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A má amada
Publicado por: escritor Rogério Rodrigues
Data: 04/06/2020
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Título: a má amada
Voz: Rogério Rodrigues
Música de: Rogério Rodrigues
Tema: curta metragem e peça teatral "A má amada"
Criada em: 31/05/2020

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto

A MÁ AMADA

     Não há outra resposta. Dona Flora realmente era uma mulher muita rancorosa. A ela nada estava bom, em tudo arrumava defeito. Exceto o patrão. Naquele, não é que não encontrava defeito; para ser sincero era ele o erro em pessoa. Ainda mais por ter parado na vida dela. O pior de tudo, seus rancores já estavam se infiltrando na minha vida. Também com ela buzinando nos meus ouvidos o ano todo, sua voz parecia ter dominado a minha mente. Era impossível ficarmos um dia sem nos ver. O dia que eu ousava a esconder dela, o destino nos surpreendia, quando na maioria das vezes, eu sonhava com ela. Cruz credo! Mas era verdade!
                A minha vida era assim desde que a conheci.  Meus amigos eram a fonte do descarrego em todos os momentos de minhas confessações  às maluquices de Dona Flora! Por muitas vezes eu percebia o quanto eles jamais desejariam conhecê-la. Afinal, o que para mim era um sufoco, já pensando na consequência do dia seguinte, para eles, era um desespero, uma grande sacanagem do destino, de um dia junto a mim, encontrá-la e dali adiante terem a consciência do meu tormento.
                 Dona Flora era uma mulher insuportável, quando não abria a boca para falar do patrão, era capaz de no dia seguinte adoecer.
Com pouca sabedoria dada por Deus, eu procurava ao máximo esconder dela. Nos dia de glória, eu pegava, ou melhor, procurava pegar a condução atrasada ou adiantada, só para não a encontrar. Mas o destino persistia em ser cruel, pois sempre nas minhas tentativas, Dona Flora estava presente nas mesmas conduções.
                  Nos meus dias de cansaço ao martírio da vida, eu apelava para o destino, escondia detrás de uma árvore aguardando os meus olhos presenciarem-na  pegando da condução, deixando o ponto de ônibus, do qual, a poucos instantes, eu o utilizaria para trabalhar. Ufa, eu conseguia! Porém, já no meio do trajeto, o destino mais uma vez impiedosamente me apunhalava pelas costas. A minha condução, viria a socorrer os passageiros da linha anterior. Aquilo era fatal. Aquilo detonava meu dia. E para se agravar, em certas embargações pegávamos a mesma condução com uma bela moça, mas muito atrevida. Diante dos olhares de Dona Flora, ela era uma santa; mas, por detrás, vivia imitando-a para mim.Com receio de alvoroçar a fúria de Dona Flora, eu nunca a dedurei, apesar de a minha intenção era de sempre causar, , junto da leoa, enchê-la de bofetadas.
Diante de tudo aquilo ocorrido comigo, e eu nas minhas fragilidades sempre desabafando aos meus amigos, conselhos não me faltavam. Volta e meia, aconselhavam-me a ser franco com Dona Flora. Tudo bem! Força e vontade não faltava, mas diante das pressões dela, nunca tive coragem de realizar o velho desejo. Sempre que pintava o velho desejo, em leoa ela se transformava, mesmo eu nunca a barrando em seus desabafos.
                     O tempo passou. Foram seis anos dentro daquela rotina aparentada mais a um massacre de Hitler. Porém, quando resolvi enfrentar esse pepino de cabeça erguida, algo nos surpreendeu...
Era uma manhã fria, eu e Dona Flora como de costume havíamos pegado a mesma condução. Com as palavras já ensaiadas na ponta língua para soltá-la, ela me dá um toque:
                      — Fique esperto! Aquele pilantra está mal intencionado. – sussurrou, enquanto andávamos pela mesma calçada a poucos metros de distância do tal suspeito.
Sem querer engolir as palavras estudadas na noite anterior, num resmungo respondi o “Anran”. Mas ela com um olhar de leoa sobre o indivíduo, prosseguiu:
                     — Se ele ousar a relar a mão na minha bolsa, eu acabo com a raça dele!
                     No entanto, nos passos continuávamos; o indivíduo também. Nossos encontros aconteceram. Ao desespero fiquei, pois, diante dos atos presenciados, as palavras estudadas, sumiram, sem o desejo realizar.
                    Os berros momentaneamente escutados eram fatais, até as redondezas pararam e se aglomeraram para ver:
                    — Ai! Ai! – gemia o mau elemento de tanta dor.
                    — Tome safado! – enfurecia Dona Flora, atacando-o com várias bolsadas, logo o lançando ao chão, através de uma rasteira. — Não vim ao mundo para apanhar de marmanjo!
                    Dona Flora contestava ao mau elemento, caído no chão, procurando dispersá-la com as mãos. A ela, poderia parecer que ele estaria lutando, mas para quem avistava de fora, dava para “compreender”, não era nada daquilo. Ele, na realidade, apenas procurava escapar de suas garras. Garras parecidas com as de uma leoa. Um tumulto interferido somente com a chegada do camburão de polícia.
                     Dona Flora mesmo longe de ser a vítima daquela circunstância, procurou-se defender, já que pelo levantamento da polícia, a vítima tinha passagem criminal.
                     Por fim, Dona Flora e o “mau elemento” foram conduzidos à delegacia. Já eu, por estar a sua companhia, também não me faltou convite. Convite não, lugar no camburão. Ninguém me ofereceu um passeio na viatura. Aos empurrões, junto ao “mau elemento” conduziram-me. Uma turnê duradoura de quase duas horas.
                     Meu tempo de permanência por ali acabou. O de Dona Flora com o “mau elemento” também. Porém, como já havia avisado no meu serviço que chegaria atrasado naquele dia, saí aliviado dali, sem denegrir a minha imagem.
                     Cansado das neuroses de Dona Flora, decidi a partir daquele dia não pegar mais condução. Comprei uma bicicleta com bons meses sem a ver.
                     Diante de toda aquela situação sobrevivido, meses sem a vê-la, isso foi o melhor acontecimento da minha vida, até que...
Dona Flora longe dos meus problemas, por quase seis meses, eu caminhava sossegado pela ciclovia com destino ao trabalho, quando de repente, uma brusca freada eu ouço próximo a minha bike. Assustado, me desequilibrei, caindo no chão, melhor, esticando-me ao chão.
                      Naquela hora, pensei, “lançaram-me bruscamente contra o tal veículo”. Doloroso, sem esforço, procurei não levantar, enquanto não sentisse o meu corpo saudável. Realmente eram dores, possivelmente impacto da queda. Devagarzinho dei uma leve levantada manhosa com a cabeça, cena a qual chamou a atenção da pessoa próxima a mim:
                      — Calma aí! Eu ti conheço. – alegou a voz, aparentava aproximar-se de mim. E estava mesmo, aliás, mesmo com a visão ruim, pude enxergar seja lá quem fosse, ao coquinho aproximar-se do meu rosto. — Você é...
                     — Cruz credo! – horrorizei-me aos pensamentos, reconhecendo a voz. — A senhora está enganada.
                     — Não estou não. – insistiu, me levantando, logo procurando socorrer a minha bicicleta.
                    Leoa, como eu a conhecia, procurei não a contrariá-la. Dei de inocente, insinuando alguns gemidos e procurando me levantar, chegando até a bicicleta.
                    — Você não está bem. – concluiu ela, recusando a passar-me a bicicleta.
                    — Estou sim.
                    — Não está não. Quer ver?  - afrontou ela, dando uma cutucada de leve em um dos meus braços. — Nem parece que caiu da bicicleta, parece mais ter caido de um décimo nono andar.
                   — É que estou um pouco assustado.
                   — Sei. Vem cá! – ordenou, conduzindo-me cuidadosamente até o veículo. — Entra aqui. Eu te levo ao serviço.
                  Sem força alguma, eu a obedeci. Enquanto ela ajeitava-me no carro, fechando a porta traseira com uma agilidade, logo pondo minha bicicleta no porta-mala. Com o carro em movimento, Dona Flora não se inibia, pegava a falar. Primeiro me apresentou a moça, da qual estava a nossa companhia.
                 Surpreendi, era a tal folgada cuja vivi a  imitando, no ônibus, para mim. Moça desinibida. Insinuou nos conhecer, naquela hora.
                 — Olha isso! – interferiu Dona Flora em nossos momentos, exibindo a mão esquerda e num dos dedos o anel de compromisso.
                 Experiente dos últimos meses vivido com ela, não disse mais nada a um simples “Anram”.
                 — Vou me casar! – deslumbrou, enquanto a outra, soltava um sorriso sombrio.
                 — Nem sabia, a senhora tem namorado? – apelei, enquanto a irônica, ria novamente.
                 — E quem disse que você precisava saber? Filho, eu não nasci para viver sozinha.
               — Desculpe!
               — Não precisa se desculpar. Apenas adivinhe com quem vou me casar...
               A uma saia justa, apelei a um sorriso forçado, alegando:
               — Desculpe! Não faço a menor ideia.
               Saturada da minha falta de imaginação, mas empolgada para soltar de vez o babado, dizia:
               — Sabe aquele manezão do meu ex-patrão? Vamos nos casar, inclusive, estávamos a sua procura para na companhia "dessa aí", serem os padrinhos do meu casório.
                — Eu?! – estremeci, surpreendido com o convite.
                — Por que não? Conhece bem a minha história.
                — Também acho. – intrometeu a moça, maliciosamente piscando-me um dos olhos.
                Na verdade, eu não queria, não sabia a proporção da mudança na Dona Flora. Fora o meu santo que não batia com o da moça!
               Meses passaram, era um sábado ensolarado. O salão onde aguardávamos os noivos, estava lindo. E bota lindo naquilo!
               Bem, mais linda estava a fingida, quer dizer, Mônica, era esse o nome dela. Sua presença no casamento estava deslumbrante. Vários suspiros arrancou de mim, incrementado com o batuque do coração. Não sei bem, se era amor; poderia ser paixão. A única coisa certa, era que eu já estava passando dos limites de tanta deslumbração por Mônica. Não sei se ela havia percebido, mas justo naquele dia, teria me tratado diferente, nem uma ironia da parte dela sobre Dona Flora eu ganhei.
                Dona Flora! Ela nem parecia ter existido por àquelas horas. Conversamos bastante. Nossa! Que Mônica interessante! Não sei não, mas ela aparentava sentir algo a mais por mim! Eu enxergava nos olhos dela. Nossa conversa estava tão boa, que  a entreguei de vez. Lógico, cometendo um vacilo. Esquecendo de convidá-la para sentar. Algo que partiu dela. Eu? Eu atendi na mesma hora. Por incrível que pareça, a noiva apareceu, digo, Dona Flora apareceu. Ela na entrada do salão. Já o ex-patrão, digo, o noivo, próximo ao altar; onde o destino lhes uniria para sempre. Nossa! Pela maneira do noivo a receber, Dona Flora parecia nunca ter falado a verdade. Ele era completamente diferente das suas calúnias. Deveria ser pelo amor não correspondido!
               A cerimônia prosseguiu. Os pombinhos se casaram. A hora do buquê chegou, arrastando a maior parte das mulheres presentes a disputa de quem o pegaria. Lógico, Mônica foi junto.
O lance do buquê foi em contagem regressiva até três. Mônica o pegou. Diante de quem já haviam presenciado aquela cena, Mônica foi correndo mostrar para mim. Dei de surpreendido, afinal, fora o momento a dois dos noivos, o lance do buquê é a próxima atração do casamento. Ninguém fica de fora. É o assunto do casamento. Depois daquele dia, Dona Flora nunca mais a vi. Junto do outro, vivem lá em outro canto da cidade. Já Mônica, estamos aqui juntinhos, para esta história te contar...
escritor Rogério Rodrigues
Enviado por escritor Rogério Rodrigues em 30/12/2018
Reeditado em 17/06/2020
Código do texto: T6539071
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
escritor Rogério Rodrigues
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 41 anos
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escritor Rogério Rodrigues
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