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um dia para Virginia W

... acordo cedo, normalmente; e ligo a cafeteira que deixei preparada de véspera e sei que é alguma coisa entre seis e sete da manhã - porque na tevê nos dias de semana passa sempre um capítulo da (série) “The Agency”, que sempre quisemos ver e não conseguimos (acordar). Ai vou pro banho, ou pelo menos pro banheiro, onde faço a higiene para o meu dia tomo o café fumo um cigarro (mentira, não fumo mais) e mui raramente tenho fome: ela vai bater lá por nove e meia, mais cedo agora que estou diabético e tomo um monte de comprimidos junto co' café prá hipertensão pro diabetes pro refluxo pro colesterol e seus irmãos (os triglicérides), pra não ter fome e pra anticoagulá as fibras no pão, as fibras solúveis, o leite de soja e os lactobacilos depois umas três musiquinhas no carro, ou mais, pro hospital ou pra universidade, um pouco mais pra Carambehy Voltar pra casa e comer sozinho na copa, que minha esposa prefere brincar com o menino e comer depois, lá no hospital, assim aproveita seu tempo e então eles passeiam pela casa, e conseguimos conversar um pouco, às vezes ou então comer com ela no quarto dos médicos, na UTI, comer com o menino na cama, rolinho primavera lá do chinês, discovery kids o dia inteiro... Preparo aulas, duas ou três vezes por semana, e dou plantões também, agora menos, graças a Deus faço-me útil na presença, aprendendo a aprender e a ensinar com meus colegas, os semelhantes a mim que dentre todas as profissões, escolheram esta Não sou filho de médico, mas sobrinho e primo, depois casado com uma, e com ela, agora, mas herdei o gosto e o jeito de alguém, quiçá do pajé ancestral que foi meu tataratatatataravô, porque na medicina encontrei amparo e solidão, mas nunca desanimei (acho que sai mais barato aceitar, e oferecer em sacrifício, e colher) Tenho três filhos, dois no Rio de Janeiro e um aqui o companheirinho, menino maaais bonito... invento-lhe nomes, rezo por ele, brinco com ele, canso com ele e me encanto – deles, dele e dela, a menina que mo deu Busco um espaço onde possa devolver à sociedade o que ela me deu, aluno que fui da escola e da universidade pública, ciente pelo olhar cotidiano do quanto um médico, um cirurgião pediátricooue oncológico, pode fazer de bem pelo próximo e ansioso também de devolver mil bençãos pela herança, resgatando junto com as histórias de meus antepassados, ideias, valores Um escritor, enfim eu sou de poucos versos, poucas linhas, muito menos (e que vontade que me deu de colocar “menas”) que queria, muito menos que imaginava e ainda espera o tempo, senhor da razão e da preguiça, escolher a hora de por pingos... e por pontos... nas histórias várias que 'inda ensaio depois vou ao jardim, nos meus momentos nos meus momentos e espero que a espiral do tempo e da natureza me leve no vento como num pomar woolfiano, deixando na grama impressa, por um momento, minha inércia e meu empuxo, enquanto a terra, a alma, a consciência, o id e o sonho ganham asas, me levando pra lá Eis então que grosseiras noções para interpretações tão sublimes interrompem meu fluxo: a criança do vizinho que grita meu cão que ladra o frio que bate - e volto para dentro, ansiando pelo calor do aquecedor elétrico a óleo, o cheira da cama e o aconchego das vozes e peles conhecidas, os que me definem, os queridos, os meus... (esse é meu dia, amiga Virginia, espero que o possas ler)
Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 04/10/2009
Código do texto: T1847933

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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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Renato van Wilpe Bach