Carta ao silêncio

Há muito tempo não escrevo uma carta de verdade, daquelas escritas à mão, de preferência à bico de pena ou com caneta tinteiro, desenhando no papel cada letra que transmita mais do que palavras, mais do que símbolos e sim os sentimentos que em mim andam retidos como um oceano margeado por uma represa de objetividades. Uma carta romântica, uma carta nostálgica, dos poetas mais profundos.

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Há muito tempo o medo de errar novamente me aprisionou, me fez buscar um alento, a segurança, a convencionalidade e com o passar dos dias, meses, terminei me acomodando e me colocando na posição de alguém que apenas aceita o que lhe pode ser dado, o que lhe resta ser dado. Não que eu não seja merecedor de mais e sim porque no final acabamos muitas vezes somente tendo isso vida à fora e simplesmente nos resignamos.

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Há muito tempo eu queria lhe dizer essas palavras, mas elas teimam prender-se nas correntezas de meus medos, e quando dispersam-se até você o fazem da maneira errada e você as compreende como uma tempestade em um copo d'água. Por isso há muito tempo desisti de falar com você, de lhe contar verdadeiramente como me sinto, pois o que sinto parece lhe ferir e como não a quero ver triste optei por silenciar-me e sofrer sozinho nos recônditos de minha alma como fiz a vida toda. Só não imaginei que isso aconteceria também ao seu lado...

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Há muito tempo percebo o quanto as minhas respostas à você se tornaram burocráticas, automáticas, cada vez mais distantes de mim ou de você, apenas cumprindo um ritual de "bom dia", "boa noite", "te amo" como se todas essas expressões tivessem o mesmo peso e o mesmo significado. E cada vez que as repito, me questiono sobre o porque de manter essa dramatização que cada vez mais me parece sem sentido e pior, sem sentimento. Sei que não quero lhe magoar, sei que não quero me magoar. Talvez esteja sendo egoísta e não queira ficar sozinho. Talvez não queira me sentir mais solitário e perdido do que já estou e esteja me agarrando à ilusão de que ainda podemos dar certo. Ainda não sei bem.

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Há muito tempo, todavia, ando cansado de continuar nessa estrada. No início você estava ali, de mãos dadas comigo, haviam sorrisos, havia carinho, havia amor, havia esperança. Agora só há distanciamento, tristeza, preocupação, solidão. Não sei até que ponto vale à pena continuar assim, sem conseguir enxergar um horizonte melhor. É como se todo o nosso melhor juntos tivesse tido seu ápice e agora estivesse em constante declínio levando embora o que havia de mais precioso entre nós, desatando os laços que nos uniam, apagando a chama que nos aquecia nos dias de inverno intenso.

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Não sei ao certo o que acontecerá conosco, talvez já esteja acontecendo e cada um já esteja naturalmente seguindo seu rumo em trilhas opostas. Eu só queria que você soubesse que eu ainda amo você, mas agora entendo que amor ás vezes não basta para manter duas pessoas juntas, principalmente quando esse amor se sente da forma como descrevi antes, como uma cor que se esvai na aquarela e deixa as paisagens desbotadas.

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Fica o meu beijo e mais uma vez, o meu silêncio.