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MEMÓRIAS CÉTICAS DE UM SUICIDA

MÉMÓRIAS CÉTICAS DE UM SUICIDA

“Era tempo de me ter ido”... Quando criança, nunca assimilei o real sentido dessas tais tradições mortuárias: caixões, velas, ornamentos, desvarios improvisados, figurinos, dado ao espetáculo ritualístico - por quase místico - e convencional em quaisquer culturas dos “ismos”.
Um parente cônego,  que em minha casa – às vezes - frequentava, brandia sua sabedoria eclesiástica como das mais fugazes armas e dizia:-“Filho, o reino dos céus é para os bons, e suicidas aos abraços do Satanás se encaminharão”. Assim, o pastor protestante da tradicional ou pentecostal, da qual minha avó era adepta, validava quase as mesmas teorias ao mencionar a palavra: su-i-ci-da .
Sobretudo, digam que se matar é covardia! Porra, mas como não posso dá  cabo do caralho de minha vida?.. Entretanto, vou andando pela Orla do Leblon, fumando, contrariando o desejo dos meus pais, irmãos, afilhados, veados, e dessa existência filha da puta, hei de dar cabo!
Já pensei nas armas de fogo, mas numa sociedade onde prego pacificamente o desarmamento civil, não, não será!.. Às brancas me servem ao menos para cortar, e numa incontrolável dor sanguinária, esperar, esperar, .. Esperar o impedimento o inesperável “apagão”. É como fosse um crime passional comigo mesmo. Como fosse morrer duas vezes no mesmo momento, pensando no que seria se não o fizesse, e o desejo de retornar à vida.
Enforcamento, em hipótese alguma! Propor-me-ia uma solução dolorosa ao último capítulo duma breve vida. Ao menos seriam alguns minutos de dor, desespero. Em mim, o medo acordaria num lampejo moral, no qual resignado eu estaria, ao enfrentamento destes meus últimos momentos.
Escutar Radiohead, e no auge do Black Sabbath, atirar-me do décimo andar, é outra possibilidade descartada. Pois lá fora existem ruas arborizadas, pessoas desmerecidas em presenciar meu showzinho gratuito. Impressionar-se-iam ou gargalhariam, quando no muito!
Saibam que ando lendo e sentindo o pessimismo do passado “Breve século” ( Hobsbawn ); e  ainda assim,  entusiasmei-me no  “La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II” ( Braudel ). Talvez, entusiasta eu pense ainda em não me matar. Todavia,  hoje no idos do  XXI, já dissera àquele japonês babaca: -“A História acabou”. Busco e não encontro novos nomes; novos homens. Sempre um caráter ascético, vem se propagando nas ciências, antigas visões repaginadas em novas ideias.
Escrevo agora esta carta, e até no veneno me sucumbindo às vísceras, eu já pensara! Porém, em saudosismo crônico dos “guaranás com formicidas” ( Jabor ), é ultrapassado! São refestelos dos chás e lisérgicos daquela experimental década de 70, cuja nasci e dela fui sócio, apenas.
Redijo uma carta, ingerindo de cinco em cinco comprimidos. Meu pessimismo ateu, não enxerga o medo no que, ao que, a quem morreu. Sem mais a dizer, a não ser a “vexatória juventude interrompida” (alusão a Ednardo), não refleti jamais “in the end”. Mas quanto a viver, “i loved”, foi demais! Sonhei o quanto quiz, vivi, sofri, escrevi... Foi demais!
Que não me encomendem às igrejas, derivações e seus líderes!  Que não me recebam os arcanjos nos céus onde poetizam Pessoa, Bandeira, Alves e o anjo Gabriel. Pois se há trevas  além daqui; além de mim; serei recebido ao  léu pecaminoso dum novo lar. Mas a maldade, eu garanto, em mim nem tanto há! Perdoem-me, sou assaltado num sono de súbito. Vou me deitar...
RODRIGO PINTO
Enviado por RODRIGO PINTO em 29/05/2005
Reeditado em 17/04/2014
Código do texto: T20507
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
RODRIGO PINTO
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 102 anos
367 textos (18542 leituras)
2 e-livros (1029 leituras)
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RODRIGO PINTO