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A vida continua...
Publicado por: Leila Marinho Lage
Data: 12/03/2010
Créditos:
Crônica de Leila Marinho Lage. Música de Renato Russo, Vento no Litoral. Interpretação Cassia Eller e Renato Russo

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto
Vento no litoral

Para lerem com som, CLIQUEM AQUI.

Ou ouçam o áudio no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=OR1_dmqAoGY

Ver certos olhos marca. Eu costumo ver olhos além do olhar.
Vejo olhos de medo, geralmente provocados por mim, mas também me transporto para estes olhos, entro neles. Sinto na carne estes olhos...

Quantos olhares foram a mim dirigidos que eu nem tive controle sobre eles... Absoluta e dominadora da situação, eu olhei para olhos que me pediam mais do que eu poderia dar. Quantas vezes olhei assim, da mesma forma que eu, em certas épocas, não encontrei conforto no olhar do outro... Quantas vezes eu pedi pra ser olhada e só viram máscaras... Vi olhos esta semana que me assustaram. Eu vi no olho, vi lágrimas, súbita e traiçoeiramente soltas em olhares que queriam se esconder.

Está na hora de sumir... Está na hora de reflexão. Não estou encontrando meu basal, meu fio-terra. Estou me emocionando muito com os sentimentos alheios. Isso não é bom... Precisam de mim como máquina e me sinto mulher, menina, criança. Tal como os olhos que vejo em meu trabalho, na minha vida.
 
Pessoas sofrem, pessoas se magoam, pessoas estão em conflito. Isso eu recebo toda hora e preciso estar limpa das energias que me trazem, que esperam que eu elimine.

Não sou nada neste mundo e encaro encargos além da minha capacidade emocional. "O que posso fazer é cuidar de mim"...
 
Para estar bem para ajudar, preciso estar bem intimamente. Tá na hora de desaparecer e deixar a "onda me acertar". Instrumento da paz, instrumento da cura, instrumento do amor ao próximo... Eu preciso estar bem para ser isso tudo, apesar de saber que nada sou além de uma pequena sementinha no mato, de uma pequena concha vazia na areia.

Querem de mim mais do que posso dar. Encargo difícil este...
Vi uma pessoa chorar de repente, sem mais nem menos, numa conversa à toa. Vi mais de uma pessoa chorar... O que fez pessoas chorarem? O que elas me trouxeram ao meu lugar de trabalho? O que fez minha presença para que pessoas sentissem vontade de mostrar seus sentimentos? Eu nem pedi para saber!

Sei e não sei. To sendo catalisadora de sentimentos, mas não estou conseguindo controlá-los e não estou conseguindo administrá-los. Estou pondo à for da pele quem está - ao mesmo tempo que eu - ao meu lado, como fio desencapado. Preciso encontrar meu basal.

Sumirei e depois, quando voltar, farei um PPS bonitinho. Ninguém saberá por que o trabalho, mas estará registrado, da mesma forma que registro cada dia de minha vida e da vida do outro, daqueles que fizeram com que me sentisse mais gente.


Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 12/03/2010
Reeditado em 28/05/2011
Código do texto: T2134026

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
1105 textos (781566 leituras)
25 áudios (20321 audições)
144 e-livros (55224 leituras)
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Leila Marinho Lage

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