sentados no sofá de couro vermelho do Barrados, Pierre e eu já havíamos terminado uma garrafa de San Remi e nos preparávamos para abrir a segunda quando notei os olhares fulminantes da jovem escarlate para mim pelo espelho em frente ao balcão. Perguntei ao Belmonte quem era:
- Chegou hoje. Não fala palavra. Deve ter algum retardo essa guria. Contratei por experiência. Quer fazer o programa? Deixo ela pela metade do preço. Mas tem que me falar se o trabalho da mudinha é bom. Só trabalho com as melhores!
Suas unhas quebradiças estão cravadas em meu ombro, quero me levantar, mas ainda permaneço em choque. A outra mão horrorosa percorre meu peito me causando náuseas. Seu braço é composto de rugas centenárias misturado a um tom de pele verde apodrecido. Tento dessa vez me desvencilhar da criatura bárbara, entretanto, algo não permite, como se, grudado ao colchão, meu corpo fosse sujeito aos seus comandos. Agora ferido, ojerizado pelo demônio que coloquei em meu leito, mal podia mexer meus olhos.
Sentado ao seu lado no balcão, paguei-lhe uma bebida e fiquei a admirar seus traços exóticos. Apesar de ter um rosto formoso, compreendi que a moça escarlate preocupava-se em jogar seus longos cabelos sintéticos vermelhos sobre o lado direito do rosto, tentando sem sucesso esconder seu olho, provavelmente de vidro, ao que percebi. Ainda assim, era uma bela mulher.
Conversei trivialidades, mostrei-lhe o dinheiro, apontei-lhe a saída e viemos pelas penumbras abraçados e encobertos pela luxúria da noite. Tentei segurar seu rosto em vão, sua recusa foi imediata, ainda dessa forma, ao tocar-lhe rapidamente o queixo, pareceu-me ter esbarrado em um látex frio como a mármore.
Olhando para o piso gelado de meu quarto, percebo uma peça estranha próxima aos calçados da dama escarlate. Junto à peruca pousada, jazia algo semelhante a uma máscara. Admirei com horror a peça flácida com buracos nos olhos, um nariz arrebitado e a boca feminina bem desenhada.
A mão desumana continuava a percorrer meu corpo impactado. Quando finalmente consegui me virar e encarar o temível elemento das trevas, provei o amargo sabor do arrependimento. Seu rosto monstruoso e ciclópico demonstrava todo seu ódio. Seus dentes pareciam presas do mais absurdo animal. Os poucos tufos de cabelos que restavam em sua cabeça disforme eram desagradáveis de se ver, untados de uma oleosidade viscosa e natural que exalava um cheiro apodrecido. O ser que até pouco tempo se mostrava uma bela moça, neste momento guinchava horrivelmente, segurando o meu pescoço com suas abomináveis mãos, cujas as unhas negras já penetravam em minha pele. O pânico tomou conta de mim. O medo de morrer, fenecer nas garras daquela que até pouco tempo devorava meu corpo com carinhos furiosos, beijos sufocantes e gemidos entrecortados. Agora, aquela monstruosidade lancinante avançava, demonstrando sua face horrenda, seu rosto verde-acinzentado escorrendo sulcos intoleráveis pela lacuna presente onde deveria estar seu olho direito, e os gritos guturais continuavam a me destruir. Que demônio teria expulsado tal espectro do inferno? Quais seriam os motivos de tal aberração me atacar de tal forma?
Estava quase a perder os sentidos, quando finalmente consegui alcançar o fio do telefone e rapidamente dar a volta no pescoço do diabo feroz. Este, surpreso pela manobra, aumentou sua agressividade enquanto minhas mãos puxavam o cabo, prensando sua garganta até sentir que o fio penetrava em sua podre pele. Em um derradeiro e desesperado ato, puxei de vez o fio, transpassando sua goela de vez, espirrando um sangue escuro e pisado por toda a cama. Seus dedos deixaram de aspirar força e logo consegui tirar suas garras do meu corpo. A garota escarlate estava ali, em minha frente, monstruosa e morta. Sua cabeça, agora separada do restante do corpo, sorria diabolicamente. De sua boca não saía mais som. De seu olho bom, o brilho se esvaia vagarosamente...
Preciso ligar para o Pierre.




Marcelo Fávaro
Enviado por Marcelo Fávaro em 02/09/2019
Código do texto: T6735297
Classificação de conteúdo: moderado

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Sobre o autor
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Telêmaco Borba - Paraná - Brasil
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