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Manuel Joaquim da Silva Costa Leite: o Pai dos lavradores de São Miguel

Manuel Joaquim da Silva Costa Leite: o Pai dos lavradores de São Miguel

‘O senhor é que está bem!’ Virava-se para mim enquanto o café não chegava à mesa do Café Central. Não fazia nada para disfarçar o seu sorriso meio-irónico a irónico de gozo. Passava de um a outro registo com a facilidade com que as nuvens cobrem ou descobrem a boca da Lagoa do Fogo.
Não dispensava um dedo inteiro de conversa aos Domingos e dias feriados no Café Central quando ia levantar o jornal Expresso que assinava. Nos dias comuns da semana, apenas meio dedo de conversa. Um homem de poucas mas acertadas palavras. Um homem honrado. A sua obra salta à vista de todos: se a Ribeira Grande é dos maiores concelhos industriais a ele o deve. Aprendi com ele a respeitar e admirar o trabalho de empresário.

Notas esparsas: cá e lá

Acelerava a motorizada da sua casa na rua das Freiras pela calçada da Pólvora acima em direcção à Lacto Açoriana. Passados anos de muito esforço e total dedicação viria a ser uma das maiores fábricas de lacticínios do país. A subida era suave, ainda assim exigia esforço à máquina de pequena cilindrada, esforço a que ele, apesar dos seus vinte e cinco anos, também estava habituado desde tenra idade.

Ia de bicicleta namorar Élia à aldeia de Sandiães, freguesia de Rôge. Seriam ainda umas boas duas horas de caminho, diz-me D. Élia. Conheceram-se pela Senhora da Laje e viam-se por festas e feiras das cercanias. Namoraram dois anos e casaram-se num dia de Reis na igreja de Rôge. Élia Marques de Almeida, mais nova apenas três meses, e Manuel teriam vinte e quatro anos. Manuel Joaquim nascera na remota freguesia de Castelões, no Concelho de Vale de Cambra, Distrito de Aveiro, mas cedo, segundo a esposa, mudara-se com os pais para Lordelo. Aí terá feito a escola primária. Manuel era filho de Francisco Costa Leite e de Luciana Joaquina Costa Leite. Os pais exploravam uma fabriqueta de manteiga em Lordelo. Élia era filha de José Soares de Almeida e de Isabelina Marques de Almeida. Exploravam, em Sandiães, também uma fabriqueta de manteiga e mantinham ainda uma mercearia de porta aberta.
Costa Leite chegara à Ribeira Grande uns escassos dois meses antes de Manuel Barbosa, em Abril de 1948. Não trazia a jovem esposa nem o filho Victor de sete meses, nascido a um de Setembro de 1947, nem tão-pouco nenhum canudo universitário, trazia o saber feito de várias gerações de fabricantes de manteiga, a instrução primária, e uma vontade indómita de vencer na vida. Havia ainda ponderado fixar-se em Espanha. Felizmente que optou por se fixar na Ribeira Grande. ‘Senhor Costa Leite, tu és o pai dos lavradores da ilha de São Miguel.’ Dizia um quadro pendurado num Posto de recolha de leite na costa Sul da Ilha de São Miguel.
A fábrica arranca no dia um de Setembro de 1948. Hoje ostenta o nome de Fromagerie Bell. 2010: Bel O nome completo do motociclista era Manuel Joaquim da Silva Costa Leite. Nascera às portas do Verão habitualmente quente do continente, a vinte e um de Junho de 1922 e entregou a alma ao Criador, após muito padecimento, no Hospital do Divino Espírito Santo, num dia sombrio e fresco do Outono ilhéu, a vinte e um de Outubro de 2001. O seu corpo esteve em câmara ardente na ermida de Nossa Senhora do Rosário: passagem obrigatória a caminho da sua fábrica. Após o que, a urna seguiu para o aeroporto de Ponta Delgada com destino à cidade de Lisboa, e daí seguiu em carro funerário para Vale de Cambra. Foi a sepultar à sua terra natal. Havia sido operado ao coração e era diabético. Ia resistindo com bravura. Todavia, já hospitalizado, a pneumonia fulminante abrira-lhe as portas a todo o tipo de complicações, o organismo debilitado não resistiu a tanto. Houve quem, por o sentir um dos nossos, não se conformasse com a escolha da sua última morada. Mas, estou em crer, o Sr. Costa Leite terá o corpo lá e o coração cá. A esposa dera-lhe outros dois filhos: Élia e Jorge, ambos fuseiros de gema: Élia em 1951, cinco dias depois da festa de Nossa Senhora da Estrela, Jorge, meu colega dos tempos do fraldário e das andanças dos States, em 1957, no dia em que os franceses celebram a tomada da Bastilha. Não tinha canudo mas deu canudo aos filhos que o desejaram.

Não se dava por satisfeito, sabia que no seu ramo quem não se actualizasse, quem não lesse os sinais dos tempos, nunca teria sucesso, nem gozaria por muito tempo descansado o sucesso, a vida era um rodopio de mudança, por isso tentou a sua sorte em Angola. A independência fez-lhe ruir os seus sonhos de expansão.
Inconformado com a reforma que lhe impuseram, farto de ver televisão e ler jornais, e de conversa de ocasião, regressa de Vale de Cambra onde sonhara passar uma reforma dourada e calma, longe das apoquentações da indústria, e funda de raiz uma nova fábrica, a Insulac em 1992. Apesar de ser dia de Petas, a fábrica arranca mesmo a um de Abril de 1995. Tem actualmente a geri-la o filho Jorge.
Morara em três casas diferentes da rua das Freiras, onde dois dos filhos nasceram, mudara-se para a residência anexa à fábrica, hoje demolida para dar lugar a um parque de estacionamento, agora adquirira uma casa na rua do Mourato n.º 57.
Não distinguia os dias de descanso dos dias de trabalho, os Domingos e dias feriados eram ocupados em visitas minuciosas aos postos de recepção de leite espalhados pelos quatro cantos da ilha. A esposa, Élia Marques Almeida, a companheira fiel para o resto da vida, que ia namorar de bicicleta, acompanhava-o sentada ao lado do seu potente carro: ‘não há canada, rua, eu sei lá, desta ilha que eu não tenha estado.’ Diz-nos. Foi padrinho de lavradores, de filhos de lavradores de meia ilha. Era bom ouvinte, estava a par de todas as novidades do seu sector, paciente, bom negociador, chegou naturalmente a Presidente da ANIL Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios.

Quero crer que até na sua participação cívica, Costa Leite, mais do que o prestígio de que retiraria daí, teve sempre a sua fábrica em mente. Queria sempre o melhor para a sua fábrica. Estar por dentro, quer da ANIL, quer na Câmara, dava-lhe vantagem. Desempenhou directa e indirectamente cargos na autarquia: fazia parte do elenco camarário quando se deu o 25 de Abril de 1974. Foi no tempo em o engenheiro Fernando Monteiro foi presidente: entre 1970 e 1974.
Apesar desta ligação ao passado, era amiúde consultado na vigência do Sr. Artur de Sousa Martins, chegou a Presidente do Conselho Municipal e foi membro pelo PSD da Assembleia Municipal. Nos primórdios do poder local, pós 25 de Abril, reconhece-o grato o Presidente de então, Artur de Sousa Martins, anos de poucos teres e reduzidos haveres, era um dos grandes patrocinadores dos eventos promovidos pela autarquia. É na vigência daquele autarca que foi agraciado pela autarquia.
Mais tarde, terá tentado, sem sucesso, ao que se crê, a geminação das suas duas terras: Vale de Cambra, terra da sua naturalidade, Ribeira Grande, terra da sua adopção. Recebeu em vida o mais alto galardão atribuído pela República: a Ordem de Mérito Industrial.



Valeu a pena o esforço de uma vida?
Posso estar enganado, mas não andarei muito longe da verdade se disser que ele se aqui estivesse diria com o seu meio-sorriso irónico: ‘o Senhor, é que está bem!’
Mário Moura
Enviado por Mário Moura em 30/08/2010
Código do texto: T2468834

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Mário Moura
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