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O Negro Januario

 Ele era um daqueles negrinhos que não parava quieto, vivia a correr por entre o pasto sempre buscando uma aproximação com os animais. Era um exemplo de liberdade, solto, leve, peito ao vento e todo tempo do mundo para desfrutar daquela natureza toda; não fosse por ser escravo poderia se dizer que era a própria liberdade.

Naquela idade ainda não lhe tinham cobrança achavam-no ainda muito fraquinho para lidar no canavial, sem contar que tinham-lhe o que não chamaremos de afeto, mas uma certa simpatia pelo seu jeito brejeiro, alegre e porque mesmo não sendo obrigado estava sempre disposto para o trabalho, mais enxerindo do que ajudando, mas “os grandes” como ele mesmo chamava, se divertiam vendo como ele era esperto.
A infância transcorria assim, mas sem que parecesse que algum tempo se passara. “Os grandes” percebiam que ele realmente era de muita valia. Um busto forte de onde pendiam dois braços musculosos. Tomavam o lugar dos caniços como diziam perecer seus braços e pernas. Era de uma valentia muito grande. Dizia:
— Nesse mundo eu não tenho medo de nada.
E enumerava, nem de javali nem de boitatá nem de mula sem cabeça e nem de onça. Um primo que era bem mais velho dizia:
— Esse frangote tem muito é garganta.
Mas era só pra chatear, pois todos admiravam a força e a coragem do já agora negro Januário. Rapaz que os próprios patrões diziam:
— Esse negro vale por cinco.
E até por isso que ele viu alguns saírem e outros chegarem na senzala, porém seu dono se recusava em vendê-lo.
Numa dessas levas de escravos comprados que ele conheceu uma escrava que realmente lhe perturbava os sentidos. O cruzar de olhos foi instantâneo, ele parecia pregado àquele rosto negro, de pele lisa e olhos que pareciam janelas para o amor. Januário agora mais que nunca trabalhava como um touro, mas até para aumentar sua fama de valoroso o que despertaria a atenção de sua amada. Mal sabia ele que ela já morria de amores por ele e que sonhava em estar naqueles braços fortes, foi rápido que estavam se encontrando em lugares ermos. Nesses lugares os dois conheceram o amor. Faziam amor emoldurados pelo sol quando era dia e pela lua quando era noite e depois do êxtase admiravam o céu e falavam de liberdade. Ele, como tinha o apreço do patrão, sonhava em comprar sua liberdade, mas dizia:
— Se ele quiser eu trabalho para ele a vida toda. E poderia ter sido assim.
Naquela tarde se apressou com a charrete e dizia “saiam da frente, vou buscar o sinhozinho na estação”. Fazia realmente muito tempo que não se viam, era o sinhozinho homem alto, forte e de maneiras tão educadas que parecia antipático, definitivamente percebeu “não é o mesmo sinhozinho de quando brincávamos, que buscava a minha proteção, pois tinha medo de tudo”. Tudo que ele disse foi: “Negro Januário carrega minhas malas” Foi muito diferente do que esperava e tocou pro engenho.
Bastou o sinhozinho botar os olhos na negra de carnes firmes para, que como de impulso, dar-lhe uma palmada nas ancas redondas e rijas dizendo:
— Antes de dormir te espero para escaldar meus pés.
Na hora de dormir ordenou que subisse e não demorasse. A negra subiu com a bacia de água e panos para a compressa, mas o almofadinha já a esperava completamente nu e quando ela entrou ele trancou a porta exigindo que ela se deitasse com ele. A negra tentou argumentar dizendo que estava pra se casar com Januário e o sinhozinho disse com escárnio:
— Você vai preferir aquele negro imundo a ter os privilégios da casa grande? Olhe bem o que está fazendo. Pegou-a com força e disse:
— Se não fizer o que eu quero amanhã mesmo estarão os dois no tronco e o Januário talvez eu mande matar, eu acho mesmo que ele tem privilégios que já estão na hora de acabar. Diante de tais ameaças não teve outro jeito, a negra se deitou com o sinhô, então passou a ter cada vez menos encontros com Januário. A noite nunca podia e de dia só às vezes. Januário andava com a pulga atrás da orelha e cobrava explicações. Chegava a pensar que sua negra não lhe amava mais e foi seu primo que lhe perguntou:
— Januário, tu anda distante, esquisito, o que tá acontecendo?
Januário meneava a cabeça dizendo que não era nada.
Até que uma noite, como não tinha mais companhia da negra, perambulava, quando ouviu no quarto do sinhozinho:
— Êta negra, tu é mesmo gostosa, mais acho bom fazer com gosto senão esse teu Januário ta mesmo é morto.
Então Januário matou a charada de imediato. Pensou em entrar e tirar a vida do sinhozinho com as próprias mãos, mas refletiu e achou que não era sensato, então esperou o sol raiar. No encontro com sua negra estava distante e ela perguntou:
— O que foi Januário, não me deseja mais?
E ele com um esforço sobre-humano disse:
— Eu já sei de tudo.
— Tudo o que? Perguntou ela.
— Você e o patrãozinho.
— Januário meu amor, disse ela, eu posso explicar. Eu só deito com ele porque te amo, pois se não atender seus caprichos ele te mata.
— Mas não é justo, tenho que encontrar uma saída.
E pela primeira vez Januário pareceu ter medo, não medo do patrãozinho, mas medo daquele sentimento, medo da indecisão e medo do que poderia acontecer, pois tinha muita gratidão pelo pai do sinhozinho e o amor pela negra, ah, esse lhe cegava.
A história já corria solta quando o sinhô chamou o filho e disse:
— Meu menino tu pode ter a mulher que quiser, larga a negra de Januário de mão. Januário tem-me sido fiel a vida inteira, como foi seu pai. Você não sabe, mais o pai de Januário morreu pra me salvar de uma tocaia armada pelo meu maior inimigo, porém antes de morrer Tião tirou ele do meu caminho pra sempre. Quando percebeu a tocaia ele se atirou em minha frente recebendo um balaço que poderia deixar um elefante imóvel, porém mais rápido que um gato Tião correu pra cima do meu desafeto e antes que pudesse disparar o segundo tiro Tião já tinha cortado sua garganta. Olhou pra mim e disse: — Cuida do meu filho. Esse aqui não faz mal pra mais ninguém. Coloquei Tião no cavalo e corri como nunca tinha feito. Só então me dei conta do que Tião era pra mim, não era escravo, não era empregado e sim um amigo, sendo assim eu chorei e o negro Januário é livre, só não lhe comuniquei esse fato por medo que fosse embora e junto levasse as melhores lembranças do meu amigo Tião. Só que diante das circunstâncias só tenho essa alternativa, deixá-lo ir com sua negra.
O filho escutou tudo e deu as costas como resposta.
O patrão mandou chamar Januário e lhe disse:
— “Meu filho” você e sua negra estão livres, vocês podem partir quando quiserem e pela primeira vez alguém viu Januário chorar. Ele tinha aprendido a amar aquele engenho como se fosse seu e também tinha muita afeição ao sinhô. Então se recusava a partir, porém saiu da sala.
Quando chegou ao pátio ouviu:
— Negro Januário, ele se virou e viu o sinhozinho parado alisando o cabo do revólver. Vários negros já se posicionavam para ver o embate, o sinhô correu para a varanda, parou e ficou olhando. Januário já de peixeira em punho olhava-o com fúria e para o sinhô com olhar de perdão. Foi então que o sinhozinho largou o revólver e disse:
— Januário, meu irmão, se for possível me perdoe, eu hoje descobri o que é a verdadeira amizade. A fidelidade da tua família salvou minha vida, pois no meu egoísmo pensei em tirar-te o que de mais caro tem, e é quase certo que morresse na ponta da tua peixeira. E estendeu a mão.
Januário desarmou o semblante e disse:
— Ah moleque ordinário, tu quase fez com que eu acabasse com minha vida, pois ia ser um desatino ter que dar cabo da tua, essa situação me fez estremecer, logo eu, negro Januário, que não tenho medo de quase nada.

jocimar linhares
Enviado por jocimar linhares em 16/03/2009
Reeditado em 17/03/2009
Código do texto: T1490303
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jocimar linhares
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