A FORMA DO DIZER

Publicado por: Francisco Coimbra
Data: 10/04/2007

Créditos

a forma do dizer locução e texto: FC
ABRIL DE 2007
Dia 1
Há dois anos atrás, no dia 14 de Março, já lá vão: 365 + 365 + 17 = 747 (um Boing! dos grandes) dias, comecei este Diário Recantual. Vamos celebrar o Dia das Mentiras:
http://www.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=433415

Dia 10
Acabaram as Férias da Páscoa, para matar saudades vou publicar um áudio:

A FORMA DO DIZER

não, acreditas no que quiseres, eu quero acreditar,
se acreditares nisto saberás tanto como eu,
o amor escreve-se assim como se não tivesse nome
vive no entanto da luz como as cores no dia

durante a noite encontro estas palavras soltas,
estão tão vazias elas, como eu quando as digo,
gostava de saber que nome darias a estas quatro quadras,
sabes agora serem quatro quadras, poderás escutá-las de novo

é como um parágrafo o silêncio que marca cada estância,
poisa como um pássaro, levanta como um voo,
oiço a noite sozinho, para a poder dizer como nossa,
faço com que me pertenças, para tanto me basta a poesia

não quereria que chorasses inutilmente
a minha morte de poeta falhado pelo amor
mas conto afinal com isso para ficar
definitiva e irremediavelmente ridículo

não sei se o consigo porque decidi convicto perseverar,
deixar desconfiado a confiança confiadamente ficar,
não  acrescento mais nada ao poema, limito-me
a acabá-lo dizendo apenas sons com as formas dos dizer

dizendo-os verdadeiramente

§ 

Qual seja "a forma do dizer" ou "as formas dos dizer"... Os sons das palavras, quando as escrevemos, podem formar quatro quadras onde depois escrevemos mais que isso. Isso, ou isto, ou o que quer que seja, a poesia deve ser o que se deseja! A Poesia, essa, é outra coisa diferente, são os versos. Esses podemos contá-los, temos dos escrever, mas será essa "a forma do dizer"? A verdadeira forma do dizer é a poesia, a que cada um sente mas só o poeta pode e sabe escrever. Eu, pobre de mim e de nós, apenas posso, apenas podemos, esperar que o outro, os outros, ao fim ao cabo nós, saiba, saibamos, possa, possamos, voltar a procurar ler, ouvir verdadeiramente "a forma do dizer"  a eles, sons das palavras escritas!

Dia 15
15-04-2007 9:37:00

NO N.º 3
Registo dos dias de tua ausência.
A casa agora é da gata, deve estar a dormir na tua cama.
Ontem, depois de te deixar no táxi, regressei.
Dei uma ligeira alteração à sala, outra colocação da cadeira de baloiço; verás quando voltares. Pus o rádio a tocar, pensei ler mais um capítulo do D. Quixote. Acabei por escrever:

14.04.07
Ontem foi sexta-feira 13, o que faz com que hoje seja sábado. Acho (seja) este um começo eficaz para dizer a data, falta acrescentar ser primavera, no mês de Abril.
Todos os dias têm a sua história, esta é para ir ao encontro duma capaz de dar sentido a 31 dias (dar a volta ao 13). Se Abril não tivesse apenas trinta dias, a realidade seria facilmente ficção...
Um mês dá mais que tempo para escrever um livro! Livros de Poesia, faço-os num dia... Fazer o mesmo durante um mês, porque não? Se o mês tiver passado e tiver tido escrita.
Trinta e um menos catorze, dezassete... dias para escrever um livro. Para testar a minha determinação, vou fazer um livro de Poesia. Os que se escrevem num dia não podem ser grandes, não devem. Os que se fazem num dia, podem ser tudo.

A RAZÃO DA PALAVRA

A palavra precisa de espaço, precisa de tempo, precisa de atenção, por esta razão: a razão da palavra é o destino da prosa num verso, a sua aspiração a ser “a rosa”.

a rosa (1)

aspiro o seu aroma
sentido na boca sabor
do desejo de ser romã
romance deste poema.!.

sabor e ar (2)

erguido no caule do desejo
teu beijo escorre a língua
húmida do prazer que sabes
saborear como o saboreio

canção (3)

a inspiração, meu amor,
é esta canção que te digo,
amor de amigo, tua canção

Lego perfeito (4)

nada é perfeito
e eu, menos que nada,
digo-o com mágoa

magoo o ego
até to dar domado
como um Lego montado

Inspirei-me em Mim, a alma gémea do génio: aquela que aspiro, a que me faz sofrer, a que me dá a Paz e o Sofrimento, minha aspiração e inspiração, perfeita metáfora (o mais completo Lego) «meu coração».
Poderás leitor achar estranhas algumas passagens, tentei fazer um desenho do destino. Nada é perfeito, como digo num dos poemas.
Há que ter um profundo sentido - para captar o essencial -  «a poesia é feita de essências e raízes».
Nada é tão perfeito como o Silêncio -, essa impossibilidade que quase podemos tocar, capaz de nos matar a sede como a água - duma pureza cristalina, é a mais segura matéria da escrita.
Isto é o que precisava de escrever para tentar dizer o que escrevi, disse.
Assim Mesmo

15-04-2007 10:28:51
Qual Mr. Magoo, vou tentar fazer de boneco animado da inspiração do mestre, Assim me perdoe, ou Assim seja!...

juiz da verdade (5)

verdade verde
como seiva viva
alimentando verde

a amazónica floresta
onde enraízo
o juízo

cantoneiro (6)

cantoneiro do sonho
ando abrindo bermas
à mão nestas margens

cuido destas paragens
de passar em viagem
ou apenas passeio

amante (7)

como só tu
sabes como
te amo e sou

por isso preciso
de ti para ser
e somos

caminhante (8)

o longo caminho
com duração
ínfima... (é  ser)
por
onde
eu sigo

Tudo na natureza é ritmo, queda, percussão... percurso. Agora paro, logo continuo... Em cada momento um misto de divindade e homem se aliam em mim e crio o Mito: Mim, és a minha realidade!
Assim Mesmo

momentos correspondentes

As garras deste dia agarram-me ao sonho, o seu bico dilacera-me o fígado enquanto... como Atlas vivo às escondidas com o passar do momento. Sempre me delicio a pensar se estarás com cio no preciso momento em que te acaricio, num movimento da Língua nossa, com a minha língua.
Tua, sim.
Mim

A cauda do dragão chicoteou o ar, ouço-a de novo, mais devagar, gravo na memória a fantasia. Só tua vinda me dá vida, viajo a ler-te como um corpo que se entrega ao amor: amo-te!
Ainda te quero dizer mais uma coisa, quando te escrevo inscrevo cada partícula de mim numa partícula de Mim, fundimo-nos num nó. Os dois, juntos, e aponto uma infinidade de pontas... Nesta o buraco da agulha onde quero passar; sou este camelo que te quer: amor.
Assim

anfíbio (9)

1
evoluo como 1 anfíbio
2
procurando estabelecer
razão entre dito e feito
3
no efeito dum verso nu

aproximação (10)

aproximo
afasto
com
...
paro a ver o efeito, a-
fino:
até ficar perfeito!

certeza (11)

aquilo que tenho
é o que te dou,
só me sobra
de sobra
a obra
ser
1
eu
2
eu e tu
3
nós

infinitamente (12)

em cada momento
mudo e continuo
ainda a mudar

«Só sei que nada sei» mas, enquanto vou sabendo nada saber, procuro nadar no nada como quem nada: mantenho-me à superfície do que imagino fazer. Saber, já se sabe que nada se sabe, sobra a obra: o que não se sabe para além do sabor com que se obra, é a obra.
Só adoramos a presença do que é Deus na Terra, tu és a minha terra  onde semeio a glória, em sémen da vida! Havendo escrita, a reprodução é parte da acção onde entra arte, SE nasce e se firma, afirmação plena.!.
A glória da existência é um fecundar de Fé a realidade: a água benta é benzida, será boa para beber se  não a usar apenas no peito e na testa a persignar-se. Como sabemos a Fé vive de rituais; para beber bendizendo a Fé, é o vinho. Tinha de ser..., prática reservada a ministros.
A minha obra sobra de mim para Mim sem nunca deixar para amanhã o que não fiz ontem: renovo todos os dias. Agora outra ideia,  Ser herege permitir-me-ia blasfemar? Não sei, não quero saber, não tenho inveja de quem sabe e pena, nenhuma. Apenas pêlos na pele: cabelos, barba, pentelhos...
Por agora, é tudo.
Assim

limando (13)

limar a palavra
até a transformar
em limiar do vazio

Dia 20

Não faço esforço nenhum para nada perceber, quando quero perceber alguma coisa tento fazer o mesmo, nada fazer. Os meus comentários, quando deste modo feitos, sem esforço, são sempre um esboço, mero esquisso. Esqueço-me e esmero-me, neste esforço de não me esforçar. Acabo por comentar não comentando, a mando da razão superior de não valorizar o que nos permite dar um valor às coisas. Isto dá-me o prazer do fazer em fase... Parabéns à Filipa e amigas num texto que particularmente me faz circular em espiral! Bjs 
http://onossocenaculo.blogspot.com/2007/04/teoria-das-cores.html 

Dia 24
Amanhã é 25 de Abril, passo para deixar Assim.

nu mundo

1
apenas as palavras
são o teu canto,
o teu lugar

2

embalo
a palavra
como barco
nas tuas ondas,
leio e a seguir…

releio
o tempo
ainda aqui
nas tuas ondas

acaricio
nu encanto
nas tuas ondas

no entanto
nas tuas ondas

andam os versos

3
vão
e fica
a espuma…

(a validade
da poesia é arte
sem representação!)
Assim
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 01/04/2007
Reeditado em 24/04/2007
Código do texto: T433408