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O despertador

Numa casa de solidão, à noite, deitado na cama, olho para o despertador. O tempo não para. Os ponteiros do relógio, como têm tanta energia, trabalham de noite e de dia, de noite e de dia, sem se cansar. Estou deitado em minha cama, pensativo. A noite, lá fora está muito fria, um cachorro late sem parar, deve ser de uma casa vizinha. Mas esses ponteiros, realmente não se cansam de nos mostrar as horas. Essa cama que eu deito já está muito velha, foi comprada há uns 50 anos, quando tinha acabado de me casar. Penso que sou dono do meu destino, dono do meu corpo, apesar de estar deitado nessa velha cama. Que horas são? São 9 horas da noite, o sono não vem, os ponteiros não param... O que posso fazer nessa cama, sozinho, a noite está muito fria. Meus cobertores já nem esquentam como antigamente. Ora, desculpe, meu caro leitor a deselegância, não me apresentei. Mas quem importa saber quem sou? Estou perdido em meus pensamentos. Que horas são? São 21:30. O tempo passa tão depressa. Mas como eu ia dizendo, quem se importa quem eu sou, de onde vim e para onde vou? Para onde eu vou é a única certeza, saindo dessa cama, só me resta a morte. Estou muito velho, não tenho amigos, parentes, somente minha cama velha nesse quarto solitário. O único companheiro é esse despertador que me mostra as horas quando eu necessito, quando eu quero saber as horas. Sem reclamar, ele trabalha dia e noite, dia e noite.
Meu nobre leitor, se estás tão curioso de saber quem sou, posso te contar algumas aventuras, passagens, talvez me esqueça de alguns detalhes, talvez pule alguns acontecimentos, mas quem se importa? Nesse quarto solitário, o único que me acusaria de algo seria meu despertador.  Quando estou no mais profundo sono, esse maldito despertador me acorda, mas vou me importar? Viro para o lado e posso continuar a dormir. Que horas são? São 22:20 e o sono não vem. Já reparou meu caro leitor, como o relógio trabalha? Três ponteiros trabalham incansavelmente para nos mostrar as horas, para nos mostrar se estamos adiantados ou atrasados. Essa minha memória é terrível, o que eu ia dizendo? Ah ia contar minha história...
Aqui está tão frio, quer um pouco de chá, leitor? Não? Por quê? Estás com receio de provar o meu chá? Eu no seu lugar teria também, como pode confiar num velho que tem apenas o despertador como companheiro. Não sei como ele ainda trabalha, há anos mostra o horário pra mim. E sabe de uma coisa? Nunca reclamou. Talvez por isso que nos damos bem. Às vezes o despertador me irrita, me acorda nas horas que não quero acordar, mas bato nele e volta a ficar em silêncio, somente mostrando as horas.
Sou uma pessoa afável, gosto de pensar nas minhas histórias, sabe? Às vezes quando tem caneta e papel ao meu lado arrisco a escrever, mas não tenho paciência, as ideias vão sumindo, as letras ficam me encarando. As letras não saem de lá sozinhas, tenho que amassar o papel e reescrever tudo. Muito trabalho! Não é igual ao despertador que com um simples tapa fica em silêncio. As letras não ficam em silêncio, juntas querem nos informar algo. Pode ser que eu não goste do que elas querem me informar, por isso não tenho paciência com as letras. As letras são perigosas. Portanto já não me arrisco na aventura no mundo da literatura. Somente no mundo do meu pensamento. Esse, leitor, eu posso apagar, viajar, informar o que eu quiser, não é mesmo? Muito mais fácil para manusear.
Não quero tomar-lhe muito tempo, meu amigo, afinal ficou me ouvindo demais. Que horas são? Meia noite já. Não quer mesmo um chá antes de ir embora? Tudo bem, eu entendo. Ficarei com meus outros pensamentos, antes que o despertador volte a tocar na hora indesejada.


RenatoGarcia
Enviado por RenatoGarcia em 11/07/2018
Código do texto: T6387182
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Sobre o autor
RenatoGarcia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
28 textos (404 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/11/18 08:35)