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Atravessando o tempo _ missiva do século XXI para o século XX

Querida  xará ( ou uma das versões de mim mesma)

Não se espanta quando perceber que o  seu ( nosso) tempo atravessou o século. Pois é! Você é do Século XX e eu , essa que vos escreve habito esse maravilhoso século XXI. Quero te contar tanta coisa, tanto que desaprendi atravessando esse tempo.
Às vezes desejei ter aprendido muitas coisas contigo e   chegado ao hoje sabendo aquilo  que  levei anos para descobrir, então desisto dessa ideia boba. Quer saber?   Acho que teria sido muito chato e pouco inusitado esse curso   , se tivesse sido agraciado pelo conhecimento antecipado. Onde estaria a emoção do desconhecido? Como viver episódios tantos, dos mais belos aos mais bizarros e até os tristes também. Definitivamente foi melhor assim.
Não vou te dar conselhos, nem pedir para fazer nada diferente.
A vida acontece! Simples assim! Nada é imutável. Viva o momento.
Chega de ser caramujo.
E você (Eu) sabe como aquela menina tímida e
 quieta virou uma viajante espevitada e cheia
 de aventuras para contar.  Sabe também como
 ela ( nós) re_descobriu as palavras e
 desaprendeu as coisas.
Hoje ela vive os dessaberes
que a vida gentil ou dolorosamente lhe oferece.
São tantas invencionices e artesanias que ela ( Eu) mal tem tempo para pensar em mesmice.
Mando notícias  de cá. Quero notícias daí, mas só algumas, não me conte tudo para não estragar a surpresa.
As de cá, algumas alvissareiras e outras, não tão boas.
Você vai se sair bem, no final das contas. Vai  estudar, trabalhar , casa, ter filhos e uma neta linda e vai continuar a estudar, estudar... rsrs .Vai morar em outras cidades,  mas o seu coração sempre será acariciado por essa  terrinha chamada São Geraldo.
Sei que você ainda gosta das frutas fresquinhas,  em especial, as mangas rosas,
tiradas do pé aí no sitio do seu ( nosso) avô. E aí vai uma notícia ruim: o sítio não existe mais!
Você também  gosta de olhar a lua, ( essa ainda bem que todo mês volta maravilhosamente linda ), iluminando a calçada que abriga as conversas e histórias , noite após noite. E quando ela, a lua, não está ao alcance do seu olhar,  o céu estrelado te pertence e o teu olhar é puro deleite com o cruzeiro do sul. Aquele juntinho com as Três Marias logo acima da torre da igrejinha.
 Imagino que , nesse instante, você pode estar  naquela janela, com o olhar a perder de vista ( como a Narizinho) e essa cabecinha  cheia de sonhos e de invencionices, igualzinho à boneca Emília do Sítio.
Porém, nos seus sonhos mais malucos não caberia o mundo no formato  atual. E você diria: _ pronto! Virou de ponta cabeça.
Aqui está muito louco, um vírus parou o mundo e nos deixou a todos em quarentena, nos obrigando a ficar em casa.  Quando saímos, temos que usar máscaras.  As máscaras, além da proteção, compõem o novo look das pessoas. Parece moda. O legal é  que temos oportunidade de ver os olhos e  ler o que eles nos dizem.
As viagens, todas em standby. Nada de passeios ou saidinhas, nem mesmo à praia podemos ir.
E eu que amo bater perna, viajar, entrar nas livrarias e bibliotecas, estou isolada em casa. Isolamento social , foi o que disseram. Mas tinha que ser, para proteção e o não avanço da pandemia.
Muitas pessoas já morreram. Triste né?
Isso já dura mais de cem dias.
A coisa está feia!  Além da pandemia, a nossa política vai de mal a pior. Quem sabe um dia te escrevo sobre isso. Você ainda não entende como é difícil ver uma democracia agonizar.
Trago tantas  novidades! Principalmente na maneira das pessoas viverem. As pessoas falam muito mais  através de uma máquina chamada computador, conectados ( a palavra da moda), por uma uma rede chamada INTERNET . Tem pessoas que passam o dia todo no Wastsap ( até chamam de zapzap ), outras realizam seu trabalho  remotamente. Nesse tempo de pandemia isso tem sido muito frequente. E útil.
Também nos vemos através de aparelhos sofisticados chamados smartphones, cujas câmeras potentes fazem milagres. Deixam a gente até mais bonita.  Será que você gostaria dessas novidades? ( Te mando fotos, algumas são selfies que eu mesma tirei). Taí! Selfie, outra palavra da moda. Não basta falar em português, tem que ser em inglês para ser chic.
E os livros? Sabe aqueles livros pesados que você carrega pra cima e pra baixo? E a dificuldade para consegui-los emprestados? Hoje estão num aparelhinho chamado kindle .
Você não imagina quantos livros podemos guardar dentro dele. Tantos que nem sei contar. Feche a boca menina!
Mas deixa eu te confessar um segredo ( que nem é tão segredo assim!) Eu tenho livros no Ipad, no Kindle, no smatphone, no notebook e leio muito, mas nada se compara ao livro de papel. Aquele que a gente pega, abraça, cheira e se deleita na leitura. Nisso a Fátima de hoje, continua igualzinha a você. E... hoje você tem uma estante cheia de livros só pra você. Livros de verdade, para cheirar , abraçar,  ter ciúme, emprestar e até doá-los quando for preciso. Uma coisa  que você é e continua sendo: alguém extremamente desapegada das coisas materiais.

Será que você iria gostar dessas novidades? Aqui ninguém senta nas calçadas ( medo de assaltos). No tempo- espaço que você se encontra, as conversas acontecem  nas calçadas, nas portas de casa, nas feiras, na igreja, nas debulhas de feijão.
Eu sinto saudade desse tempo, o meu ( seu) mundo se enquadrava na janela lateral da casa.
Quero te dizer que era esplêndido, nos divertíamos, conversávamos  e ríamos bastante.
Onde você está, o mundo é mais leve. Será???
E, só para constar, meus gostos continuam bem parecidos com o seu: admirar o por do sol, olhar a lua cheia, ler livros, escrever e sonhar. Admirar estrelas ( aqui uma tarefa quase impossível)
Alguns sonhos diferentes eu sei.
O  sonho de conhecer o mundo é meu, não é seu. Mentira! Está esquecendo dos livros!
 E hoje eu conheço tantos lugares ( de verdade) como  conheço tantos  que os livros me levaram e levam.  Muitos desses você foi.
Sim, continuo gostando de me perder/encontrar nas leituras . Isso não mudou.
Continuo gastando palavras em papéis , algumas até estão em livros de verdade. Já participei de vários , fui a lançamentos, pedi autógrafos, dei autógrafos. Mas, não pense que fiquei metida. Isso nunca!
É tudo tão novo, tão inusitado para você.
Ainda tem os livros digitais. Escrevo e publico na internet. Estão todos lá.
Ando escrevinhando bastante, algumas dessas escrevinhações foram escritas na pedra, outras, escritas na água, se perderam muitas , no papel, tantas que nem sei onde foram parar.  Algumas permanecem na NUVEM. Já imaginou, escrever e depositar na nuvem? Não pira, por favor. Lê devagar e digere.
Estou indo depressa demais? Às vezes sou assim mesmo, acelerada, outras, sou como a música  que diz “ calma, a vida é tão rara”. E não , essa você não conhece. Ainda não.
Aprendi a voar, no sentido mais metafórico da palavra.  Se eu  tenho asas?  Ah, só aquelas dos anjinhos na coroação de Maria... Pois sim...Mas , como sempre digo: asas para que , se tenho a palavra e uma imaginação sem limite?
E já estou pensando no que você está imaginando: Essa aí pirou de vez, não diz coisa com coisa. Sabe que às vezes também penso assim?
Vou te contar um segredo: em muitos lugares onde vou, te levo comigo e deixo que o  indelével  tempo não seja barreira para estarmos juntas. Claro, que só em alguns momentos. Afinal,  não posso ser criança/adolescente pra sempre. Mas que é divertido, ah isso é. E os adultos me olham enviesado e não entendem essa nossa síndrome de Peter Pan.
Queria te contar só as coisas boas, mas  crescer dói. A gente perde pessoas que amamos. Elas viram saudade, assim, de repente, na brevidade do tempo. Se você também virou saudade? Em alguns momentos, sim. Mas calma, não te matei. É que às vezes você some, desaparece e eu te chamo de ingrata. Outras, eu fecho o olho e te encontro com o olhar sereno e essa cara de fingida . Então bato a porta na tua cara e parto.
Mas já vou te avisando, de vez em quando vou te escrever, nem pense em sumir outra vez. Se você esqueceu, eu sou (somos) uma taurina teimosa e bem marrenta, não desistimos fácil daquilo que queremos.
A carta foi longa, tanto tempo sem notícias...vou me despedir. Por enquanto...
Gratidão me define. Esperança também...
A beleza de hoje e ter minha família por perto, ser mãe de Aline e Walter e  avó de Maria Yasmin.  Você não imagina as peripécias que essa avó e neta são capazes de realizar.
Mas isso é  assunto para outra missiva ( gostou? Aprendemos na escola: missiva! Acho lindo esse nome carregado de memórias.
 Aguarde!
P.S.  Sei que sua imaginação é bem farta, mas algumas coisas só vendo as fotos para crer.  Kkk  Ah! E esse kkk faz parte da linguagem atual e quer dizer que estou rindo bastante nesse momento. Quem diria ?
Ah, pensou que eu estava escrevendo à mao? Se enganou kkk Advinha onde escrevi esta carta?

Um abraço bem apertado
da Fátima do séc XXI para a Fátima do século XX

FATIMA MOTA
Enviado por FATIMA MOTA em 19/08/2020
Código do texto: T7040725
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
FATIMA MOTA
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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FATIMA MOTA