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O uivo do Amanhecer (CosmoKaos)
Publicado por: Waldryano
Data: 18/12/2019
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Leitura do conto de ficção científica CosmoKaos
fundo musical, biblioteca youtube, livre utilização
narração; Waldryano

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto

O uivo do amanhecer

-Pai, pai, pai - pifou de novo.
O homem encheu os pulmões de ar e esvaziou num suspiro sem fim. Já perdera a conta de quantas vezes consertou aquela porcaria. Não disse nada apenas sorriu. O sorriso era a resposta que consertaria. O menino olhou fundo em seus olhos e falou:
Pai você é o melhor pai de todos, sabia?
Saiu saltitante procurando outra brincadeira pra passar o tempo.
Logo a noite chegou. Pai e filho sentados à mesa, comendo feijão enlatado e salsichas também enlatadas. O menino tenta pescar uma salsicha de dentro da lata enquanto pergunta para o pai:
-Pai, toda comida do mundo é enlatada?- disse o menino intrigado.
O homem respondeu com a cabeça que sim.
A pergunta lhe partiu o coração, comida enlatada era a única que podia comprar juntamente com sínteses proteicas que são como comprimidos que não tem gosto de nada, apenas saciam a fome. Essas pílulas são de uso militar. Dificilmente um homem consome todas elas e acabam vendendo por pouco mais de nada. Uma vez na mão dos mercadores o preço triplica.
Trabalhando até 16 horas por dia, não vê a cor do pouco dinheiro que ganha limpando convés de naves de carga interplanetárias. Tudo o que ganha é para o bem estar do seu pequeno tesouro, Dudu.
Mexendo no que parece a imitação de um cãozinho de verdade, lembrou das broncas que levava da mulher toda vez que consertava alguma coisa velha:
-Arthur, já te falei, solta isso homem. Vai descansar. Sempre arrumando velharias. Só tu que faz isso.- e dava de ombros.
Ele apenas sorria e continuava até arrumar.
A lembrança lhe trouxe pesar no coração. Olhou pra cima tentou não se emocionar. Sentia falta de sua amada. Samantha trabalhava a noite, saia para trabalhar sempre linda, nunca disse direito como conseguia dinheiro, na verdade não importava. Há alguns meses ela saiu pra trabalhar e nunca mais voltou. A vida que não era fácil ficou muito pior.
Concentrou seus pensamentos no cão de mentira, que era uma cópia nada autêntica de um cachorro real. Emendou alguns fios com fita isolante e a imitação se mexeu e até latiu. Estava pronto. Ao ouvir o latido o pequeno menino veio correndo e feliz. Abraçou o pai com um abraço apertado, ele desejou que aquele momento não tivesse fim. Ver seu filho contente era uma das poucas alegrias que lhe restavam.
Colocou o menino na cama. Deu-lhe um terno beijo de boa noite, quando sentou na sua cama que estava ao lado da do filho para também poder descansar, o menino virou para ele e disse:
-Pai, o Natal tá chegando o senhor sabe não é? Então eu queria um cachorro.
Sem tempo para que o pai respondesse continuou:
-Mas não igual ao Max ele é legal, mas não está vivo de verdade entende?
O pai apenas tapou melhor o filho, passou a mão em sua cabeça, deitou-se e adormeceu um sono profundo e sem sonhos.
Naquela semana tudo o que pensou era de onde tiraria um cachorro de verdade, e pior ainda de onde tiraria dinheiro pra tal feito. Cachorros reais agora eram a melhor opção de proteína dos menos favorecidos. A sua condição financeira não lhe permitia sequer comprar um quilo, quem dirá um cachorro inteiro.

Naquele dia começava o final de semana, pelo menos para aqueles que podiam. Arthur não podia se dar ao luxo de deixar de trabalhar e nas sextas chegavam grandes quantidades de cargas. A dessa vez era uma carga viva, após o desembarque, o convés da nave estava imundo de excreções daquelas coisas, tidas como iguaria. Não tinha máscara ou equipamentos quaisquer que fizesse com que o fedor pútrido daquilo saísse do seu nariz e da sua memória. Conversas banais misturadas ao som dos esfregões não passavam despercebidas ao ouvidos atentos de Arthur. Numa delas ouviu que um dos homens havia ganho cerca de mil UMIs (unidade monetária interplanetária), para ficar uma noite dentro de um programa de realidade virtual. O homem deu toda a descrição do local, só dizia não lembrar de nada do que aconteceu.
Na mesma noite Arthur vestiu a melhor roupa colocou Dudu pra dormir, e saiu decidido, conseguiria o dinheiro, pela manhã estaria em casa.
As ruas alagadas não eram um lugar seguro de dia e principalmente a noite. A robustez e discrição de Arthur eram boas armas para evitar confusão.
Caminhou aproximadamente uma hora e pode ver há algumas quadras de distância o lugar onde o tal programa de realidade virtual se desenvolvia. Era uma espécie de estádio, talvez tenha sido um algum dia em um passado distante.
Entrou em uma fila bastante grande, que tinha todo tipo de gente. Uma jovem mal humorada distribuía a numeração, não eram todos que recebiam. Arthur conseguiu uma e teve um alívio da tensão que carregava a dias. Estava dentro era a primeira parte do processo.
Recebeu roupas limpas e cheirosas, assinou um termo que mal sabia o que estava escrito, afinal era analfabeto funcional. Permaneceu algum tempo na cabine, sem saber o que fazer. Só queria que aquele noite acabasse. De repente as portas se abriram. Todos iam na mesma direção, como ovelhas para o abate. No novo salão sentou em uma cadeira, pensou ter visto Samantha no meio da multidão. Não teve tempo pra pensar nisso. Recebeu um óculos de realidade virtual e um neutralizador neural, e adormeceu.

No outro dia pela manhã, Arthur recebeu seu pagamento, 1000 mil UMIs mas o seu corpo estava péssimo. Cansado, com hematomas e escoriações por toda parte. Não lembrava de nada, o que teria acontecido lá?
Não quis se aprofundar naquele pensamento e decidiu sair dali e procurar por alguém que pudesse vendê-lo um cãozinho.
Foi até o açougue. O homem que atendia riu dele, mas lhe foi gentil:
-Aqui a gente só corta eles, mas procure por Gilber no final da rua 2387 ele tem vários lá. O endereço era do outro lado da cidade decidiu pegar uma condução para chegar mais rápido.
Gilber era falastrão e trambiqueiro, que vendia milhares de coisas. A conversa foi bastante seca e improdutiva. O comerciante pouco se sensibilizou com a situação de Arthur e lhe vendeu o filhote por 800 UMIs. Arthur estava radiante e voltava pra casa a passos largos.
Seu coração bateu mais forte quando viu Dudu na porta de casa que correu para abraçá-lo. Debaixo da jaqueta tirou o pequeno filhote. Os dois choravam de emoção.
Dudu passou a mão no rosto do pai e perguntou:
-Pai aceitou te machucarem para conseguir o cãozinho?
Arthur fez sinal com a cabeça que não.
O animal brincava e lambia o menino que ria com os estímulos que recebia.
Dudu logo percebeu a imperfeição do pequenino animal, e perguntou:
-Pai como ele pode ser tão feliz senão tem os olhos?
Numa das raras vezes em que Arthur falava ele disse:
-Isso não importa pra ele, dê a ele o seu coração e ele te dará o dele.
CosmoKAoS
Enviado por CosmoKAoS em 09/12/2019
Código do texto: T6814350
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Sobre o autor
Waldryano
Telêmaco Borba - Paraná - Brasil
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