CARTA ABERTA A 2007
®Lílian Maial


E então você chegou, 2007!
Dessa vez, eu fiquei indecisa entre deixar 2006 escapulir e permitir a sua rápida chegada.
Dois mil e seis foi um ano de reformas em todos os aspectos, um ano de observação, cautela, passo a passo, pé ante pé. Um ano de cuidado e controle, um ano econômico.

Havia entrado em 2006 sabendo que teria trabalho, que levaria tempo para reorganizar as coisas todas, a família, o trabalho, os projetos de vida, mas não podia imaginar a morosidade e a dedicação que ele me exigiria. Mas valeu a pena! Consegui deixar 2006 como uma pessoa fortalecida, refeita, pronta.

Assim, 2007, sua responsabilidade é muito grande! Cabe a você agora a colheita do que plantei. Cabe a você a oportunidade de me mostrar novos horizontes. Cabe a você a recompensa pelos anos de estio.

Continuo, ao romper dessa nova aurora com cheiro de coisa fresca, com a capacidade de ver, ouvir, cheirar, provar e tocar todas as coisas que a natureza e o universo mo permitem. Estou viva, e tenho os meus amados perto de mim. Tenho braços para abraçar, tenho a mente para pensar, tenho escolhas, tenho luz, tenho amor de sobra dentro de mim, e tenho futuro.

Quero abraçar a todas as pessoas que não pude em 2006, e mais um pouco as que já abracei. Renovar afetos nunca é de mais.

Tenho planos, muitos planos: quero cantar mais, dançar mais, sorrir mais, amar mais... E também chorar menos, sofrer bem menos...

Bem, meu caro 2007, sua tarefa é bem menor que a de 2006, porém não menos importante.

Tomar o lugar do 2006 parece mole, à primeira vista, contudo, ainda estamos vivendo muita violência de todo o tipo.
A violência das ruas, o crime, o terror estão implacáveis, mais sofisticados e atrevidos, ousando trilhas nunca dantes percorridas.

A violência social persiste, com a miséria, as diferenças e o racismo subliminar. A reeleição do Presidente Lula é fato, com uma visão social de distribuição de renda, mas ainda longe do ideal e da perfeição, por motivos diversos, incluindo aí a corrupção e o (des)comprometimento de políticos que não acreditam nele e em suas metas.

A violência da mídia – a mais terrível de todas – vem impondo padrões de vida entre os brasileiros e por todo o mundo, causando verdadeiras panes sociais, com prejuízos individuais e coletivos. Ditar regras de conduta, de consumo e de vida é um caso muito sério, e pode gerar sociopatias avassaladoras. O maior exemplo recente é a imposição da magreza como padrão de beleza e sucesso, levando mocinhas à morte, por bulimia e anorexia nervosa.

Há ainda a violência interior, aquela que obedece a regras estabelecidas por outrem, se infiltra no subconsciente e se torna padrão, como se tivessem sido criadas pelo indivíduo. Várias pessoas sofrem atadas a normas que não criaram, que os castra, mas que não ousam quebrar, pelo atavismo implicado nelas e pela aceitação, ou melhor, imposição da sociedade. São pessoas presas a uma gaiola interna, que não possui grades, portas ou janelas. São detentos de si mesmos, sem coragem de ousar, não nas atitudes extremadas, mas na conduta, no comportamento, no pensamento.

Em 2006 tivemos a Copa do Mundo para nos distrair, mas você nos trará os Jogos Pan-Americanos, esqueceu? Certamente mais empregos, mais dólares, mais investimentos, mais lastro para a cidade. Por outro lado, mais circo. Esperto e oportunista você, não?

E meus planos para você? Não estou ambiciosa, sorte sua! Pretendo apenas equilibrar o que já administrei em 2006, sem grandes projetos.
Mentira! Tenho tantos projetos debaixo do travesseiro, que mal consigo dormir! No entanto, aprendi a não dar o passo maior que a perna, que o pé, que eu! Vou devagar, com prudência até nos sonhos. Mas não paro, viu? Sonho, e sonho, e sonho!

Se em 2006 eu me atirei de cabeça, caí nos seus braços, com você já serei mais comedida, que é pra não me estatelar no chão, pra não me prometer o que não poderei cumprir, ou para não esquecer dos anos “em que vivemos em perigo”.

Agora escute aqui, nada de moleza! Pode vir com tudo de bom, que não farei por menos!
Que você chegue para a alegria, para a fraternidade, para o prazer, a sabedoria, para a poesia (que ainda é necessário que eu derrame versos no pôr-do-sol, que eu grite através das letras), mas principalmente para a PAZ. Nosso povo carece urgentemente de PAZ.

Ah! Já ia me esquecendo, precisamos de mais coragem, 2007, para enfrentar a opressão e a revolta, para abrir a boca e dizer NÃO à violência, ao terror, ao crime e à desordem. Precisamos de força de vontade para cobrar dos governantes as promessas de campanha, para aprender com os erros e tirar lições de futuro e esperança, para modificar o errado, sem desprezar seus ensinamentos.

Precisamos por fim, 2007, de amor e alegria, para atravessarmos com serenidade as turbulências que virão, e chegarmos sãos, salvos e felizes em 2008.

Que assim seja!


Lílian Maial