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CAUSOS VERDADEIROS DO SERTÃO. CAPÍTULO 3: BOYOLA-JUREMA-BOYOLA O ENCONTRO DE ELISBÃO COM PAVAROTI

Este é o conto nº 1 que faz parte do livro \"CAUSOS VERDADEIROS DO SERTÃO\" de minha autoria.
Causo 3

                          Boyola – Jurema – Boyola
                   O encontro de Elisbão com Pavarotti
A viagem impressionante de Xexéu Bandeira a Londres, juntamente com Elisbão

 
Essa parte da história de Elisbão é contada diretamente por Xexéu Bandeira. Não pude conversar diretamente com ele, mas tive acesso a seus escritos, guardados na diocese de Afogados da Ingazeira, os quais transcrevo aqui com a certeza de que se trata da mais sincera descrição feita com respeito ao lado cultural desse personagem tão querido, Elisbão.

Todo homem tem seus pontos fracos. Depois que Elisbão me contou que seu irmão, o maior craque da história do futebol – Elizão – foi contratado por nada menos que o Manchester United da Inglaterra, eu lhe disse que precisaria ir com ele em Londres para poder confirmar e reforçar a belíssima história do seu irmão. Elisbão foi vencido pelo orgulho e aceitou viajar DE AVIÃO comigo até Londres. Alugamos um carro em Quixaba e chegamos em Recife para pegar um vôo que nos levaria até Londres. Para isso, despachamos na bagagem 68 Kg de carne sol de tatu, uma invenção rara de Elisbão naqueles dias para poder preparar o seu prato único para viagens longas. Sua dieta de tatu ele comia uma vez ao dia, já que a quantidade que ingeria era tanta que ele jamais suportaria comer mais de uma vez diariamente. As fruta-palma conseguimos, depois de muita negociação com ele, mandar fazer 94 quilos de polpa congelada. A farinha, 3 sacas grandes de 30 kg cada, foi paga como excesso de bagagem, não teve outro remédio.
A viagem

A viagem foi surpreendentemente tranqüila, exceto pelo fato de um dos comissários aparentar realmente ser meio, digamos, feminino, o que resultou em quase sua morte, uma vez que Elisbão montou um fuzuê quando começou o serviço de bordo e o rapaz veio servi-lo, que queria, por fina força, que o piloto jogasse o rapaz aos ares em pleno vôo. Ele assim que viu o rapaz andando em direção a ele, se levantou e gritou: Quem pode mais do que Deus? Ele fez essa pergunta porque no sertão de Pernambuco tem um costume que quando alguém “vê um vulto”, ou seja, algo que a pessoa pensa que é do outro mundo, uma assombração, faz essa pergunta. Se o “vulto” responder: “ninguém” é porque se trata de gente aqui da terra mesmo, se ficar calado é porque deve ser alguma “visagem”. Como Elisbão viu que o rapaz não respondeu e que se tratava de gente desse mundo mesmo, porque, segundo ele, no outro mundo não tem gente “dessa espécie”, então saiu aos berros dizendo: eu to chêi de caba sem-vergonha na minha frente, tire esse infeliz daqui de perto. O rapaz delicadamente deu uma volta – tipo rabissaca, pouco convencional para os padrões de Elisbão -, aí ele explodiu de vez: “abra a porta dessa lata véa e joga essa peste lá em baixo”.
Mas aí, tiraram o comissário daquele serviço de bordo até chegar em Londres e, para acalma-lo, dissemos a Elisbão que o piloto jogou o rapaz pela janela, foi só isso que o deixou tranquilo. Como Elisbão tinha levado bastante farofa de tatu, em determinada hora tirou o caldeirão que estava dentro de um bizaco e comeu até se fartar. Depois disso, tomou uns dois litros de suco de fruta-palma e agarrou no sono, roncando como um trovão, e só acordou mesmo em Londres. Foi um alivio, eu pensei que o avião ir cair quando começou a confusão com o rapazinho.

A chegada em Londres

Em Londres fomos recebidos pelo presidente do Manchester e nos levaram diretamente para um hotel no Beach Park e daí para um teatro, pois essa cortesia faz parte do cerimonial de recepção de pessoas importantes para o clube. A primeira coisa que Elisbão falou ao ver o lindo park foi: hen hem, meus bichins aqui ficariam tão contentes, se referindo aos seus tatus. Às 19:37, o horário exato marcado pelo presidente para nos pegar, chegou a limusine que nos levaria ao teatro. Iríamos assistir a um concerto de uma soprano e de um artista convidado.

O Concerto ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪
Parte I
Elisbão se mantinha estático nas cadeiras de honra do teatro juntamente comigo e os diretores do Manchester. A famosa soprano começou a cantar e no primeiro agudo que deu, Elisbão segurou as mãos na cadeira e quase de pé falou em tom forte: vai morrer. Quando a cantora cantava em tom mais grave ele se acalmava, mas quando de repente ela dava um agudo ele novamente segurando forte nos braços da cadeira falava: vai morrer. Eu pedia pra Elisbão se acalmar e ele me dizia: se não trouxer um cibalena pra essa mulher ela vai morrer. Foi uma agonia da peste até terminar aquela primeira parte e Elisbão me dizendo: tenha pena da coitada se não ela morre.
Eu fiquei curioso com a estória de que a cantora iria morrer e perguntei a Elisbão porque ele falava isso. Então me explicou: Toinha minha mulé sentia a mesma coisa e gritou 28 vezes do jeito que essa cantora gritou e se não fosse os cibalena que eu dava pra ela teria morrido. Perguntei por que 28 vezes, e ele me disse: “Toinha minha mulé deu 28 gritos porque foram 28 meninas que ela teve nos 14 partos. Essa cantora tava parindo, os gritos eram do mesmo jeito, se você não for lá acudir ela vai morrer, vai mesmo”. Fiz de conta que ele tinha razão e disse que já estavam cuidando dela.
No intervalo, no meio de toda aquela sofisticação da sociedade londrina tomando chá na cantina (procurar nome chik) do teatro, Elisbão tirou a marmita, me pediu uma colher e começou a comer sua farofa de tatu que o cheiro chamava a atenção de todos ali presentes. Aquela figura pequenina, cabeçuda, com barba, e barriga grande me fazia lembrar alguém que, entretanto, eu não sabia quem era. Todos o olhavam e cochichavam entre si, mas eu não sabia de que se tratava, até o ocorrido no final do concerto.

Parte II
Na segunda parte a grande surpresa: entra no palco nada mais nada menos que Pavarotti. Assim que Elisbão viu todas as pessoas de pé aplaudindo e Pavarotti entrando todo de preto com aquele colarinho branco, perguntou: é o padre? Expliquei quem era e ele sentou pra assistir. Foi uma linda cena, Pavarotti cantando e quando, de repente, deu aquele agudo, aí Elisbão quase se levanta da cadeira. Parecia emocionadíssimo, a ponto do presidente do Manchester me dizer: ele parece que é fã de Pavarotti. A cada agudo do cantor, Elisbão quase fica em pé na cadeira, até que, finalmente, não se controlou e no final de uma música saiu correndo e dizendo: vou falar com o padre. Tentamos impedi-lo, foi inútil, ele corria como um louco em direção a Pavarotti. Na subida do Palco os seguranças não conseguiram conte-lo e aí veio a cena mais linda: Pavarotti abre um sorriso em direção a Elisbão, o público todo aplaude de pé e foi aí que caiu minha ficha: Elisbão parecia de fato uma miniatura de Pavarotti reduzida a mais ou menos um quarto do tamanho.
Vestido com uma calça jeans, camisa quadriculada colorida e uma bota de couro, o pensamento de todos no teatro foi um só: alguma fábrica tinha feito aquele boneco movido a cordas ou mesmo se tratava de um robô que a fábrica teria feito para prestar aquela homenagem a Pavarotti. Nesse instante Elisbão levanta um braço e aí foi que entendi a razão de sua ida ao palco, ele gritou: eu também quero dar um aboio, igual ao padre! Seu Xexéu, gritou mais alto olhando para mim, um caba desse dando esse aboio que ele dá lá na Jurema de Quixaba não tem boi que não fique quieto no curral; vamo levar esse caba pra Jurema, seu Xexéu. Nisso, Pavarotti emocionado começa a compor uma música dando um grande agudo dizendo Jurema, ♪ ♫ ♪  Jurema ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪. O público em peso no teatro começa a cantar Jurema, ♪ ♫ ♪  Jurema ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪. Foi uma comoção total.
Nesse instante, Pavarotti ao som de Jurema, ♪ ♫ ♪  Jurema ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪., fica de joelho e abre os abraços para receber o afetuoso abraço de Elisbão. Todos, incluindo o pessoal do Manchester, estavam crentes que se tratava na verdade de um boneco ou um robô, miniatura de Pavarotti, tal era a aparência dele. Elisbão corre em direção a Pavarotti e os dois se abraçam, foi emocionante. Mas aí, de repente, Pavarotti encosta a barba em Elisbão pra lhe dar um beijo na face, como fazia de costume com seus companheiros e, então, as coisas mudaram de figura. Elisbão deu um pinote pra trás e gritou: tu também, padre, és um boiola, desgraçado?  O mundo todo é boiola, só falta o senhor, seu Xexéu, dizer que é fresco. É tudo boiola, é tudo boiola.
Nessa altura tudo piorou quando Pavatoritti se levantou e terminou de compor sua música ♪ ♫ ♪, Boyola, ♪ ♫ ♪  Jurema ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪.  Boyola ♪ ♫ ♪ ♪ ♫. O público entra quase em transe cantando conjuntamente o Boiola-Jurema de Pavaroti.

O ataque de Elisbão
Elisbão sem entender nada e talvez pensando que o estavam chamando de Boiola, desceu como um louco do palco e começou a arrancar o tapete vermelho do teatro, as cortinas, e gritando: Boiola é a puta que o pariu! A partir desse instante perdeu o controle mesmo e começou a morder os joelhos das senhoras que estavam nas filas da frente, arrancando os óculos de outras, as bolsas, chutando e arrancando as cadeiras e causando uma grande confusão. O teatro em peso cantava o Boiola-Jurema e, quanto mais cantavam, mais ele enlouquecia. O povo, porém, pensava que tinha havido um problema, ou de  falta de corda no boneco ou algum curto-circuito na “máquina”. Elisbão caiu quase teso no chão de tanta raiva, os seguranças entenderam que seria isso mesmo, que tinha havido um problema mecânico com ele. O agarraram, um nos braços e outro nas pernas, e o levaram para o carro. Elisbão parecia está com algum tipo de ataque epiléptico, porque os seguranças também cantavam o Boyola-Jurema enquanto o levavam. Elisbão teve que ser dopado e trazido de volta pra Quixaba em um avião particular do Manchester e eu nunca pude comprovar de fato a atuação do grande craque Elizão naquele clube.

A conclusão
Uma coisa eu, Xexéu Bandeira, posso afirmar: a obra-prima tão conhecida de Pavarotti Boyola-Jurema, teve essa origem quando da minha visita a Londres junto com Elisbão. Ainda hoje na Europa, quando apresentam obras de Pavarotti, a platéia grita em massa pedindo ♫ ♪, Boiola, ♪ ♫ ♪  Jurema ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪.  Boyola ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪ e, por isso, é que Boioyoa-Jurema-Boyola é a obra de Pavarotti mais cantada e gravada em todo o mundo.

djalma marques
Enviado por djalma marques em 17/01/2010
Reeditado em 17/01/2010
Código do texto: T2034681

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