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book II

Pois bem, anacronismos à parte, aos dezenove iniciei a faculdade de Ciências Sociais. Eu odiava. Odiei tudo desde o primeiro momento, das instalações da faculdade às pessoas. Nada se salvava, nem professores, nem funcionários, nem um coleguinha ou outro legal, nada! Até hoje não entendo muito bem como fui parar ali. Na verdade entendo, mas não queria ser contraditória quanto ao fato de ter dito que minha mãe não se projetava em mim. Na verdade, não sei se estou empregando bem a palavra projeção, mas é mais ou menos assim que eu via. Minha digníssima progenitora não havia feito uma faculdade até meus 19 anos e, após passar um ano pagando um cursinho para mim, fez-se descrente de minha capacidade de ingressar na cobiçada Federal, obrigando-me a iniciar um ‘’curso qualquer’’ numa instituição particular mesmo, pra não perder mais tempo. Juro que não me lembro bem de onde essas malditas Ciências Sociais surgiram, mas a filha de uma amiga de minha mãe havia se formado há pouco tempo na dita cuja e estava se dando muito bem, conseguindo êxito em seus projetos, viajando e progredindo de maneira satisfatória. Não preciso dizer que foi o suficiente pra ouvir inúmeros discursos da minha mãe fazendo campanha por essa faculdade idiota e dizendo que seria bom pra mim, que deveria me formar nela primeiro e depois sim fazer o que eu tanto sonhara: Jornalismo. É, não deu outra, com o passar do tempo, vi que não tinha nascido pra ser atriz, mas sim jornalista. Inicialmente queria pra ser repórter na TV e assim, aparecer, mas como já disse, fui evoluindo e vendo que existe um lugar ao sol para todos e que esse não era meu destino. Vi que podia sim ser jornalista, ser conhecida, ter meu nome lembrado em alguma discussão universitária, ou até mesmo na mesa do bar. Quem sabe até no almoço de domingo ou naquele papinho casual. Aos onze tive uma professora de redação que selou minha decisão. Ela sempre passava uns exercícios que consistiam em reescrever uma matéria de algum jornal da semana, de preferência do dia. Preciso dizer que amei? Fazia não uma, mas um monte de novas matérias, chegando até mesmo a doar algumas para os colegas mais relapsos. Português e Redação tornaram-se minhas matérias favoritas e isso serviu para que tivesse uma base, pelo menos, para poder escrever e também ler com mais qualidade. Aos quinze, meu professor de Redação elogiava todos os meus textos e um dia aconselhou-me a seguir a carreira jornalística, pois conseguia escrever com coerência e coesão, com pouquíssimos ou nenhum erro ortográfico e a gramática era muito boa. Minha resposta, dizendo que já sabia e ia mesmo fazer jornalismo, talvez tenha soado um pouco arrogante, mas não foi. É que já sabia o que queria há muito tempo e quis compartilhar. De qualquer forma, ele foi um dos meus primeiros incentivadores.
Voltando à faculdade indesejada, o que mantinha-me viva naquele antro era minha amiga, que, assim como eu, caíra de pára-quedas naquele lugar desgostoso e também sentia-se frustrada por não estar cursando Direito. Com ela, matava aula e ia conversar sobre música, garotos e idealizações. Também fugíamos daquele martírio chamado aula pra visitar os centros culturais das redondezas e tornamo-nos freqüentadoras assíduas de lan-houses. Além disso, éramos imbatíveis no Counter Strike! Eu não era a única a sofrer ali, a estudar o que não gostava e não concordava, tinha uma companheira com quem podia desabafar; era ela quem enxugava minhas lágrimas nas diversas vezes que abandonei a sala de aula pra chorar, mas no ano seguinte, conseguira mudar-se para o prédio vizinho e, enfim, iniciar sua tão sonhada faculdade.
Lee Bueno
Enviado por Lee Bueno em 25/10/2007
Código do texto: T709322

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Sobre a autora
Lee Bueno
Estados Unidos, 33 anos
11 textos (1354 leituras)
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Lee Bueno