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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 12/11/19 13:04)
Guilherme Drumond

Textos do autor
Perfil
Nasci em 26 de dezembro de 1978. um dia após o Natal. Por isso não se espante se eu der um surto de messianismo. Nasci numa clínica chamada São João Batista, em Venda das Pedras, município de Itaboraí. Pra quem não sabe São João Batista vivia no deserto batizando as pessoas com as águas do Jordão. Vestia apenas uma pele e comia só gafanhotos e mel. O mel era pra ajudar a descer os gafanhotos.

Minha primeira comunhão foi na Capela, hoje Igreja, de São João Batista. Tinha uma imagem dele na Capela. Tinha não, tem. Ele ficava lá parado, com o dedo apontando pro céu como se dissesse: "Hei, mais uma porção de gafanhotos, por favor! Ah, e com bastante mel!"

Só fui lá em Venda das Pedras pra nascer. Se você não sabe no meu tempo as parturientes precisavam de um médico pra dar a luz. Antigamente, no tempo de João Batista, era mais simples. Hoje tem os obstetras. Em Rio Bonito o hospital estava meio precário. Por isso meu pai pôs minha mãe no lombo de um burrinho... ops! No carro e partiu, pra eu nascer com menos risco de infecção hospitalar. Já pensou se tivesse nascido no Hospital de Rio Bonito, tivesse pego uma infecção na maternidade, e tivesse morrido? Puxa, ia ser chato pra caramba... principalmente pra mim.

Depois de nascer tive que crescer. E o fiz em Rio Bonito. E fiz bem feito, creio eu. Não sei se existe alguma norma sobre a infância feliz, ou alguma regulamentação. Mas crescer foi bom. Vivia no meio da sucatada do quintal. Uns dias voava de nave espacial. Noutro era um soldado acertando inimigos imaginários. Noutro fazia grandes cabanas de sucata. Teve um dia que fiquei preso dentro de uma geladeira antiga, daquelas que tem uma trava por fora. Coisa de museu. Todo mundo começou a me procurar, mas quem ia imaginar que eu ia estar dentro da geladeira?

Já ia morrendo quando um cara qualquer abriu a geladeira. A essa altura já estava roxo. Não morri daquela vez. Que bom! Ia ser muito chato se tivesse morrido tão novo.

Resolveram me ensinar a ler e contar. Muitas crianças no meu tempo eram levadas as escolas pra aprender a ler e escrever. Contar também. Creio que era tradição alfabetizar as pessoas, desde o tempo dos jesuítas. Provavelmente pra podermos ler a bíblia. Mas aprendíamos a contar também. Acho que era a contribuição do diabo para nossa formação. Contar é uma arte meio demoníaca. De qualquer forma eu logo estava lendo, mais gibis que a bíblia. Contar eu não contava bem. Nunca contei bem. A matemática é meu flagelo!

Não me lembro de muitos fatos da escola. Foi um tempo triste. Meio que solitário. Confesso que guardo mágoa desta instituição divina e diabólica que é a escola. A minha se chamava Colégio Municipal de Rio Bonito. No plano original se chamava Centro Educacional Navega Creton. Tinha quadra, piscina, uma belíssima estrutura. Mas fizeram mesmo um prédio bem simples. Muitas salas, bem quadradinhas. Com o tempo foi ganhando grades, portões, muros... Hoje está parecendo um presídio. Acho que o diabo está levando a melhor nessa briga...

Um dia eu entrei na faculdade. A estadual do Rio de Janeiro. Durante três anos tentei estudar história na universidade federal. Nunca me aceitaram. Só me deixaram estudar geografia e na estadual. Fico feliz com isso. Me tornei um educador, em vez de um intelectual. Intelectuais ou são tristes por saberem um pouco da verdade, ou são felizes por a ignorar. Somente os educadores, incluindo aí qualquer um que troque o que sabe com os outros. Somente estes fogem a maldição da saber algo. Acho que é por causa do poder transformador que tem o saber trocado, ao contrário do saber guardado dos acadêmicos.

Saber de ouro vale menos que lata. Bom é o saber de madeira talhada, de barro moldado, de pedra empilhada. Saber de gente pra gente. Saber que é saber de mais é certeza. E certeza é burrice. Bonito mesmo é trocar o que sabemos. É tocar e ser tocado.

Durante esse tempo eu fui socialmente, como sempre fazem os seres humanos, aprendendo as coisas. Da minha mãe aprendi o amor aos velhos. Do meu pai aprendi o amor pelas árvores e pelos bichos. Ambos usaram minha mão de quadro negro. Muita coisa foi escrita nesse quadro. Não me lembro quando comecei a trabalhar de fato. Mas creio que sempre estive envolvido com alguma atividade da família. Meu pai era mecânico refrigerista. Minha mãe dona de casa. Depois descobrimos um negócio: caldo de cana. Fomos vender o tal caldo da cana. Até hoje o vendemos. Minha mão foi um quadro negro. E nesse quadro lições de trabalho, dedicação, lealdade e responsabilidade foram sendo escritas.

Tomei muitas ferroadas de abelha na mão. As abelhas vinham ansiosas pelo caldo de cana. Abelhas adoram garapa! Deve deixar o mel mais doce. E João Batista iria se zangar comigo se impedisse as abelhas de se encher de garapa. Nunca o fiz. Mesmo com a mão inchada de duas, três ferroadas continuava a cuidar delas, eventualmente salvando uma de um afogamento no caneco cheio de caldo de cana.

Hoje eu não sei o que sou. Mais fácil seria dizer quem não sou...

Não sou mais aquele garotinho burro que conseguiu se trancar dentro de uma geladeira, e que gostava de jogar as ferramentas do pai no rio que corria ao lado da casa. Não sou mais o garoto melancólico que vivia dentro da maldita escola, ciente de que educação era mais do que era feito ali dentro.

Não levo mais ferroadas de abelha na mão. Aprendi a não mais me trancar dentro de geladeiras. Aprendi a escapar das ferroadas. Cresci, e hoje sou um homem. Não melhorei em nada.

Continuo me arrebentando como antes. Ainda vivo arrumando encrencar enormes. De fato nada mudou em mim. Apenas a forma que não é mais a mesma. Ainda sou aquele garoto de antes. Ainda sou aquele bebê, tão frágil como no dia em que nasci em Venda das Pedras. A única diferença é que aprendi, socialmente como sempre e como todos, a disfarçar bem minha fragilidade. O menininho virou homem, mas ainda é o mesmo. E minha força reside no meu reconhecimento das minhas fraquezas.

Eu mudei e continuo mudando...

Só João Batista que ainda é o mesmo: dedo apontando pro alto, pedindo mais uma porção de gafanhotos com mel.


Última atualização em 12/11/19 13:04