JOHN KEATS
O poeta que encarnou o ideal romântico


   Respeitado por seus colegas de movimento, porém mal compreendido pela crítica em sua época, John Keats, poeta inglês contemporâneo e amigo de Byron e Shelley, foi a face menos abastada dos românticos ingleses. De origem humilde, mas não de menor importância. Keats era filho de um palafreneiro – ou, facilitando, cavalariço – e nasceu em Londres, no dia 31 de outubro de 1795. O pai chegou a enriquecer, mas morreu quando Keats ainda não completara nove anos.
  Na curta vida, que não chegou a 26 anos, abreviada pela tuberculose, o poeta produziu uma obra robusta, que encarnou os arroubos estilísticos e estéticos do romantismo, especialmente a chamada “negative capacity”, ou seja, a capacidade humana de persistir na dúvida e no mistério, sem buscar a razão.
   Keats foi educado por um pastor de Enfield. Depois, cursou medicina e chegou a trabalhar na área, sem sucesso, por pouco tempo. O espírito sensível do jovem poeta, que sempre enfrentou problemas financeiros, o levou ao que pode ser classificado como ultrarromantismo. Enquanto Byron se envolvia em escândalos e gozava de grande popularidade, e Shelley mergulhava em sua viagem gótica mais íntima, Keats digeria a influência de poetas elisabetanos, revistando temas da antiguidade clássica, mergulhado em amores não correspondidos e melancolia.
   O poeta fez viagens à Itália, já sob o efeito da doença que um dia iria mata-lo, em busca dos “bons ares” do Mediterrâneo. Em 1820 abrigou-se em uma casa em Roma – até hoje preservada e transformada em um museu dedicado aos poetas românticos – onde recebeu cuidados médicos e foi acompanhado pelo artista Joseph Severn, até a sua morte.
   Sonetista inspirado, que rivaliza em qualidade com gênios ingleses do quilate de Shakespeare e Spenser, John Keats publicou a coletânea “Poemas” em 1817, obra em que se destaca o sempre citado “Sleep and Poetry”, que influenciou uma onda romântica ao redor do mundo, inclusive no Brasil.
   Entre 1819 e 1820, Keats publicou poemas líricos que são pontos altos do movimento romântico, como “As vésperas de St. Agnes”, “Lamia” e “Isabella”. A Grécia, que exercia um fascínio especial sobre o triunvirato dos românticos ingleses, inspirou “Endymion” e “Hyperion” (1818) – este, abordando a queda dos Titãs, seria composto por dez livros, mas permaneceu inacabado.
Keats também se destacou por sua odes, como “À Melancolia”, “A uma urna grega” e “A um rouxinol”. O poeta foi atacado por críticos, o que levou sua obra a ser totalmente valorizada apenas após a sua morte, em 23 de fevereiro de 1821. Arrasados, seus amigos incensaram Keats como uma espécie de mártir de uma causa – a vida melancólica, contemplativa e incompreendida dos poetas. 
   Byron, ao falar de Keats, exaltou sua “grandeza trágica”. Mas foi Shelley que realmente fez jus à importância do amigo para aqueles tempos de mudança e sofrimento, ao escrever “Adonais”, uma de suas principais obras, elegia a Keats. Os caminhos apontados por Keats, Byron e Shelley foram o estopim para uma revolução no modo de fazer poesia.

(Parte da coletânea HISTÓRIAS DE POETAS, de William Mendonça. Direitos reservados.)