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DENTRO DA SAUDADE

     Um quarto na penumbra, música baixinha, quase amanhecendo e me pego pensando o que cabe dentro da minha saudade. O quanto cabe dentro desse sentimento que vive de memória e parece tão real.
     Paradoxalmente o tempo passa vagarosamente rápido. Um ano, um mês, um dia, uma hora, um segundo. Em poucos minutos posso lembrar de toda uma vida. Em um segundo a vida acaba. E um ano parece que foi no dia anterior.
     Dentro da saudade cabem lembranças que nem sabia mais que existiam. Estavam ali guardadas, congeladas no tempo, não precisava delas. Mas dentro da saudade todas as recordações são bem vindas. Músicas, frases, cores, cheiros, quadros, vozes, olhares, sorrisos, fotos, cartas, tudo me lembra algum fato, alguma época.
     Geralmente viramos sábias pessoas. Não recordamos fatos ruins ou logo os esquecemos. Mas aquelas experiências marcantes na alegria, aquelas sim, voltam sempre. Um conselho, um acontecimento que vira piada de família, viagens, cantos, festas, danças.
     Ah, as festas. Quantas festas cabem dentro da saudade. Grandes comemorações, encontros simples, bolinho com vela, bolas e balas, sorrisos, gargalhadas.
     O pai que gosta de dançar e dança com suas filhas no meio da sala. Que chama sua esposa e logo improvisa passos por vezes engraçados.
     A mãe que ri de tudo e de nada. Que gargalha com os próprios erros, que demora a entender a piada, mas acha graça assim mesmo e alegra a todos.
     O coral em família. As gravações no velho gravador que marcou época. As brincadeiras, o improviso.
     Balas de caramelo no pote da sala, bombons escondidos, o jornal de domingo, palavras cruzadas, os discos de ópera, os filmes clássicos, os livros, as apresentações de balé, o Teatro Municipal.
     Dentro da saudade cabem todas as conversas por telefone. Qualquer dúvida era tirada por aquele homem que parecia tudo saber. Aquele homem de vasto e diversificado conhecimento. O ídolo que até comparávamos a um robô que tudo conhecia. Era só fazermos uma pergunta, apertar um botão, e vinha a resposta. Ah, mas para escutar a resposta precisávamos de tempo. Brincávamos que lá vinha ele desde a pré-história.
     Dentro da saudade cabem todos os cuidados daquela mulher que corria de casa para atender quem estivesse com algum problema. Se fosse de saúde era com ela mesma. Já passava na farmácia e chegava com tudo o que era necessário.
     Tanto que aprendi, tanto que conheci, tanto que vivi com pessoas tão especiais. Quanto amor cabe dentro da saudade.
     Poderia escrever um livro sobre esse casal que se completava nas diferenças. Advogado e enfermeira. Seriedade e alegria exuberante. Homem e mulher. Pai e mãe. Avô e avó. Biso e bisa. Amados e amantes.
Um ano se passou, mas parece que não.
     Dentro da saudade cabe de tudo um pouco. Flashes da infância, tardes da adolescência traduzindo músicas com ele, momentos em que tive forças ao segurar a mão dela. Quanta coisa cabe dentro da saudade que parece aumentar a cada dia.
     Mas com o tempo, os papéis se inverteram. A minha segurança passou a ser a minha menininha. O meu ídolo virou meu velhinho fofo e inseguro.
     Ainda lembro das vozes, dos olhares, das caras e bocas, de suas histórias. Mas na minha saudade também cabem as últimas lembranças - fragilidade, sensibilidade, receio, sofrimento, cansaço, entrega, exemplos.
     Como eu quis reverter aqueles quadros. Como desejei tirar toda a dor. Como tentei não acreditar que não voltariam mais. Não teve jeito. Não tinha esses poderes, apenas meu amor egoísta falava naquele momento. Meu coração parecia gritar que não fossem. Meu lado criança tinha tanto medo da orfandade. E tirei uma garra nem sei de onde para superar aqueles dias, não podia decepcioná-los. Não foi o exemplo que me deram.
     E continuaram tão amorosos que se foram na mesma semana. Se era para sofrer, que fosse de uma vez só.
     Os dias se passaram, se transformaram em meses, e os meses em um ano. Inacreditável um ano. Por alguns momentos não correspondi, não consegui, e caí. Caí com toda a entrega dentro da minha saudade.
     Hoje, depois de um ano, mas parecendo que foi há alguns dias, a dor ainda dói cada vez mais forte. Por vezes o choro jorra como numa criança desamparada. E as lembranças voltam juntas num turbilhão de sentimentos e dores confusas. Percebo então o quanto cabe dentro da saudade.
     Cabe amor e gratidão. Como sou feliz por tê-los tido como pais.
     Um ano se foi, dentro da minha saudade.

Mariza Schröder
Enviado por Mariza Schröder em 07/11/2017
Reeditado em 08/11/2017
Código do texto: T6164686
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Mariza Schröder
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Mariza Schröder