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SÉRIE: CARTAS QUE NAO MANDEI - II

Júlia,

         Hoje, talvez esteja algo drummondiana, num poema de sete faces, em meio as minhas mil e não sei quantas, e imagino que algum anjo torto também compareceu ao meu nascimento e pelo menos tentou dizer-me pra ir ser, não gauche, mas poeta na vida. Pra meu azar e distração do anjo, que pobre, talvez por ser torto, não fez lá uma predição das mais adequadas. Não ganhei a inspiração de Drummond, nem a introspecção de Dona Clarice e sou apenas uma Joana qualquer.  Nada contra o nome, mas sou uma Joana a mais neste mundo de meu Deus.
         Porque é mesmo que comecei a dizer estas coisas, quem vai saber. Estou mesmo meio dispersa hoje, escondida e incomodada por trás destes óculos que  a mudança dos números na folhinha (que coisa mais antiguinha, to velha mesmo né, Júlia?) me obriga a usar. Mesmo assim, ainda posso, com ou sem eles, deixar meus olhos se encherem de lágrimas ou mesmo simplesmente se encherem com esta baita lua cheia lá em cima, me olhando com aquele ar de superioridade, porque linda como ela é, ela pode, né Júlia?
         Júlia, você lembra do João? Como "que João?" Ora, tá certo que não é este o nome dele e que você não se lembra de nenhum João na minha vida. E se eu te falar que ele é aquele maluco que comia feijoada com farinha de colher, se entupia de filé a parmeggiana todo santo dia se pudesse e que principalmente, me matava de raiva com aquela obsessão pelo time arquiinimigo do meu? Você vai saber de quem eu to falando,né Júlia? Pois então. O João adorava quando a gente passava perto do lago (como "que lago?"...ai, você parece mais velha que eu...) e a lua estava cheíssima e toda amarelona no céu.  Eu não pude evitar de lembrar...
          Lembrei. Lembrei e pronto, Júlia. E nada de bronquear com tua amiga porque isso é passado, que ele foi morar no fim do mundo e que nem merece que eu fique me lembrando etcetal. Lembrei, caramba. Você não se lembra das coisas assim , meio sem querer, como qualquer mortal? Oras... Lembrei que ele parava o carro ou diminuía a velocidade só pra olhar a lua cheiona... Lembrei de como a gente adorava uma estrada e de como ele gostava da minha mania de ir o caminho inteiro com minha mão na perna dele. De vez em quando a gente se olhava e aquele silêncio era mais eloquente que qualquer discurso. 
           E pensar que toda essa falação começou por causa dessa lua imensa lá em cima... Liga não, Júlia...É o Drummond, só pode ser. Acho que esse Malbec e essa lua me botam comovida como o diabo...
           Beijos, Júlia...e vê se não me pergunta mais quem diabos é o João.
          sua amiga meio bêbada e emocionada,

         uma Joana qualquer


www.deboradenadai.prosaeverso.net
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 16/08/2008
Código do texto: T1131599

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 56 anos
722 textos (166845 leituras)
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Débora Denadai