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Acineto

Eu vaguei durante um ano naquela cidade maldita, vaguei como um verdadeiro fantasma, esperando ansiosamente por alguma notícia sua, mas nada, nem um sinal de vida.
Mas o que poderia eu esperar de um amor que já nasceu morto? Digo que ele já nasceu morto porque ele nasceu em nossos corações, eu creio nisso, porém, ele teve o azar de nascer em tempos diferentes. Em mim, por exemplo, ele nasceu tardiamente, e o seu, que já havia nascido há muito, havia morrido de solidão, enquanto o meu, pobre mancebo órfão, logo iria para o mesmo caminho do esquecimento.
Eu me pergunto todos os dias, por quanto tempo um amor morto pode viver dentro do nosso peito? Seria o meu amor uma espécie de acineto que se preserva quase morto à espera da primeira chuva, de qualquer sinal de vida?
Penso que quando tanto eu, quanto você, tivermos verdadeiramente desenvolvido um amor próprio genuíno, nós nos encontraremos, por acaso, em uma cidade litorânea tão calorosa quanto os nossos corações, e nos esbarraremos em uma tarde quente e chuvosa, ambas enquanto apreciávamos o céu e agradecíamos ao cosmos por ter criado algo tão belo e puro. Assim, naquelas circunstâncias melhoradoras, os nossos acinetos reviveriam e viveríamos mais setenta anos juntas, envelhecendo e se amando cada vez mais.
Você sabe, aquele ano foi o melhor, não para você, é claro, mas para mim. Pouco dinheiro, muita coisa para fazer, mas amigos unidos como nunca, como irmãos, como família. Daí você apareceu, linda e loira, a criatura mais linda que eu já vi em toda a minha vida, com aquele sorriso triste, porém sincero, de quem já sofreu e ainda sofre bastante.
 Naquela época eu conheci a sua família e percebi que ela tinha poeira, a poeira dos tempos, aquela poeira envelhecida, que representa o quanto uma família pode se desgastar com o passar dos anos. E lá estava uma menina, com uma luz meio apagada, meio acesa, sentindo o desespero de quem já não sabe mais o que fazer, e a luz de sua irmã, um pouco mais acesa, mas há de se entender, ela era mais nova, portanto menos vivida, menos decepcionada, menos morta.
Eu quis te tirar dali, te dar um beijo, te trazer para a vida. Oh desgraça de medo! De imbecilidade! Que teima em fazer a gente ficar cego, esperando um sinal que nunca vai vir! Então eu te deixei lá, do mesmo jeitinho que te encontrei, mesmo eu sabendo que você morria um pouco mais todo dia quando ficava lá. Te deixei com os leões, pobre lebre indefesa!
Mereço sofrer por isso? Mereço, tanto que já sofro há tempos. Sofro por ainda te amar, por ainda te querer, por ainda insistir em sonhar com você minha diaba!
Posso eu ter esbarrado com o amor da minha vida e o deixado ir embora? Distraída do jeito que sou, tanto posso quanto provavelmente já deixei.
Enquanto isso, eu aproveito para deixar prováveis amores sãos passarem e irem embora, sem eu nem haver tentado viver nenhum deles, pois só tenho olhos para você.
Carol S Candido
Enviado por Carol S Candido em 15/04/2018
Código do texto: T6309511
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Carol S Candido
Itu - São Paulo - Brasil, 25 anos
3 textos (61 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/07/18 18:13)