Para uma menina

Kauane, lembra do dia em que nos conhecemos? Foi no dia 17 de agosto de 2007; eu tinha 21 anos. Lembra que você não tinha dinheiro pra entrar no festival de arte de Franco da Rocha, que ajudei a organizar em parceria com comerciantes e a prefeitura da cidade? Você com seu cabelo "Elis Regina", com suas amigas na porta. Percebi que vocês não tinham grana pra entrar e convidei vocês a entrarem. Estava escuro e não te notei. Depois, te vendo dentro do lugar, como você era linda, me apaixonei imediatamente - pensando nisso hoje. Nos entreolhamos, você sorria pra mim, conversamos durante a noite; nunca me esqueci disso: você tirou seu cachecol e o colocou por trás de meu pescoço, me puxou e me beijou, puxou uma caneta que estava no meu bolso e escreveu no meu braço: "Você é meu". Aquilo me afetou tão profundamente...

 

Você foi a pessoa mais intensa que conheci - inteligentíssima, ágil; o que mais me atraia em você era a sua irritabilidade. Eu achava cômico. Você se justificava falando: "Sou Ariana, fazer o quê?". Lembro do seu queixo avantajado, quadrado, suas pernas de guerreira grega, que ilustrava muito bem sua personalidade. Foi tudo culpa minha, perdi a mulher mais incrível que conheci. Te vendo de longe, você se tornou exatamente a mulher que imaginei que se tornaria. Soube que por muito tempo você perguntou sobre mim para amigos nossos.

 

 

Até me apaixonei por outras mulheres, mas nunca como foi com você; me vi interessado por algumas apenas pelo fato de ver nelas um trejeito seu, um traço, uma semelhança, seja lá no que fosse. Que ridículo, eu sei.

 

 

 

 

Lembra da última vez que nos vimos? Eu sentado em frente a estação de trem, lendo "Ressurreição" do Machado. Fingi que não te vi, você veio até mim, falou comigo de maneira tão doce, tão acolhedora. Eu, como um bicho arisco e orgulhoso, fingi que não estava nem aí.

 

 

Kauane, conversando com o Rafa, dias atrás, ele me disse que você havia tido uma filha. Fiquei feliz por você. Não pensava em você fazia muito tempo, mas senti um aperto tão grande no peito, uma vontade de chorar me acompanhou durante todo aquele dia, e chorei muito. Ando tão bagunçado ultimamente, que já não sei se foi intrinsecamente por você, ou por causa de um passado que perdi, que era mais leve e inocente, não o presente gélido em que vivo - de obrigações mesquinhas.

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Maré
Enviado por Carlos Maré em 14/01/2022
Reeditado em 16/01/2022
Código do texto: T7429603
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