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CÃES E GATOS

Pedro defendia a castração de cães e gatos. Incomodava-o número crescente desses animais indefesos e ferozes na sua cidade. Observava seus movimentos do ônibus, os grunhidos, latidos e urros nas ruas, revirando lixo, destelhando sua casa. Sobretudo odiava a natureza dos pobres bichos que incapazes de consciência do fato digladiavam-se em leis que não inventaram estando-as ali presas a sua carne feito pelo no corpo e unhas afiadas. Guardava um silêncio mortal quando encontrava algum abandonado. No mistério da noite escura um fatídico arranhar insistia na sua porta, estridentes garras feriam a pintura em uivos indistinguíveis. Determinado pela providência enchera um balde com água fria para tornar exemplo o infortunado e suas testemunhas que a gruta era inóspita as súplicas. Ficara sem ação quando o bichano se esfregou nas suas panturrilhas, esquecera-se do calor de um abraço sob o jugo do cotidiano, esqueceu-se da juventude ardente e dos bailes nos finais de semana na baixada, dos amigos que abandonou entremeio pilhas de páginas rasgadas e memórias vazias da alcova frívola, o hábito dissociou-o do que foi outrora e automaticamente programou seus sentidos com o trabalho no escritório de advocacia.

Acolheu o felino sem dar nome, tinha medo que o apego ao rótulo das coisas, dos seres e rostos engendrasse no seu coração cheio de caricaturas borradas o sofrimento ao contemplá-las se apagando na ausência de ir embora. Deu-lhe leite e um espaço num caixote com velhas cartas. O destinatário extinguiu-se no borrão e pó de traça, cuidava das letras que olvidavam dos óculos de leitura, esforçava-se em compreendê-las antes de juntá-las no hall dos sonhos desbaratados. Na manhã seguinte foi acordado com miados contentes propriamente dignos aos amigos de longas datas. Faltou ao trabalho para leva-lo na castração. A satisfação de ter menos um reprodutor no mundo cão remia-lhe de felicidade perversa, na volta adotara mais três gatos e um cão. A consciência efervescendo de vultoso prazer deliberado nos dias que sobrevieram a carta de demissão e seus direitos pagos na hora sustentaram seu vício durante oito longos meses dos quais entupira cada canto da sala, quarto, quarto de hospedes, cozinha, lavanderia, espaço recreativo, tábuas soltas no forro, tampa da privada, pia, parte superior da geladeira, debaixo da mesa, armário de louça, na despensa, nas roupas, nos sapatos e por fim uns já nem entravam, contentavam-se com a calçada e o meio fio.
Seu maior orgulho construído no castelo de toxoplasmose, leishmaniose e pulgas. A tuberculose viera antes das feridas purulentas cheia de carrapatos. Sorria aos felinos pois não via ratos, tagarelava aos cães sobre o inimigo acuado ante o ladrido estridente, nada perturbava a paz insólita que encontrara. Afinal quem viria? Desligado dos laços humanos e imantado da presença secular das raças que acompanharam seus descendentes na história não obstante contínuas ameaças propiciavam-lhe aparte extraordinário diante implacável exílio, desbravando o que sobrou do mundo sentia-se vivo e vitorioso, continuamente em contenda com a falta de água potável, escassez de comida e ambiente salubre, inspirado nos antepassadas uivava as estrelas pendurado nas telhas, fugia e enganava uma solidão que não sentia. Sua ilusão acabara quando os vizinhos acionaram o controle de zoonoses. Reunindo as forças restantes vendeu-lhes caro a desgraça. Um circo foi montado e o palco deu lugar ao mais estranho julgamento presenciado no pequeno município, vestiu-se de gente em sua única aparição pública registrada. Desejando manter seus 138 gatos e cães escreveu seu nome nos anais da justiça como os antigos a sangue nas rochas. Viu a fúria da juíza de paz feita ursa na margem do rio, leoa escondida na selva, serpente preste ao bote. A sentença foi internação compulsória afim de tratamento de saúde e psiquiátrico junto de acolhimento para adoção dos seus queridos animais castrados.
Retornou ao lar urrando calado no peito a ferida aberta, espalhou no chão a comida dos cães e gatos deitando em cima, untando-se do néctar da última refeição dos seus iguais tomou um coquetel com todos os remédios que achara. Encontraram o corpo parcialmente devorado e os animais descansavam serenos ao seu lado.
Diego Duarte
Enviado por Diego Duarte em 21/09/2016
Código do texto: T5768050
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Sobre o autor
Diego Duarte
Ananindeua - Pará - Brasil
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