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CARTA DE UM LOUCO [5]

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Querida,

 

Fiquei todo esse tempo sem lhe escrever porque perdi a memória nuns comprimidos que me deram. Agora ela voltou sozinha. O Doutor me disse que eu andava muito agitado e que precisava limpar minha mente e meu cérebro. Como ele fez isso até hoje não sei. O que não entendo é a relação de eu andar agitado com a minha mente. Eu sempre andei correndo!

Aqui dentro não tem chovido, mas lá fora está inundado. O Noé da Bíblia, aquele que acha que o mundo vai acabar, todos os dias; numa noite dessas de chuvarada, trovões e relâmpagos, andava pelos corredores da clínica gritando: — Está chegando à hora! Está chegando à hora! Como ela não chegava e ele não deixava ninguém dormir, quem chegou foram os homens de branco. Trancaram o Noé na cela de doido varrido. Ainda bem que sou só maluco beleza. Agora o Noé ta lá quietinho.

Antes das eleições, apareceu por aqui um sujeito barbudo e esquisito, todo mundo achou que era mais um paciente do Dr. Salvador, mas o que ele queria era saber quantos de nós tinha condições de votar; como eu não andava bem, por causa da memória, não consegui a licença para sair no ônibus do voto. Os malucos fizeram um lindo passeio e até lancharam de graça. Fiquei com inveja.

A ponta do meu lápis está acabando; a enfermeira não quis mais apontar para mim porque tenho de dormir, só a minha saudade de você é que não acaba.

Do seu Maluco Beleza.

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 01/02/2007
Reeditado em 23/02/2008
Código do texto: T366601


Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 72 anos
1281 textos (31974715 leituras)
7 e-livros (10776 leituras)
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Ricardo Sérgio