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SÉRIE : CARTAS QUE NÃO MANDEI- VI

Marlene,
 
                Sei que deveria estar aí pra você, como de costume, insistir na sua série favorita, ou seja, Missão Impossível – Parte 8957. Em outras palavras, tentar consertar ou, pelo menos, entender minha cabeça. Sei que deveria estar aí, mas infelizmente meus pés me abandonaram, não encontro em que raios de gaveta ou armário deixei minhas forças, meu cérebro roda a um milhão de rotações por segundo, indo de o que vou preparar para o jantar da criança até meudeusporqueagentesofretanto, e, pra ficar um pouco mais complicado, sou uma estátua. Imóvel, dura. A única diferença é que sou uma estátua que chora. A única coisa que parece ainda funcionar em mim são minhas glândulas lacrimais. Daí, como você pode imaginar, não deu pra ir. Não sei se foi a imobilidade das pernas ou a imobilidade interna.
                Gurua, a coisa tá pra lá de esquisita. Minhas idéias estão confusas. Eu sei que você disse que eu não devia dizer pra ele tudo aquilo que eu estava vendo de errado no castelinho cor-de-rosa que ele ergueu para viver, que não era da minha conta apontar os ratinhos no porão, que eu ia ser a primeira a levar cartão vermelho. Eu sei que eu também sabia e ainda fiz a besteira de falar pra ele daquela galinácea que andava rondando o terreiro e que ele tava era dando corda pra ela. Eu sei. Eu sei. Mas, poxa, Marlene, você me conhece: acha que eu ia ficar feito beata olhando a procissão passar e agradecendo a Deus todas as desgraças que me vieram e as que nem chegaram ainda? Eu num agüento  isso e se tem que doer que seja logo de uma vez. Mas o que me deu esse revertério todo é que nem ele sabe o que está fazendo. Ele falou que precisava de um tempo...ora, que compre um relógio. Que precisava ficar só e eu sabendo que a galinácea já estava mais com ele do que unha com cutícula. E ele falando com aquela cara que dava pra ver que nem ele tinha certeza do que estava fazendo.
                Se eu fiquei parada? Claro que não. Fiquei foi pasma. A única coisa é que assim que minhas pernas andarem vou lá na casa do dito levar tudo que é dele e buscar o que é meu. Não quero um fio de cabelo de um ou de outro no lugar indevido. Nesse exato momento quero que ele apodreça de tanto comer aquela comida estragada. Quero que ele se engasgue com toda aquela piranhagem disfarçada de fragilidade, que engula toda aquela pose de falsa inteligência todos os dias da vida dele. Se eu estou com raiva? Imagine... eu to é com ódio mesmo. Mas o pior é que estou com ódio de mim, de ser tão burra, de acreditar que as pessoas ficam juntas porque querem e não precisam mentir e nem esconder coisas se já são maduras e sabem o que querem...Bingo! É claro que esta anta é um Peter Pan e que nem tem idéia da besteira que está fazendo! Marlene,minha gurua, você é um gênio!
                É... você achou uma excelente explicação, Marlene...mas isso, infelizmente, não diminui a minha dor, não move os meus membros e nem tapa essas malditas glândulas lacrimais que insistem em continuar vertendo enxurradas... E o pior, Marlene, é que eu sei o tanto que ele ainda vai sofrer por isso. Você acredita que com tudo isso, com toda a dor que ele me causou, eu ainda me preocupo por ele? Vai entender, Marlene...vai ver minha síndrome de Madre Tereza de Calcutá não está totalmente curada. Eu ainda tenho girassóis nos olhos, apesar de tudo...
                De sua missão pra lá de impossível,
                Joana

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Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 26/08/2008
Reeditado em 26/08/2008
Código do texto: T1147045

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 56 anos
722 textos (166808 leituras)
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Débora Denadai