Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Dom Vital, juntamente com o bispo do Pará, Dom Antonio de Macedo Costa acabaram ficando no centro da questão religiosa surgida no Brasil em 1873, cujo estopim foi a repreensão de Dom Vital, Bispo de Olinda, a um paroco que havia discursado em uma festa maçonica. Os maçons, que ocupavam os cargos mais influentes do poder temporal no país, se sentindo ofendidos não perderam oportunidades no intuito de solapar os interesses da igreja.
Enquanto isto os bispos que, partindo do pressuposto de que jesus Cristo tendo dito aos seus discípulos; já não vos trato como servo porque o servo não sabe o que seu senhor faz, mas como irmão pois tudo o que o Pai me faz saber vo-lo tenho dito; pregava contra parcialidades entre irmãos.
Dom Vital sabia que a uma igreja influenciada por maçons dificilmente poderia submeter-se a sã doutrina já que a maçonaria constituia uma sociedade fexada, ocultista ou simplesmente secreta.
O preço pago por Dom Vital e Dom Antonio de Macedo Costa por terem se levantados em defesa da fé cristã, foi 4 anos de calabouço com serviços forçados, embora seria anistiados antes da conclusão da pena, por intervenção de um próprio maçon, e dos mais influentes, Luis Alves de Lima e Silva, o Caxias.
Pela carta do Conselheiro João Alfredo de Oliveira a Dom Vital, tentando convencer o religioso a ser mais flexível, podemos perceber o imbróglio que os maçons criava em forma de uma pressão mal disfarçada que viria sobre os bispos zelosos, e daí distanciamento entre o político e o padre que, apesar de serem unidos por laços sanguineos, foram se acentuando em desentendimento deixando transparecer quão adversos eram seus ideais.
"(confidencial) Exmº e Revmº Bispo.
Permita V. Rev. que eu lhe fale com a franqueza que nos honramos como amigo e que as circunstancias exigem.
Estou muito inquieto com a questão maçonica e infelizmente vejo que a ação do tempo não a tem modificado. Receio que as modificações da resistencia á resolução de V. Ex Revmª, possam perturbar a ordem publica nessa província.
Receio também que de V. Ex Revm falte coerencia podendo se levantar tantas calamidades na província, e a este respeito já ouvi muito, e quando isto acontecer Deus sabe o que será.
Prevejo que V Ex Revmª terá contra si quase toda a população do Recife animada pela adversão que vão chegando as outras provincias e incitando a outros meios de resistencia oferecida.
Respeito os motivos da conciencia que V Ex Revm tem para praticar os atos que tem levantado tantos clamores e tenho o mais firme desejo de não me achar em desacordo com V Ex Revm em providenciar que me sejam pedidos a que eu deva dar, mas a minha posição é dificílima dado que quando o nosso direito não pode executar no imperio bulas que não estão placitadas.
Tenho ouvido a opinião de pessoas insuspeitas, de bispos e de sacerdotes respeitáveis; eles reconheceram que V Ex Revm está na regra canonica mas entenderam que podia ser diferente a aplicação, e até dispensada.
Os jornais tem publicado que eu sou mação e não dizem a verdade porque fui iniciado, sim a quinze anos, mas compareci somente a tres ou quatro serviços e logo depois fiz quanto me parece o suficiente por tranquilizar a conciencia do catolico. Não sou portanto suspeito quando penso como quase todos pensam que a maçonaria entre nós é inocente e até benéfica a certos respeitos.
Ora, sociedade que consta em seu gremio pessoas mais notaveis do país, os mais influentes bem pode dispor de seu tratado com rigor que, como previsto para a religião, traz perigos, desacato ou desordem.
Esta sociedade existem em todas as nações catolicas toleradas pelo Estado, a discipular com paz pelos bispos apesar da proibição da igreja.
A nossa constituição permite todas as religiões com seu culto doméstico ou particular. Organizam se aqui sociedades compostas de estrangeiros para fins religioso para diferentes dos nossos, com autorização do poder civil a fiscalizar livremente.
Quando isto acontece não sei como poderia o governo proibir as sociedades maçonicas que na compreensão dos catolicos que não tem fins contrário a religião do império, e que dado que os tivaram de trabalhar a portas fechadas.
O que V Ex Revm diz a respeito das irmandades é, que em parte comporte, mas dando que compete ao poder civil legislar a respeito de sua organização, a elas regem-se por compromissos que convem os dois poderes, temporal e espiritual não dividam aqui todas as pessoas.
Tenho consultado e desejo muito que seja legítimo o auto de V Ex Revm mandando eliminar os membros maçons.
Ainda não há resolução tomada pelo governo imperial; eu tenho evitado torna-las em respeito a V Ex Revmª pela muita consideração que me merece e que eu devo ao autor da carta eclesiástica, mas não sei até quando poderei esquivar-me á intervenção que é solicitada e que os fatos provam tornar urgente e indispensável.
Nestas circunstancias e cheio de sabedoria e aflição, venho rogar a V Ex Revmª que não faça adiantar a questão e arvorar sua posição, até que pelo tempo ou reflexão ou por meio de providencias mais oportunas com V. Ex Revmª e o governo, cumpra a obrigação de conjurar os juízos da ordem publica e se ofereça a V Exciª a ocasião de conseguir domar ovelhas pacificamente pela autoridade normal da igreja que lhe aceitarem os conselhos e determinação.
O tempo é um grande remédio e o que em certas ocasiões e circunstancias levanta a virulencia e clamores gerais, em outros faz-se com grande facilidade com um só acerto, com uma só palavra.
Falo a V. Ex Revemª como filho obediente, como amigo dedicado com os meus mais puros sentimentos , sendo por eles que eu lhe andereço a suplica constante desta carta e confio na eficácia da providencia e do patriotismo.
Sou com o maior respeito;
João Alfredo Correia de Oliveira". 15 de fevereiro de 1873.
No dia 27 daquele mesmo mês e ano, da cidade do Recife Dom Vital escreveu sua carta resposta endereçada ao Conselheiro João Alfredo, hei-la;
"Recife, 27 de fevereiro de 1873.
Exmº Sr. Conselheiro.
Apresso-me a responder a carta de V. Exciª, datada de 15 do corrente.
"Agradecendo do íntimo d'alma a franqueza e delicadeza com que V. Exciª se dignou de escrever-me, peço licença a V. Exciª para apresentar-lhe com igual lhaneza e abertura de coração algumas breves reflexões, mais no intuito de fazer patentes a V Exciª os meus sentimentos, que de advogar a causa própria. Nunca me restou duvidas acerca dos embaraços e sérias dificuldades em que ia a questão maçônica colocar a V. Exciª. Compreendi-os e medi-os, desde que atendi para as circunstancias de, sendo V. Exciª católico, fazer parte de um ministério cujo presidente é Grão Mestre de uma das frações (facções) maçônicas do Império.
De antemão senti profunda e vivamente as aflições que V. Exciª ia experimentar.
Mas que fazer diante do dever?
Desde que aqui cheguei, Exmº Sr, a maçonaria me ofereceu um dilema terrível; ou aceitar a luta cumprindo os deveres de bispo católico, ou passar por imprudente, precipitado e temerário, o que é muito "concentâneo" com a minha idade; ou então fechar os olhos a tudo, transigir com a consciência e resignar-me a ser um bispo negligente, pusilânime e culpado (isto foi confessado pelos próprios "mações").
Eu tinha de admitir, inevitavelmente um dos dois principios, e dai fazer dimanar todo o meu episcopado.
Enquanto me foi possível, sem culpabilidade perante Deus, declinei de pronunciar -me, mas afinal vi-me na dura necessidade de escolher e não hesitei em optar, como era dever, pela primeira parte do dilema.
Quando mesmo fosse eu um bispo octogenário, tendo apenas alguns dias de vida, não trairia os deveres da minha missão, quanto mais tendo ainda, talvez, uma longa peregrinação a fazer.
Que terrível perspectiva, Exmo Sr, um longo episcopado inglório perante Deus, se bem que glorioso aos olhos dos homens pela condescendência e frouxidão!
De mais estou certo de que V, Exciª, referendando o decreto de minha nomeação, persuadiu-se de que o eleito seria um Bispo Católico e cumpridor de seus deveres, sem o que, por certo não o teria feito.
Se a maçonaria se tivesse contentado de trabalhar em suas lojas de portas fechadas, como diz V, Exciª, nada teria havido.
Mas para provocar o prelado diocesano ela criou um periódico, começo a atacar, insultar e negar os dogmas de nossa santa religião, como provo em minha pastoral de 2 de fevereiro com documentos irrefragáveis, mostrou-se enfim de viseira alçada, publicando o nome de seus adeptos, tomando conta à igreja e formando no ceio da irmandade mesas à maçônica.
Não fui perturbar os "mações" em suas oficinas, Exmº Sr, não saí do recinto da igreja da qual sou chefe.
Não questiono diretamente com os maçons, porém sim com a irmandade.
Não pretendo exterminar a maçonaria, infelizmente nem os próprios monarcas hoje o podem; só Deus.
Desejo tão somente que as irmandades realizem o fim para que foram criadas. Entretanto parece-me que a maçonaria devia ser um pouco mais consequente. Já que ela não reconhece a autoridade da igreja, brade muito embora contra a igreja, mas abandone-a, deixe-a àqueles que se prezam de filhos obedientes.
É Verdade Exmo Sr, que as irmandades se regem por compromissos aprovados pelos dois poderes temporal e espiritual, porém, o que lhes confere o carácter religioso é tão somente a sanção deste, sem o qual, como todos bem sabem, não são mais que sociedades meramente civis.
E desculpe-me V, Exciª, a franqueza de dizer-lhe que, na parte religiosa o poder temporal não é juiz competente.
Peço licença a V. Exciª, para não dizer coisa alguma acerca da opinião dos bispos e sacerdotes que julgam indispensável a aplicação das bulas, condenando a maçonaria.
Apesar da negação do beneplácito, a maçonaria entre nos está condenada por muitas razões que de outra ocasião poderei citar se V, Exciª assim julgar conveniente. A maçonaria, Exmo Sr, tem movido céu e terra, tem feito protestos e apelações, tem finalmente envidado todos os meios para desautorar-me. Eu, pelo contrário conquanto tenho recebido muitos atos de adesão com milhares de assinaturas de leigos e tem a melhor gente desta cidade a meu favor confiando na justiça da causa que defendo, e nos sentimentos religiosos de V, Exciª, até o presente me hei conservado em silencio.
Mas já vou conhecendo que este meu silencio é prejudicial a causa da igreja. A carta de V, Exciª me deixa entrever, a menos que eu não a tenha compreendido devidamente, que se eu continuar na resolução tomada, talvez a decisão do Governo Imperial me seja desfavorável.
Muito me custa crer, Exmº Sr, que o mesmo punho que a tão pouco tempo assinou o decreto da minha nomeação lavra agora a sentença de minha desautorização.
Todavia, se tal acontecer, rogo encarecidamente a V, Exciª como bom amigo, lavra antes o meu decreto de prisão e de ostracismo porque o apoio prestado a maçonaria pelo Governo imperial, não me fazendo de modo algum ceder, dará infalivelmente ocasião a conflitos lamentáveis.
Compreenda V, Exciª que esta questão é de vida ou morte para a igreja brasileira, cumpre-nos antes arcar com os maiores sacrifícios, que afrouxar. Procederei sempre com muita calma, prudencia e vagar, porém, ceder ou não ir avante é impossível.
Não vejo meio termo.
Se V, Exciª prevê que não pode apoiar-me e que a minha resistência vai dar lugar a senas tristes, conjuremos a tempestade enquanto é tempo.
E para isso só conheço um meio;
Peça o Governo Imperial à Santa Sé que me mande para o meu convento quanto antes. Porém, esta medida pouco adianta ao Governo.
Se eu fosse político ou de mais idade diria que sérias perturbações da ordem publica estão iminentes em quase todo o Brasil, e são inevitáveis apesar da maior prudencia. A causa reservo-me para dize-lo a V. Exciª pessoalmente quando tiver ensejo.
Peço a V, Exciª que não admire de minha excessiva franqueza. Na ocasião presente não escrevo ao Excmº Sr. Ministro do Império, escrevo confidencialmente a um amigo, e a um amigo diz-se a verdade inteira sem rodeios.
Em questão deste alcance e magnitude toda a franqueza entre amigos não é demais. Não desanimo, pelo contrário muito espero da amizade e dos sentimentos religiosos de V, Exciª, depois do auxílio divino.
Creia V, Exciª na sincera amizade e inteira dedicação de que é de V, Exciª.
D. Frei Vital, Bispo de Olinda".
Disse mais; "Peçam-nos o sacrifício de nossos cômodos; peçam-nos o sacrifício de nossas faculdades; peçam-nos o sacrifício de nossa saúde; peçam-nos o sangue de nossas veias... Mas pelo santo amor de Deus não nos peçam o sacrifício de nossa consciência, porque nunca o faremos! Nunca!
Sua morte aos 33 anos de idade e com sintomas de envenenamento deixou clara a realidade deste mundo hostil contra todos os fiéis cristãos que ousam se levantar contra as envestidas do presente seculo.
Dom Vital nasceu em Pedra de Fogo, no dia 27 de novembro de 1844, e morreu em Paris, aos 4 de julho de 1878.
Pedra de Fogo pertencia na epoca a provincia de Pernambuco.
Barbosa de Freitas
Enviado por Barbosa de Freitas em 16/04/2018
Reeditado em 24/06/2018
Código do texto: T6310328
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Barbosa de Freitas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 62 anos
268 textos (17042 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/08/18 00:55)