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O Aviso Fúnebre*

*Texto extraido do livro "As Crises da Vida" editado em novembro/2007

 |O Aviso Fúnebre |

Outro fato, retido na memória, foi a sua morte, pouco tempo depois,
talvez quando eu já completara cinco anos.

Sabia, pelo alvoroço dentro de casa, e a retirada da pobre velhinha do
“quarto do tronco” e sua colocação numa cama, num dos quartos da
casa, que ela “estava para morrer”. Não me preocupava muito com o
fato porque também sabia que gente velha sempre morria, como fez um parente que morava no sítio. Viera se enterrar em Caicó, numa rede pendurada num pau e carregada por dois homens.

 “Morreu de velho”, assim diziam os adultos quando alguém perguntava. Então, eu sabia que minha avó, que também era muito velha, saíra do quarto do tronco porque ia morrer.

Ela ainda passou vários dias em outra dependência da casa, deitada numa cama e com pessoas ao seu redor. Todas familiares ou amigas.

Havia muita reza que nós garotos ouvíamos do lado de fora do quarto que era meia parede.

Uma ou duas vezes chegou um homem com uma espécie de jaleco branco, com uma maleta preta na mão e disseram que era o médico.

Após alguns minutos saia do quarto e entregava um papel a uma de minhas tias, recomendando que fosse à farmácia comprar o remédio que estava ali escrito.

Eu nunca soube que remédio era esse mas, pelo movimento da casa e as aflições das pessoas que cuidavam de minha avó, sabia que o tal remédio não estava dando resultado.

Cada vez mais aparecia gente conhecida, geralmente mulheres idosas
como minha avó e entravam no quarto onde ela estava.

Certa manhã, chegou um padre, também portando uma maleta preta,
falou com minhas tias e entrou no quarto. Também não entendia porque minha avó, que já estava morrendo, necessitava de um padre para se confessar, pois já tinha ouvido comentário que não falava mais.
Não entendia também como uma pessoa que vivia presa num quarto escuro, sem falar nem brigar com as outras, ou fazer qualquer mal feito, tinha pecados.

Quanto a nós crianças, já éramos advertidas para não mentir, nem desobedecer aos mais velhos, pois isso era pecado. Diziam que era “venial”, mas era pecado. Mas minha pobre avó, nem essas “malcriações” ela fazia.

Quando mais crescido, fiquei sabendo que a visita do padre ao enfermo na hora da morte era para lhe dar “a extrema unção”, uma espécie de benção que a tradição católica criou para os momentos finais dos fieis.

Já na idade adulta, eu próprio fui honrado com uma visita dessas, agora com outro nome: “unção dos enfermos”. D. Nivaldo Monte, então Arcebispo de Natal, sabedor do meu precaríssimo estado de saúde, diagnosticado – graças a Deus erradamente – como câncer no fígado, esteve em minha casa e me encaminhou aos santos.

Graça a Deus não fui, mas fiquei devendo-lhe a gentileza.

Voltando à doença de minha avó, finalmente chegara o dia fatal: Uma
mistura de rezas e choros tomou conta do ambiente da casa.

A situação estava imprópria para crianças e, assim, como os outros irmãos e primos, recebemos a ordem de brincarmos na rua. Estranha determinação, pois isso constituía uma das proibições impostas às crianças. Imperava o conceito segundo o qual, lugar de boa criação era dentro de casa. A rua ficava para os moleques.

Talvez por isso, sempre tive vontade de ser moleque, e quando realizei esse sonho, parafraseando Jânio Quadros, “fi-lo porque qui-lo” e com muita competência.

Alegres, porque livres, aguardamos na rua a morte de nossa avó. Desejávamos, inconscientemente, que demorasse o quanto possível.
Para mim, mesmo ela não tendo medo de alma, não deveria voltar para o “quarto do tronco” porque ficava sozinha. Seria melhor morrer mesmo, como nosso parente. Mas pelo menos que demorasse um pouco mais. Assim, poderíamos melhor desfrutar a fugaz liberdade consentida.

Não me recordo o quanto durou a espera, mas num certo momento, algum familiar colocou na parede, em frente da casa, uma espécie de estandarte: um pano preto com uma cruz amarela no centro.

Era o sinal de que a brincadeira chegara ao fim para nós, e a vida se fora para nossa avó.

Igualmente, não me recordo da repetição dessa forma de anúncio público da morte de alguém.

Os tempos são outros.
Biuza
Enviado por Biuza em 04/12/2007
Código do texto: T763868
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Sobre o autor
Biuza
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 84 anos
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