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CPF ou RG?
Publicado por: Alelos Esmeraldinus
Data: 24/08/2010
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Crônica de minha autoria.
Série - Pró-deficientes visuais

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.
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Texto

CRÔNICA #012 - CPF ou RG?

     Sou interiorano. Nem nasci na cidade. Foi mesmo numa zona rural. Tive uma infância muito divertida. Morei até os cinco anos na Vila d' "O  Outro Lado" (hoje Joaca Rolim), distrito de Missão Nova. Chamamos de "O Outro Lado" até hoje pelo simples fato de a vila ser divida ao meio pela junção dos leitos dos riachos Cantagalo e Missão Nova, homônimo distrito e vila.
     Lembro-me como se fosse hoje que, durante a invernada*, ficávamos isolados devido as enchentes. A via de acesso entre as duas vilas ficava totalmente tomada pelas águas durante esse período. Nossa diversão era irmos tomar banho nas enchentes, mas as primeiras eram muito perigosas pois, além do risco de sermos arrastados pela fúria da forte correnteza, as águas eram muito sujas e poderíamos contrair uma série de doenças. Então só permitiam que a gente se banhasse após a terceira enxurrada. A cantiga dos sapos enchia do entardecer ao amanhecer de maravilhosa sinfonia.
      Depois do jantar, costumávamos nos assentar em círculos e brincadeiras de rodas eram nossa diversão: O Anel, Lado Direito, a margarida, Pai Francisco, Enquanto Seu Lobo Não Vem, De Marré - marré e tantas outras. Adultos e crianças brincavam juntos iluminados pelos raios da lua cheia. Era bom demais. Nas noites sem lua o Tio Cely e o Tio Antônio Batista tocavam seus violões e cantavam sucessos da época. Era muito divertido. não tínhamos luz elétrica, muito menos televisão. Talvez tenha sido por aí que nasceu-me o gosto pela música.
     Meu pai tinha um mixto* que fazia linha para Juazeiro do Norte*, via Barbalha* às quartas-feiras e aos sábados. Na segunda-feira, fazia a linha para Missão Velha*. Era muito divertido andar no mixto, seja dentro, na boléia de madeira, ou em cima, em pé, apoiado no gigante*, sentado na carroceria, ou melhorar ainda,  sentado no bagageiro. Quando chegávamos na vila, tínhamos de descer do mixto e fazer o percurso restante até o outro lado porque o corredor* era um tremendal, um lamaçal só. A gente ia pisando, "flop-flop", afundando na lama até o joelho. Chegávamos à outra margem com uma bela bota de lama. Depois íamos tomar banho para tirar toda aquela sujeira.
     Depois dos seis anos, fomos morar em Barbalha para prosseguirmos nos estudos. Depois dos 19 anos morei maior parte de minha vida nas grandes cidades. Quando me aposentei, voltei o mais rápido que pude, para o interior. Foi bom sair daqui ainda jovem, mas voltar agora tem um sabor inigualável. Lá fora eu não passava de um CPF ou um RG à beira de ser devorado pelos agentes do consumismo. Ninguém sabia quem eu era. Aqui, voltei a ser gente. Amado ou não, mas como gente. CPF talvez ninguém saiba que eu tenho um, mas sabe quem sou, o que faço e onde moro. Interessante é que sabem mais de mim do que eu mesmo.
     Eles têm o costume desde o entardecer até altas horas da noite de se sentarem nas calçadas de suas casas e ficar proseando com os vizinhos sobre tudo, mas o prato principal é sempre a vida alheia. Não sei onde acham tanto assunto, mas é assim que levam a vida.
     E você? Como se sente? Apenas um CPF ou RG, Ou se sente gente de verdade?
     Nunca se esqueça, no entanto, que por mais que se sinta isolado, você não está só. Há Alguém que conhece o seu deita e o seu levantar, tem dado sempre do Seu melhor. Ele ama e se importa com você. "Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão"..." mas há um amigo mais chegado que um irmão (Provérbios 17:17; 18:24b).
     E lembre-se. Você não está só. Alguém se importa consigo.

                        Deus o abençoe grandemente!!!
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Glossário(*):
Invernada - período chuvoso na Região Nordeste, compreendido entre Dezembro e Março.
Mixto - Caminhão de boléia de madeira, mais se assemelhava a um ônibus, diferenciando deste pela presença da carroceria. Daí o nome 'mixto'.
Gigante - Suporte que consta de duas barras verticais e uma horizontal, no topo das duas verticais, usadas para fortalecer as amarras da carga.
Corredor - um longo trecho de estrada ladeado por cercas vivas ou de arame.
Alelos Esmeraldinus
Enviado por Alelos Esmeraldinus em 16/08/2010
Reeditado em 24/02/2011
Código do texto: T2440691
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alelos Esmeraldinus
Gama - Distrito Federal - Brasil, 95 anos
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Alelos Esmeraldinus
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