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FERNANDO PESSOA

O ENIGMA EM PESSOA

Helena tinha vinte e oito anos, era uma  loura natural, tinha cabelos lisos até aos ombros, uns olhos  lindos grandes e vestia um blaser clássico azul escuro.Entrou no palco com magnitude e calma glacial.
O Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, estava à cunha.A televisão presente, numa reportagem.
Fez uma pausa e num timbre martelado com a voz belíssima, começou:

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

O público rompeu numa ovação.Reconheceu logo os primeiros versos de “A Tabacaria” e o director do Recital,o prestigiado e jovem poeta Gastão Cruz, ficou com a certeza de que fizera a escolha certa de repertório.

Ele descia em passo apressado o Chiado em direcção à Brasileira para tomar o café, sentado à mesa e rabiscar palavras, versos, incongruências num simples  bloco de papel.Circunspecto, reservado talvez nunca olhasse à sua volta embora o seu semblante revelasse que via um mundo de coisas nesse instante.
E havia um toque de requinte no lacinho ou na gravata mas ninguém diria ou poderia advinhar que aquele homem magro, de estômago ligeiramente dilatado era o maior Poeta Português de todos os tempos.
Em vez disso poder-se-ia pintar numa imagem impressionista como um espécimen de flâneur da baixa lisboeta.

A explicação daquele comportamento talvez pudesse ser respondida pelos acontecimentos quarenta anos antes.
Fernando nascera numa família da pequena aristocracia com pai, mãe, manos, uma avó e duas criadas.Mas o progenitor morreu com apenas quarenta e três anos de tuberculose e a mãe foi obrigada a vender o recheio da casa, a mudar-se com a família para uma  mais pequena e a aceitar a côrte do Comandante João Miguel Rosa que se sentira atraído por ela ao vê-la passar ao longe no “americano” numa rua de Lisboa.
Casaram e foram todos viver para a África do Sul onde o noivo tinha sido nomeado consul português em Durban.
E foi talvez na longa viagem de barco que Pessoa, ainda uma criança sentiu resvalar o amor de sua Mãe para um novo ramo, uma nova família constituída sobre as ruinas da anterior.Já não era o menino da sua Mãe.E haveria de transpor esse abandono mais tarde numa célebre litania.

“No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece”.

A sua alma foi-se isolando em progressão à medida que ia atravessando as etapas e as vicissitudes que as voltas da vida o obrigavam.
A instrução com as freiras irlandesas,O Liceu com classificações elevadas.As idas e vindas a Portugal para aí se fixar em permanência, com e sem a família.A frequência durante um ano do Curso Superior de letras que ele terá mandado às urtigas, enjoado com tanta  inutilidade e mediocridade?
Consumindo o melhor da Literatura Universal como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, Keats, Shelley e Tennyson.

E em simultâneo a encher o seu mundo de presenças, rostos e máscaras, pseudónimos e heterónimos, os amigos que rareavam no mundo real.Chegou a escrever ou dizer a alguém:
- Com uma tal falta de gente coexistível como há hoje, que pode um homem de sensibilidade senão inventar os seus amigos?
E assim foi criando o Chevalier de Pas, o Alexander Search, o Álvaro Campos, o Ricardo Reis, o Alberto Caeiro, o Bernardo Soares e dezenas de outros numa produção literária que atingiu as 25 000 páginas coligidas e organizadas por equipas de especialistas contratados pela Editora Ática.

Quando é que falava verdade ou simplesmente mentia, fruto da sua imaginação genial, prodigiosa e doentia?A Ofélia como alvo de atenções chegou mesmo a existir ou tal figura nem se apercebeu nunca que ele ali estava como eventual e ferveroso admirador e namorado? A Ofélia não seria uma forma aceitável de expressar o amor por um outro, Mário de Sá Carneiro?Ninguém nunca o saberá.Porque Fernando Pessoa era e será para todo o sempre “o enigma em pessoa” na sábia asserção de Frederico Barbosa.

-  Dr Fernando Pessoa, o que vai hoje?
- Absinto, cidra, um copo do que houver.
Bebidas acessíveis, álcool , esquecimento, evasão e fuga.
- E agora a seguir,para  onde vai? – o mistério provocava a indiscrição.
- Vou fechar-me em casa no meu espírito.

O trabalho como correspondente comercial serviu apenas para lhe garantir o mínimo para fechado no quarto poder continuar a navegar…”navegar é necessário, viver nem tanto…”
“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”.

Pessoa, génio da Literatura Universal só teve uma obra publicada em vida “Mensagem” vencedora de um Concurso Literário.

Hordas de intelectuais e pretensos intelectuais ganharam dinheiro com estudos, análises que procuraram dissecar a sua vasta Arte que não abrangeu apenas a poesia mas se estendeu pela prosa, teatro e ensaio filosófico e político.Influências de Racionalismo e da Poesia Oriental, marcas de Gnosticismo e Paganismo.Provas  de críticas contra Salazar e o Estado Novo.A demonstração da simpatia pela ideia das associações secretas como a Maçonaria capazes de fazer mexer os cordelinhos e alterar rumos na História.

- Não sei o que o amanhã trará –  foram palavras mais ou menos suas.
O amanhã trouxe-lhe o reconhecimento e a adoração mas  depois de morto, nos seus late forties com uma declarada cirrose hepática ou uma real pancreatite aguda?
Um dos maiores poetas de todos os tempos não teve vida amorosa conhecida e terá morrido provavelmente virgem?
Fernando Pessoa levou os seus milhares de leitores  a olharem para o abismo mas explicou-lhes em verso,em  pura poesia  que  nele  se espelha o mar, o céu ou seja, o grandioso.



José Manuel Serradas
Enviado por José Manuel Serradas em 06/05/2019
Código do texto: T6640238
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Sobre o autor
José Manuel Serradas
Lisboa - Lisboa - Portugal
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José Manuel Serradas