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CAUSOS VERDADEIROS DO SERTÃO. CAPÍTULO 1: O GRANDE CRAQUE ELIZÃO - HUMOR SERTANEJO

Este é o conto nº 1 que faz parte do livro \"CAUSOS VERDADEIROS DO SERTÃO.
       
O GRANDE CRAQUE ELIZÃO
                                                                                                                                                                         

O desconhecido, porém maior jogador de futebol de todos os tempos. Aquele a quem Garrincha e Pelé gostariam de ter conhecido...e se curvado a ele.

Por Xexéu Bandeira!

 

Xexéu, sertanejo, nascido no interior de Pernambuco, freqüentador de peladas, era conhecido como um eterno sonhador da região interiorana das Minas Gerais, pra onde se mudou ainda jovem. Ele se dizia um caçador de talentos. Por isso mesmo foi o descobridor, ainda que por mera casualidade, do maior talento futebolístico de todos os tempos: Elizão. Desconhecido, penso eu, da maioria dos admiradores de futebol do maior país de futebol do planeta.

Xexéu, naquele tempo em Minas, estudou na escola primária com nada mais nada menos que com Wanderley Luxemburgo. Eram colegas durante todo o primário; andavam de calça curta subindo a ladeira do Anum-preto até chegar na Escola Carlota Brekfeld. Isso ocorreu durante anos, até que Xexéu fez admissão noutra escola e Luxemburgo se mudou de Minas para tornar-se, depois, um dos grandes treinadores do Brasil. Na época dos fatos aqui narrados pelo próprio Xexéu, Luxemburgo era treinador do Palmeiras.

Ao descobrir o garoto Elizão e suas qualidades excepcionais, Xexéu teve a idéia brilhante de reatar a velha amizade de colégio com o grande treinador. Depois de várias tentativas, de erros e acertos, conseguiu encontrá-lo. Foi num período difícil e tenso da maior competição mundial de futebol, o famoso Campeonato Nacional. O Palmeiras disputava uma semana depois o título frente ao São Paulo. Apesar do período tão delicado que vivia nessa disputa de vida ou morte, Luxemburgo decidiu recebê-lo. Afinal, um velho e querido amigo como Xexéu não poderia ficar decepcionado.

O encontro se deu de forma emocionada à beira do gramado em um dos treinos no famoso Parque Antártica. Após o reencontro de praxe, abraços, saudações, perguntas a respeito de velhos amigos e parentes, Xexéu começou a explicar a Luxemburgo a razão daquele encontro tão esperado por ele. Esse foi o relato de Xexéu para mim descrevendo sua conversa com o treinador:

Luxe, eu encontrei uma coisa tão rara nessa vida que só poderia confiar, contar e mostrar a um amigo de grande intimidade como tu. Foi o seguinte, Luxe:

Eu andava pelas bandas de Carnaíba, interior de Pernambuco, quando soube de um cabra que tocava uns 40 instrumentos e que, segundo me disseram, tinha aprendido tudo em 6 meses e sem professor nenhum. Como tu sabe, Luxe, eu vivo atrás de gente desse tipo a vida toda. Quando conheci o cabra ele tava comendo um sarapatel com farinha num boteco de Quixaba, um povoado perto de Carnaíba. Depois de me apresentar, perguntei que instrumentos tocava e ele me disse: Safona, violão, guitarra, triângulo, pandeiro, zabumba, violino, viola de arco, violoncelo, contra-baixo acústico, tuba, bombardine, trompa, trombone de vara, trombone de picho, trompete, flauta doce, flauta transversa, flautim, clarinete, oboé, fagote, gaita de fole, sax alto, sax tenor, bandolim, viola caipira, viola da gamba, alaúde, piano,cravo, tamborim e reco-reco... e dou umas dedilhadas na harpa e no cavaquim. Aí eu disse: mas Elizão, você só citou 38, então ele respondeu: o resto é invenção do povo.

Quando lhe perguntei como aprendeu tantos instrumentos em tão pouco tempo, ele me respondeu que qualquer coisa que lhe explicassem como funciona ele aprenderia em apenas dois dias, e tava resolvido. Fui perguntar a mãe dele, dona Lika, se ele tinha sido um menino normal na infância.  Quando cheguei na sua casa a veinha de 87 anos tava em cima do telhado trocando uma telhas velhas e me respondeu que sim; só que o menino tinha nascido de 5 meses e que com três meses de nascido já estava andando se agarrando nas paredes. Nunca quis mamar e a primeira mamadeira foi uma espiga de milho verde que ele chupava e depois comia com sabugo e tudo.

Dois meses depois começou a falar e ir pra escola. O lanche dele era meio diferente dos meninos da rua dele. Só gostava de levar buchada e mocotó de porco na lancheira, depois de comer saia se lambendo todo. Na sexta-feira levava uma mão de vaca que dava um trabalho danado pra ela fazer.

Eu me assustei mais ainda quando ela me disse: a única coisa estranha mermo que eu achei em Elizãozim é que ele não começou a falar na nossa língua, mas começou por um ta de ingrês; 3 mês depois começou a falar um ta de francês e eu só vim entender o que ele falava em português quando já tinha um magote de povo de fora do Brasil conversando com ele noutras línguas lá em casa. Até o Padre Antonio quando recebia umas carta do Papa ou queria saber umas coisa de latim da missa, ia lá em casa atrás de Elizãozim pra ele ler e traduzir.

A essa altura da história, Luxemburgo já estava meio assustado e preocupado sem saber aonde Xexéu queria chegar ou talvez pensando que ele teria perdido o juízo de vez. Mas, aí veio o mais interessante:

Véio Luxe, eu descobri que se desse certo o que eu tava pensando, tinha chegado a hora deu ficar rico. Se aquele cabra aprende tudo que se ensina em dois dias, eu ia ensiná-lo a jogar futebol e ia torná-lo um gênio mais famoso que Pelé. Não deu outra, Luxe. Apesar de sua pequena altura e do tamanho desproporcional de seu pé, aos 17 anos media 1,39 de altura e calçava 54, e do bucho redondo feito uma melancia, e ainda por cima careca, eu tive esperança e tentei explicar a ele o que era futebol. Convidei o baixim pra ir num campo de futebol, que fica lá de lado da cadeia, e quando comecei a explicar ele me interrompeu e disse: diga logo onde quer chegar; quer colocar essa bola dentro daqueles três pau ali? Antes que eu terminasse de explicar, ele já me disse que poderia fazer isso independente de quantas pessoas tivessem na frente pra tomar a bola dele.

Conversa vai e nenhuma vem, pois ele não aceitava muita explicação de ninguém, levei Elizão pra um treino com o time de Tuparetama, onde eu conhecia Culé de Pau, um velho amigo que jogava no Guarani Futebol Clube de lá. Luxe, meu amigo, foi coisa de doido. Arranjei um camisa de um time juvenil, o Arco-iris Futebol Clube, porque a de adulto ficava grande pra ele, e fiz um buraco na frente pra poder caber a barriga de Elizão que tava cada dia maior, e mandei o peste pro campo. Todo mundo rindo e fazendo graça com Culé de Pau, zombando do “craque” que ele tinha apresentado ao time.

Pois bem, Luxe, começô o treino e Elizão pegou logo na bola e saiu correndo pela lateral com um pé fora e ou outro dentro do campo, pois tem as pernas abertas feito cancela de roçado, passou por Mané de Filó, dribô Serra-pau e numa velocidade que quase não dava pra vê-lo. Pronto, aí começou a brincadeira: meteu a bola no canto da barra de João Buga que ele não viu por onde ela passou, 1X0 pro time de Elizão. O time adversário nem sequer tirou o centro direito, Elizão partiu como um raio tomou a bola, correu pra outra lateral, fez a mesma coisa, meteu a bola por debaixo das pernas do nego Dão, deu um banho em Lulu Pantera, um nego safado do outro time, e tome 2X0. Com 10 minutos de jogo, tava 8XO pro time de Elizão.

A essa altura tava todo mundo doido, Luxe, e fizeram, uns três cabras, Luiz Neguim, Luiz Cocada e um baixim entroncado chamado Geni, uma falta nele. Aí o juiz, seu Toreba, mandou parar, mas aí foi uma confusão dos diacho. Elizão se levantou e disse ao juiz: ta pensando que eu sou veado? Se o caba bateu em mim, bateu, eu me levanto, pego a bola e vou fazer o gol, pode guardar seu apitim de merda que esses três fresco aí não vão me impedir de fazer gol não. Partiu pra dar umas porradas no juiz, mas depois de muito explicar as regras do jogo, Toreba conseguiu fazer que Elizão aceitasse que fosse batida a falta. Elizão mesmo foi cobrar.

Luxe, tu nunca visse uma coisa daquela, homi de Deus. O chute de Elizão foi tão forte, tão poderoso, que rompeu o travessão em 16 pedaços. Varou a rede, bateu no basculante de uma janela do hospital que ficava numa ladeira junto do campo, entrou de hospital a dento, quebrô as balança dos consultório e arrebentou três máquinas na lavanderia, deixando duas funcionária, uma dela eu me lembro que chama dona Carmélia, feridas com ronxa pelo corpo inteiro. O final do primeiro tempo tava 17X0 e 4 jogadores do time adversário tinham sido socorridos pro hospital por causa das boladas de Elizão. Um deles perdeu os 4 dentres da frente, tal a força do chute.

No intervalo, Elizão queria buchada ou sopa de mocotó de porco pra comer. Reclamando que não tinha essas coisas pra ele comer, chupou 79 laranjas e bebeu 17 águas mineral. Todo mundo rodeando o nanico, impressionados com a genialidade dele, foi quando ele irrompeu e disse: o que é que vocês tão olhando? Isso é o jogo mais besta e mais fácil que já inventaram, oxente. O treino acabou com um placar elástico a favor do time de Elizão, 39X0, todos os gols dele. No total foram 12 bolas gastas durante o treino, tudo furada pelos chutes de Elizão.

Depois do treino, levei ele lá em casa, falei um pouco de dieta que ele precisava fazer pra ganhar um corpo atlético, mas ele foi incisivo: minha comida é: cozido, buchada, bode e mão de vaca. A sobremesa é doce de leite ou então mel de engenho com cuscuz.
Por isso eu tô te procurando, amigo velho. Luxe, será que tu podes ir comigo lá falar com Elizão pra ver se ele ainda quer jogar futebol? Porque ele ficou achando que teria que mudar a dieta e ficou chateado. Luxemburgo, como me conhece muito bem e sabe que eu nunca fui homi de mentira, parou o treino na mesma hora e partiu comigo pra Quixaba pra conhecer Elizão. Pegamo um avião até Recife e de lá fomos num ônibus da Princesa do Agreste com um tal de Zé Galêgo dirigindo. Quando nós chegamos lá era mais de meia noite e fomos encontrar Elizão no mesmo boteco comendo tripa de porco assada com cachaça e contando aos colegas como era fácil jogar bola. Luxemburgo se apresentou e foi direto ao assunto: quero levar você, Elizão, pra jogar no Palmeiras na final de domingo contra o São Paulo. Elizão comendo e com a boca cheia de farinha, disse: eu vou, só pra mostrar prus besta de São Paulo que esse joguim é muito mais fácil que garrafão que nós joga aqui no sertão. De manhã pegamo o avião e chegamo em São Paulo. Elizão roncou a viagem inteira que até o piloto veio saber o que estava acontecendo, pensando que era defeito nas turbina do avião. Chegando em São Paulo fez dois treinos, jogou 10 minuto em cada um e fez 21 gols no total. Luxemburgo guardou a surpresa pra o dia da final e nem a imprensa teve conhecimento do assunto.

Chegou o dia da final e Luxemburgo deixou pra colocar Elizão nos 10 minuto final pra não causar vergonha ao time adversário, afinal em 10 minutos ele poderia fazer no mínimo uns 8 gols. Trinta e cinco minuto do segundo tempo, São Paulo ganhando de 2X0 e quase comemorando o título, Luxe disse: levanta Elizão, faz alongamento, aquece uns 2 minutos e entra. aquece bem. Faz uns 4 gols aí e acaba com a alegria desses bestas. Elizão levantou-se, se espreguiçou, porque nunca aceitou essa história de alongamento e aquecimento dizendo que não era coisa de homi e, numa frase só foi taxativo: seu Luxemburgo vou lhe dizer uma coisa, isso é jogo de boiola. Eu não vou ficar aqui frescando e correndo dum lado pra outro me aquecendo não; quem gosta de esquentar é chaleira. E tem mais, e eu não quero mais saber desse negócio de correr atrás de bola não, quem corre atrás de bola é guarda de trânsito. Vou pra casa comer pamonha, munguzá e cuscuz com leite que aqui só tem comida de fresco, tô com fome, vou é comer. Pegou a malinha que levava pra onde ia e foi embora do campo sem dar mais satisfação a ninguém. Luxemburgo com a mãos na cabeça, o banco todo em pânico, acabou a partida e lá se foi a história do craque desconhecido Elizão.

Ainda hoje meu amigo Luxe tem aquele título engasgado na garganta. Naquela hora terminava a história do maior jogador de futebol do Brasil, uma história que apesar de ser tão verdadeira tem gente que ainda não acredita, pode?.

djalma marques
Enviado por djalma marques em 17/01/2010
Reeditado em 13/04/2011
Código do texto: T2034670

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