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Seu Abóbora - O “Curpinho”
 
Seu Abóbora, garoto levado, tinha, aproximadamente, onze anos, quando morava nos arredores da metrópole Soteropolitana; lugar apropriado para crianças viverem de forma lúdica e à vontade. Portão, nome sugestivo: entrada para um mundo de felicidade.  O Portão fora o principal local onde o povo de todas as comunidades dos arredores fazia suas compras e se abastecia de suprimentos. E é nesse local que o garoto iria tomar parte de um trágico acidente que ocorreria durante uma festa de São João.  
Na época de festejos juninos, o lugarejo mergulhava em um verdadeiro burburinho festivo. Tanto durante o dia, quanto à noite. Mas chegada a noite, chegava o momento em que todos os moradores do pequeno povoado se rendiam aos folguedos maravilhosos porque passavam na época das fogueiras, dos fogos de artifícios, das canjicas, do milho e batata assados, de outras iguarias dos costumes locais e das quermesses.
Mas, na chega da noite, tudo ficava mais bonito. Os garotos, todos vestidos de trabalhadores da roça – meninos gostam muito de parecerem homens feitos, soltavam balões, soltavam fogos, entre estes, bombas e traques – traques são bombas menores apropriadas para os pequenos, pois o risco de estourar nas mãos e queimar é mínimo; quase não acontece.
As indumentárias dos meninos eram confeccionadas pelas próprias mães: chapéu de palha, lenço no pescoço - nem todos usavam; seu Abóbora mesmo detestava. Mas o que deixava a garotada mais feliz eram os fogos, principalmente as cobrinhas e foguetinhos. Esses dois propiciavam a alegria maior dos danadinhos, que ateavam fogo, literalmente, nos festejos. A cobrinha era comprada em caixinhas parecidas com a caixa de fósforos. A identidade entre as duas caixas se fazia porque em ambas havia uma lixa onde se permitia acender os artefatos incendiários e lúdicos, raspando suas cabeças na tal lixa, proporcionando que a beleza tomasse forma nas mãos dos pimpolhos. Ao ralar a cobrinha na lixa, a cobrinha acendia e saia das mãos de quem a sustentava. E tinha que soltar imediatamente ao pegar fogo, pois, senão, queimava. Sua queimadura era feia, mas o risco valia à pena, porque a beleza era total. Pareciam estrelas flutuando. Era um encanto.
E foi a cobrinha, produto que trouxe Seu Abóbora à baila nesta reflexão infantilizada, que permitiu o incidente ocorrido em um belo dia de São João. Um acontecimento que deixou uma família desesperada pelo ocorrido com um membro de sua casta.
Estavam todos brincando sobre um banco de cimento, soltando fogos, em frente de uma igreja, ao lado da casa do Senhor, a quem os serviçais obedeciam cegamente, quando, de repente, as cobrinhas começaram a voar por toda a parte e em todas as direções. O quiosque, onde vendiam os fogos estava pinhado de gente a servir os mais afoitos. E assim ia-se a festa, noite adentro, com as cobrinhas, as bombas, os balõezinhos, os traques, os foguetinhos e as comidas diversas. Havia o licor que só os mais velhos podiam beber. Enfim, a festa junina que fora prometida por todos que moravam naquele local, estava saindo da melhor forma possível. Parecia despedida de alguém ou de alguma coisa. Mas o povo não estava nem aí pra nada; queriam se divertir, brincar uma brincadeira sadia: a alegria pertencia a todos, pois estavam na maior festa do centro leste – o Bahia não pertencia ao Nordeste; nem sonhava - de todos os tempos.
Uma jovem, cujo nome era Jovelina, afilhada da Senhora que comandava a festa, esposa do Senhor, dono de todas as terras onde os servos festejavam o período junino, de repente soltou um grito, um urro. Deu um salto batendo-se toda e querendo arrancar a roupa, o sutiã... Ela queria ficar nua, pois não suportava tanta dor. Acontece que ninguém havia percebido nada; e ela também não tinha voz para apontar a causa de tudo aquilo. O povo, em polvorosa, tentando ajudá-la e nada. Uma pessoa que viu a trajetória de uma cobrinha, no instante em que a jovem berrou, desconfiou e, aproximando-se, arrancou-lhe o corpinho, sem nenhum pudor, para chegar à queimadura em pleno peito, quase beirando o bico sensível e lindo, aureolado por uma camada mais morena. Os rijos peitos davam inveja àquelas velhas pudicas que ali, horrorizadas, se faziam de cega e ordenavam: leva para dentro, leva para dentro! Uma tragédia que perduraria por longos tempos até secar o ferimento causado por queimadura da cobrinha louca para queimar alguém que se mostrasse bela de corpo e alma.
A moiçola, envergonhada, sofreu por um tempo, mas, depois, livrara-se de tanto pudor e até chegaram a ver, algumas vezes, que ela andava sem o “curpinho” que tanto lhe apertava os seios. Ficara mais à vontade. E o Seu Abóbora que presenciara tudo – ele estava bem perto e não perdera nada do que em volta se passava. Ele estava esfuziante, afinal, um peito durinho, macio, moreninho enlouquecera-o. Ele, que era amigo, embora bem mais novo que a jovem queimada, ficara mais próximo, esperando que ela baixasse a fim de que pudesse ver mais algumas vezes aquele lindo biquinho moreno; ela não ligava, pois ele era uma criança e não a perturbaria. Mas o menino, tinhoso, nunca mais esqueceria aquela cena em que fora subtraída a peça mais linda do corpo da jovem Jovelina: O “curpinho”!
 
 
                                                          
Magnus Lázaro
Enviado por Magnus Lázaro em 15/11/2017
Código do texto: T6172983
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Sobre o autor
Magnus Lázaro
Salvador - Bahia - Brasil
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