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Hoje eu fui beijada

Hoje eu fui beijada.
Assim, rápido como a primeira linha do texto que virá a seguir.

Enquanto tento me expressar, tem um adulto sorridente na minha direção. Ele conseguiu pegar uma pelúcia laranja, naquelas máquinas de shopping.
Satisfeito, guardou na mochila e seguiu seu caminho.

Hoje eu fui beijada.
Um dia após saber por você que estava tudo acabado, um dia depois de descobrir que, para você, o amor havia acabado.

Hoje eu fui beijada dentro de um agile, ouvindo Ed Sheeran.

Não era a sua boca, não eram seus dentes mordendo meus lábios.
Não tinha sua barba nascendo roçando no meu rosto e me deixando vermelha.
Não era seu cheiro pós banho.
A nuca dele não era o meu lugar.
A sua também não era mas, eu só soube ontem.

Ele estava ali, entregue ao momento,
dizendo que eu estava machucada, que era uma fase e ia passar. Ele estava me aceitando com todas as minhas mágoas.

Eu não tenho nada para oferecer pra ele.
Eu não tenho nada para me oferecer.

Ouvi ele dizer que queria tentar. Que estava disposto a estar comigo e ver no que iria dar.

Logo eu, que ontem era campo florido e hoje estou seca como o uma planta esquecida em alguma casa para alugar. Ali, no vaso de plástico todo quebrado, sem sol, sem chuva. Seca.

Ele tentou segurar minhas mãos e eu endureci.

Ele colocou a mão no meu pescoço e eu quis fugir.

Eu acariciava seus dedos, se lembra?
Levava sua mão até minha boca e beijava cada dedo, digital, cada calo.
Ele me olhou sorrindo com os olhos.
Ele não tem as suas covinhas.
Posso mudar a música? Estou com vergonha.
E se você decidir aparecer daqui uma semana?
E se não aparecer nunca mais?

A gente sabe, qualquer dia desses vou estar no supermercado, ouvindo uma música dançante no fone de ouvido (espero ser um funk) e você vai estar lá: na sessão de hortifruti, comprando a comida da semana.

No domingo nublado, chegarei na barraca de pastel e você vai estar na barraca ao lado, tomando um caldo de cana.
Seremos estranhos.
Estranhos com uma história em comum.
Ah, esses registros de alma.
Como doem, não é mesmo?

Preciso voltar para o agile.
Tem música boa, ele deixou eu colocar a minha playlist.
O farol abriu e eu estou atrasada para a realidade.
Jessica Cipriani
Enviado por Jessica Cipriani em 09/07/2018
Código do texto: T6385875
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Jessica Cipriani
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
2 textos (60 leituras)
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