GEORGE ORWELL
E a criação da paranoia definitiva


   Ele não foi o primeiro a escrever uma distopia, mas, certamente, escreveu a mais citada distopia do século XX. George Orwell, escritor britânico nascido na Índia, filho de um oficial inglês, lutou contra o fascismo – literalmente – e por seu horror a estados totalitários, levou a paranoia humana ao máximo no romance “1984”. Seu livro ecoou pela Guerra Fria, continuou sendo citado mesmo depois que o ano de 1984 passou e agora, em pleno século XXI, volta à lista dos mais vendidos, em tempos obscuros.
   Eric Arthur Blair era o nome verdadeiro de Orwell. Nascido em 25 de junho de 1903, em Morihari, na Índia (então sob o domínio britânico), ele mudou-se para a Inglaterra e foi instruído no tradicionalíssimo Eton College, onde chegou a ser aluno de Aldous Huxley. Entrou para o exército imperial, atuando na Índia, em 1922. A experiência militar serviu para despertar em Orwell uma aversão ao imperialismo. Deixou o serviço militar em 1927 e saiu em viagem, sustentando-se precariamente com trabalhos temporários. Seus relatos de viagem, numa mescla de ficção e realidade, estão em livros como “Na pior em Paris e Londres” (1933) e “Dias na Birmânia” (1934).
   Em contato com ideias marxistas, George Orwell e sua esposa, Eileen O'Shaughnessy, se engajaram na luta política que tomava conta da Europa naqueles dias que antecederam a 2ª Guerra Mundial. Lutou ao lado de trotskistas espanhóis contra o governo fascista na Espanha, foi baleado, e, para não perder a viagem, transformou a experiência em livro: “Lutando na Espanha”. Por suas posições políticas, foi perseguido tanto por aqueles a quem combatia como pelo comunismo stalinista, que reprimiu a ala trotskista de forma violenta. A essa altura, já não confiava em governos.
   É na década de 1940 que George Orwell produz as duas obras que eternizariam seu nome: “A Revolução dos Bichos” (1945) e “1984” (1949). O primeiro, que usa o artifício fabular de dar voz aos animais para criticar a sociedade humana, é considerado uma obra prima da literatura política. A exposição das diferentes visões e das contradições entre espectros sociais e ideológicos, com muita ironia, são marcas do romance.
   Já “1984”, mesmo classificado por vários críticos como um livro de narrativa irregular, é uma distopia instigante – quase uma profecia autorrealizável. Depois que Orwell criou seu “Big Brother”, que controla a sociedade através da tecnologia de vigilância, em um governo totalitário, é fácil vê-lo em governos de várias vertentes políticas nas últimas décadas, inclusive em propaladas democracias. Impossível não ver o próprio Orwell na pele de seu protagonista, Winston Smith. Quem leu, nunca mais enxergou o mundo da mesma maneira.
   O romance ganhou notoriedade nos tempos da Guerra Fria, quando a paranoia se tornou um modo de vida. Orwell, que morreu em Londres, no dia 21 de janeiro de 1950, vítima de tuberculose, não chegou a ver suas profecias tomarem forma, mas tinha visto o totalitarismo de perto, durante a guerra – com seus milhões de mortos e atrocidades inimagináveis.  A realidade, afinal, sempre supera a ficção.

(Parte da coletânea ESCRITORES DE SCI-FI, FANTASIA E AFINS, de William Mendonça. Direitos reservados.)