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Uma mensagem para o cara de maio

Você chegou do nada. Saiu abrindo as gavetas, remexendo as coisas e sentou no sofá no lugar que não era seu. Você, realmente, apareceu do nada. Bateu a porta na sua entrada, e ligou o som e abriu as janelas para que não houvesse ressalvas: não que você fosse ficar pelo o resto da vida, mas que era bom eu me arrumar porque você não tinha pretensão de sair correndo. Mesmo que eu gritasse. Mesmo que eu esperneasse. Não adiantava eu fazer jogo duro; você nem ligava. Você ia ficar e ponto final.

Foi engraçado. Desde o primeiro momento. Desde que você colocou os pés em cima do sofá e ficou mudando os canais da televisão. Me desculpe pelo o silêncio inicial e pela minha agressividade matinal, mas eu estava surpresa com tamanha audácia e falta de senso de alguém que é novo em algum lugar, mas não liga. Não tá nem aí. Você estava tentando abrir espaço para poder ficar, e quem diria, você ficou. Minha surpresa não era nada além de espanto e tesão. Há tempos eu estava a espera de quem iria se aprontar de chegar junto para me juntar. E quem diria, você chegou.

Não que você me junte. Não que você perca seu tempo tentando me explicar que um mais um é dois, ou que talvez eu não devesse falar tão alto e ser tão eu quando eu posso simplesmente, dar um sorriso e sair de perto. Você não liga se tem alguém olhando. Não liga se é madrugada e está frio. Nem liga se eu fico falando de coisa sem sentido só pro silêncio não entrar pela porta. Você não liga. Não liga porque tá com os pés sujando meu sofá a semanas. Não liga porque colocou aquele sertanejo chato para tocar na minha playlist, e vem me mostrando uma gama de restaurantes novos.

Você bateu a porta quando chegou, e chegou sem pretensão de saída ou senso de se retirar. Não que eu goste dessa agitação toda, mas a graça de ter alguém andando pela casa ainda me faz suspirar e pensar em como a vida é irônica. Maio se anunciou tão tranquilo e modesto, e no meio dos meus dias você apareceu por aqui. Falando alto, batendo portas e remexendo certezas. Ironicamente, bem do jeito que você me disse que eu cheguei por aí. Se acomode.
Mariana Ravelli
Enviado por Mariana Ravelli em 03/06/2019
Código do texto: T6664183
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Mariana Ravelli
Ipatinga - Minas Gerais - Brasil, 24 anos
38 textos (857 leituras)
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Mariana Ravelli