Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Áudio
Caribdis
Publicado por: Wilde Green
Data: 08/01/2021
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Texto: Welington Pinheiro (Wilde Green)

Vozes, efeitos especiais e trilha sonora: Guto Russel
https://www.recantodasletras.com.br/autores/gutorussel

Copyright © 2021. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto

Caríbdis
Como saber a verdade sobre um acontecimento, se todos aqueles que o viveram não ficaram para contar a história? Através dos vestígios deixados, diriam os historiadores. Mas e quando não há vestígios? E quando a coisa não volta a se repetir ou se acontece quando quer, sem padrão, sem previsão?

Barcos de pesca zarpam diariamente para o mar em busca de alimento. Alguns gostam das águas calmas de uma baía; outros preferem o colo do continente, com seus rios e lagos. Mas não era esse o caso do Gaivota Azul, o barco dos irmãos Fernandes.

A tripulação do Gaivota Azul era composta por 5 pescadores experientes e amigos até o fim, acostumados ao alto mar. Nada de rios, nada de lagos, nada de praia, eles eram o tipo que viam na pesca não apenas um meio de vida, mas principalmente seu esporte preferido, seu hobbie, seu propósito. Diziam que o barco era sua segunda casa, mas havia um segredo que nenhum deles confessava, o de que o barco era sua verdadeira casa. Ali contavam suas piadas infames, choravam as traições de suas amadas, cantavam e tocavam bêbados as piores músicas que podiam criar e até confessavam timidamente paixões homossexuais. O Gaivota Azul era o templo de seus segredos, o totem daquela pequena seita de homens do mar.

Eles ficariam longe de casa por dez dias, primeiramente com algumas investidas pela costa e depois adentrando a área das grandes ondas. Temerário para um barco de pesca, mas o Gaivota Azul era tão robusto quanto atrevido. Já fizera aquela viagem duas vezes e a Capitania dos Portos prenunciara tempo bom. Nada poderia dar errado.

Mas há uma história que diz que se algo não teve testemunhas, então não aconteceu. Os homens estavam entretidos com suas histórias sexuais e com as garrafas que levaram para acompanhar a viagem. Era uma noite agradável, ventava muito, mas o céu estava limpo. Limãozinho, peixe frito, um gole e uma piada. Não era prudente, mas eles queriam aventura. Foi Chico quem percebeu que alguma coisa estava estranha. O Gaivota Azul estava singrando os mares com uma confiança fora do comum, os homens não haviam exigido toda aquela potência do motor. Ele achou que poderia ser apenas uma neura ou talvez a cachaça já estivesse fazendo efeito. Tentou ignorar e se concentrar nas anedotas.

O Gaivota Azul continuou aumentando sua velocidade e agora os risos se dissiparam dos rostos dos marujos como se uma nuvem ameaçadora lhes roubasse a luz do sol. Eles olharam uns para os outros em busca de alguém que lhes convencesse de que tudo estava normal. Mas não estava. Havia uma montanha à frente, uma grande sombra emergindo das ondas. Aquela montanha não deveria estar ali.

- Que porra está acontecendo aqui? – perguntou Caio, o mais novo.

- Erramos a rota? Não devíamos estar no meio do mar? – desesperou-se Fred.

Paulo, o outro irmão Fernandes, manteve-se quieto, olhando o rastro que o barco deixava no mar. Eles estavam a uma velocidade espantosa. E o pescador foi checar o maquinário.

As ondas estavam aumentando, Paulo tombava de um lado para outro e acabou caindo sobre uma pilha de redes fedidas. Josué era quem deveria estar na direção, mas ele estava no chão, com a cabeça sangrando. Provavelmente bateu com a cabeça devido ao balanço violento do barco. Alguma coisa muito fora do comum estava acontecendo ali. E quando Paulo olhou o painel de direção do barco foi tomado de horror. Voltou correndo e viu seus companheiros olhando para frente, catatônicos.

- Pessoal, O BARCO ESTÁ DESLIGADO! – e olhou na direção de onde os outros olhavam bestificados. A montanha de sombras estava bem mais próxima.

E não era uma montanha.

O barco deslizava velozmente as costas de uma onda gigante e se preparava para enfrentar outra enorme massa de água. Eles se agarraram uns aos outros e rogaram a todos os santos que seus avós lhes ensinaram a rezar. Aproveitando o movimento da descida, o Gaivota Azul iniciou sua subida frenética na onda monstruosa que à frente se avolumava. Eles tombaram no convés e se agarraram no que puderam. Chico ficou com o corpo no mar, segurando-se com todas as forças de sua alma no balaústre. Fechou os olhos e prometeu para si mesmo que nada o separaria do Gaivota Azul, ele se fundiria ao barco.

Ao chegar à crista da gigantesca onda a embarcação saltou em direção ao nada e diante deles apenas outro gigantesco abismo. E o Gaivota Azul mergulhava na velocidade de queda na direção da escuridão. A gritaria era generalizada, o pânico era total. Foi quando olhou ao seu redor que Chico entendeu o tamanho de tudo aquilo. Eles não estavam indo para frente à toda velocidade. Estavam desenvolvendo uma trajetória circular. E ele achou que a madeira do Gaivota Azul não aguentaria aquele ritmo exigente.

Marinheiro experiente, ele se jogou para dentro do navio e correu escorregando no convés, em direção às máquinas. Mexeu em tudo que podia para ligar desesperadamente a embarcação. Conseguiu. Sabia o que fazer. Era como os surfistas faziam, precisava deslizar pela grande onda e torcer para ter velocidade suficiente para não virar.

Erro crasso. Pior do que ser perseguido pela grande montanha de água e sombra é ir direto para seu estômago faminto. E foi exatamente isso que ele fez. Venceu a queda da onda indo com toda a potência do Gaivota Azul sempre em frente. Mas estava no meio de um redemoinho gigante no meio do mar e cada milha à frente era uma milha à menos em suas miseráveis vidas.

O céu cheio de estrelas. Não havia uma tempestade. Era alguma coisa nas profundezas, habitante apenas das histórias de pescador.

Eles olharam na direção do centro e havia apenas uma grande escuridão rodopiando as águas a uma velocidade cada vez maior e engolindo tudo que se atrevesse a se aproximar. O convés se rompeu, era o fim do Gaivota Azul e seus valentes e aventureiros pescadores. E aquela história nunca chegaria às praias do mundo civilizado, permanecendo para sempre como um mito, um conto de pescador.
Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 03/07/2020
Reeditado em 08/07/2020
Código do texto: T6994568
Classificação de conteúdo: seguro


Comentários

Sobre o autor
Wilde Green
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
2 textos (596 leituras)
16 áudios (465 audições)
2 e-livros (55 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/01/21 22:46)
Wilde Green
Rádio Poética