MINHA JUVENTUDE EM JABOATÃO

Lembro de alguns fragmentos da minha infância e juventude numa cidade tranqüila em Jaboatão. Em Janeiro a partir do dia 6, inicia as comemorações do padroeiro da cidade que é Santo Amaro. Esses anos estão situados em um tempo histórico entre as décadas de 1960 a 1980.

Meus avós moravam na rua da igreja que sempre foi conhecida pela ladeira de Santo Amaro, alias, era um dos melhores lugares da sede para se morar. Todas as noites, os jovens subiam à ladeira e se aglomeravam, pois era costume contratar algum cantor ou banda de renome para a festa. Cada noite contava com grupos da cidade. Tinha a noite da Rede Ferroviária, do Clube de diretores lojistas, do 14º Batalhão de Infantaria Motorizado em Socorro, e de outros que não lembro mais.

No ultimo dia, a banda ou cantor mais famoso fechava a festa, que era dia 15 de Janeiro. Nesse dia, íamos para a casa dos nossos avós. Tinha uma calçada alta, onde eram colocadas cadeiras, os visinhos faziam o mesmo, e dessa forma, os jovens se juntavam, namoravam, paqueravam, namoros eram arranjados, inclusive o da minha mãe com o meu pai. Foi nessa festa que eles se aproximaram e começaram a namorar.

O dia 15 de janeiro, dia do padroeiro, encerravam-se as comemorações, e a partir das 16.00 horas iniciava a procissão A procissão que percorria toda a cidade. Por duas vezes acompanhei a minha avó por parte de pai, que era católica fervorosa. Os meus avós que moravam na ladeira de Santo Amaro, que nós chamávamos de “rua de cima”, eram evangélicos e depois nós também nos tornamos. Os jovens evangélicos que nós conhecíamos não subiam à ladeira, ficavam no inicio dela em blocos, conversando, aproveitando o feriado, pois todo o comércio fechava as portas nesse dia.

Lembro também de algumas cenas interessantes que aconteciam e que só hoje, depois de muito tempo, sinto saudade, mas mesmo naquela época, eu olhava para eles com saudade. E eles se foram, e deixaram suas marcas em nós. Gumercindo e Jovelina eram figuras interessantes, não fossem as suas limitações, pois ele tinha mal de Parkinson desde os trinta e cinco anos e morreu aos sessenta e dois em decorrência de várias coisas, como conseqüência natural da doença e ela tinha uma vida apesar de saudável, também tinha suas limitações.

Usavam expressões engraçadas, que surgiam do nada. Lembro quando às vezes, em que saiamos do banho, eles diziam, “menina, passou pela ponte?” Ou quando ele queria pentear o cabelo pedia, “menina, me dá um ciscador”. Vocês sabem o que é um ciscador? Aquela ferramenta que se usa para limpar a terra. Meu avô tinha um cabelo bem estirado, e fininho, e ainda tinha pouco cabelo, por isso nós achávamos graça. Comecei a catalogar algumas expressões que estavam no cotidiano deles só para dar uma idéia. Que tal essa? “Deu uma digudanha - deu a moléstia dos cachorros” queria dizer que a coisa tinha sido feia. Vou ajudar a morrer era na hora da morte, de alguém, estar presente, ler uma passagem da Bíblia, dirigir uma oração, etc.

Lembro do dia em que ele morreu, eu tinha onze anos, lembro tão bem, como se fosse hoje, era entre quatro e cinco horas da tarde e ele havia morrido as duas. Lembro que olhei para o céu, e sabe naquele momento em que o céu está cheio de nuvens, mas elas estão tão altas e fragmentadas? Olhei para céu e disse: o céu está triste, mas a tristeza estava em mim. Foi a minha primeira experiência com a morte. Dez anos depois foi à vez dela. E ai, me dei conta das vezes em que eu vinha do trabalho, e ela estava sentada no batente de uma loja na esquina me esperando, aproveitava, comprava uma pamonha, um espetinho de peixes, e uma tapioca com uma velha preta, que me acostumei a vê-la todas as tardes. Tinha uma voz forte. Aliás, minha avó também tinha. Um dia a velha preta que vendia tapioca, peixe frito e pamonha também se foi.

Que bom, quando temos saudade de coisas boas, simples, e que tinham um significado tão grande, embora não saibamos bem o porquê. Ainda tenho outras lembranças gostosas para escrever. Lembro do texto bíblico que diz: “quero trazer a memória o que me pode dar esperanças”. Eu tinha esperanças, eu tenho esperanças.