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DUAL

 

Sou uma espécie rara, raríssima por assim dizer.

Não que eu me ache algo além e nem acima de.

A ideia é bem outra. Eu não me acho nos outros.

Uns se veem em mim e eu me vejo em poucos.

 

Uns parcos não me alcançam, mas me atingem.

Vivem na mentira e eu na ilusão do que fingem.

Sou uma linha tênue que nem sempre atenua.

Sou a que doa as vestes e a capaz de ficar nua.

 

Sou a transgressora e também sou a salvadora.

Sou a vasta experiência residente na amadora.

Gosto de mim, mas nem sempre aprecio o gosto.

Vou da degustação picante ao paladar insosso.

 

Se amo, sou infinitamente um céu com astros.

Se odeio, sou abismo, um absinto eu me faço.

Acusação, perdão, vítima, ré, juíza, juri e perita.

Num limítrofe espaço de tempo rebobino a fita.

 

Sou livre e quando me ato dificilmente me livro.

Escrevo um livro pela ausência do livre arbítrio.

Na dor eu sofro e no sofrimento sei fazer doer.

Ressurjo com um traço mais forte em meu ser.

 

E vou me doando até que tudo me doa mesmo.

Do veneno faço a vacina num estalar de dedos.

Eu aprendo, ensino, eu aprendo a desaprender.

Tudo acontece, inclusive, nada pode acontecer.

 

Se quero sou a dona da casa, se não, sou a visita.

Encontro-me num mundo onde me perco de vista.

Sou garimpeira de valores e isso é bem trabalhoso.

Sou lapidada e fico em paz toda vez que explodo.

 

Às vezes, o sol me alegra, às vezes ele me fere.

Canso da brincadeira e vou brincar com a neve.

Às vezes, a noite é solidão, às vezes é companhia.

O que me é muito, vira pouco da noite para o dia.

 

Sou eu quem abre brechas e fecha as rachaduras.

Monto, decoro o meu altar e intercedo pelas duas.

Um amor me é tudo e de repente o tudo foi pouco.

Bebo água de dentro, fazendo de mim o meu poço.

 

E do nada eu aprendo a refazer tudo novamente.

Outros erros, outros acertos... Mas, tudo diferente.

Incansável a bola gira, eu me acho, me desnorteio.

Sorte ou revés, cara ou coroa, invento um sorteio.

 

Algo em mim diminui para que outro algo cresça.

Algo em mim morre para que outro algo floresça.

Não sei se algum dia, isso terá um fim definitivo.

Pois, tudo sempre acaba com o dito pelo não dito.

 

E entre o derradeiro começo e os supostos fins.

Prossigo permeando entre os "nãos" e os "sins".

O tormentoso meio se torna em infindos clichês.

Torturando-me à mente nos famosos "porquês".

 

Mas, muito exausta estou e me sinto por um fio.

Dessa vez ele me vence ou eu venço o desafio.

Hei de matar toda essa charada preconcebida.

Ou de tanto me tirar respostas me mata a vida.

 

(Andrea Jassi)