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Voar

A minha paixão pelo voo começou muito cedo, e para falar a verdade, já nascera comigo. Quando criança, ficava horas e horas deitado no chão, observando os urubus voando no céu. Humildes criaturas que garimpam seu sustento, nas sobras dos lixões e nas carcaças. Mas, no espaço são senhores, são os verdadeiros proprietários do céu.
Suas asas, deram asas a minha imaginação, e a imaginação é algo tão forte nas crianças, que elas simplesmente se transportam para outro plano, ignorando completamente as coisas que as circundam, e nesta viagem, vivenciam a quase plenitude da experiência. Eu por exemplo, transformava qualquer objeto em algo que imaginariamente voasse, até um sapato velho.
Na espiral do meu DNA, habita um gene herdado do meu tio Oscar, meu verdadeiro herói e inspirador, afinal ele voava entre e sobre as majestosas nuvens, passeava sobre a chuva.
As suas visitas à nossa pacata cidade em um T-6 da FAB, eram marcadas por festivas e emocionantes demonstrações aéreas. Primeiro ele fazia um voo rasante sobre nossas casas, que quase desfazia seus velhos telhados. O chão tremia como um terremoto, provocado pelo rugido do motor enfurecido. O ensurdecedor barulho, mesclado ao som da hélice cortando a massa de ar, pronunciava-se como uma exaltação de demonstração do seu poder. Dava para sentir o cheiro maravilhoso do querosene queimado, expelido pelo (EGT) dissipando no ar. Eu corria aos quatro cantos buscando o melhor lugar onde pudesse ver as manobras.
Após realizar diversas subidas e descidas, curvas, quedas livres, parafusos e stois, tendo como palco a cidade abaixo, o som lentamente começava a esmaecer, até silenciar totalmente. Então sabia que ele já pousara na unica pista da cidade. A pequena Senhor do Bonfim literalmente, parava para admirar este espetáculo, e isto me causava uma grade euforia. Na verdade o que eu sentia, era um misto de medo e entusiasmo, um sentimento que até hoje me acompanha, quando aprecio voo das aves, sejam elas cobertas de penas, tecido ou metal.
Ansioso esperava até a sua chegada a minha casa. Não obstante, assim que cruzava a porta da sala, eu o enchia de perguntas, sobre tudo, que os aviões podiam... ou não fazer. A sede de informações já assolava a minha mente, desde aqueles tempos juvenis.
Uma a uma, todas as minhas perguntas eram respondidas! E... olha que não eram poucas. Como um arauto este homem me inspirou, lampejou em mim seu brilho, me instigou a seguir em busca desse admirável mundo aéreo, mundo a que tenho a honra de pertencer, pois assim era meu tio.
Olhar para o céu é ver sua marca, sua trilha, sua assinatura, é literalmente sentir sua presença.
Como anjos que ferem o céu, não pedimos para nascer assim, fomos escolhidos para essa tarefa, somos possuídos de uma vontade quase irracional de voar. Voar é como trilhar o rumo da libertação, não sei explicar qual razão justifica esta ambição desmedida.
Quem sabe, o criador em sua infinita sapiência, tenha deixado escapar de propósito alguns dos seus pássaros, então, os mandou habitarem a terra em forma de homens, e estes jamais perderão esta essência. Sua felicidade lhe veio talhada em asas.
Este texto vai em memoria e homenagem ao meu saudoso tio, que falecera na queda do avião que trabalhava em 1966. Que o céu seja sempre a sua casa. ADEUS.
Anselmo Pereira
Enviado por Anselmo Pereira em 08/01/2018
Código do texto: T6220746
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Anselmo Pereira
Camaçari - Bahia - Brasil
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Anselmo Pereira