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Será que é sem interesse mesmo?

                       Será que é sem interesse mesmo?
                                Jajá de Guaraciaba

          Alguns dias antes da última eleição, quando eu vinha lá da Fazenda Bandeirantes do meu amigo João Carlos Saad, filho do saudoso João Jorge Saad, deparei-me com um velhinho mais ou menos da minha idade andando na beira da estrada vicinal, cujo ancião carregava um guarda-chuva e um sacola cheia dalguma coisa que não interessa sabermos o que era. Faltavam ainda uns oito quilômetros para chegarmos à cidade de Pilar do Sul. Parei o carro e perguntei:
          — Pra onde o senhor vai?
          Meio ressabiado, respondeu-me com palavras e trejeitos típicos sertanejos:
          — Vou pra Pilar! Por quê?
          — E o senhor vai a pé até lá?
          — Vou! Por acaso aqui passa ônibus?! Respondeu-me secamente.
          Desci do carro sem hesitar, abri a porta do passageiro, peguei os objetos dele, coloquei no banco detrás e lhe disse com firmeza:
          — Vou levar o senhor até lá!
No começo do trajeto ele permaneceu calado, apenas me olhava com desconfiança e curiosidade. Depois de alguns quilômetros, perguntou-me:
          — O senhor é o Barrinha?
          — Não! Não sou o Barrinha! Mas eu conheço ele. Além de ser candidato a vice-prefeito é o dono da farmácia lá do Campo Grande, não é?
          — O senhor é candidato a vereador? — Insistiu.
          — Não! Não sou. Respondi-lhe resolutamente.
          — Ué, então por que o senhor está me dando carona?
          Como fui pego de surpresa não soube como responder com precisão, disse-lhe somente que o carro não era meu.
          — Se o carro não é seu, então de quem é? — Redarguiu o velhinho, franzino a testa.
          — Este carro é nosso e de quem usar. — Respondi-lhe ainda sem atinar sobre o rumo daquela conversa descabida, e continuei:  Foi Deus que me emprestou, pois quando eu morrer não vou levá-lo para o cemitério. O caixão, no qual irão levar-me, não terá gaveta suficientemente grande pra caber um carro, portanto, outras pessoas o usarão quando eu for dessa pra pior, porque melhor do que essa vida garanto que não há outra.
          Depois disso ficamos calados enquanto o “kadettinho” transitava numa contínua velocidade de 80km/h. Aquela interrupção dialogal levou-me a imaginar que o homem não crê que ainda há pessoas que agem desinteressadamente, e para confirmar aquele pensamento o ancião quebrou o silêncio:
          — Óia, ali pertim donde o senhor me pegou tem um pequeno sítio onde eu tomo conta. A casinha tem as janelas azuis. Lá tem mandioca, mexerica, laranja e até uns franguinhos. Quando o senhor vortá lá praquelas bandas passa lá que eu vou encher o carro do senhor, pois o senhor é muito bão.
          Eu não respondi nada. Apenas fiquei pensando na minha saudosa mamãe que me dizia constantemente: “Jajá, sempre devemos fazer o bem sem olhar a quem!”.
          Continuamos em silêncio até a rodoviária, pois ele ia a Sorocaba. Quando ele desceu ainda me perguntou quanto era a corrida. Quanta simplicidade! Até hoje só sei a cor das janelas...
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 07/10/2019
Código do texto: T6763549
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
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Jajá de Guaraciaba