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AMERICAN DREAM

Largou a vassoura e o avental sobre o balcão. Chutou o balde.
Caminhava pela orla e aquele pensamento martelava sua cabeça qual enxaqueca sem remédio.
Pessoas iam e vinham, ciclistas e turistas curtindo aquele sol tropical de um domingo carioca.
Mudou de trajeto.  Vida besta! Cuspiu.
Atravessou a avenida em direção à praça da feira. Horário da xepa.
- Ei xará! Eduardo! Oi!
Voltou-se e viu Honório acenando. Ele trazia pela guia um cachorro feio e orelhudo.
- É manso, pode crê véio.
- Desde quando tu leva cachorro pra passear? Perguntou.
- É o meu trampo. Poxa, e tu cara voltou quando? Desistiu do sonho americano?
- Sonho que nada, pesadelo. Juntei uma graninha que mandei pro padrasto gastar na doença da minha meia irmã. Tu lembra da Ritinha, do câncer...
- Mas ela morreu né?
- Morreu.
- E como vão as coisas?
- As coisas não vão. Elas ficam...
- E você agora tá fazendo o quê? Por que voltou?
- Voltei por causa do visto, terminou o tempo e eu não quis ficar mais. Encheu.
- Mas tu tava tão animado quando foi pra lá, cara.
- Acreditei no sonho né? Precisava de grana. Aqui a coisa tava esquisita...
- Pode crê. Tá mais esquisita ainda...
- Pois é. Mas vou ficando. Onde tem oferta de emprego eu compareço. Filas, senhas, entrevistas... Topo qualquer parada.
- Qualquer não meu irmão! Não faz teu tipo.
- Qualquer não. Tá certo. Tô fora de parada indigesta.
- E tu fazia o quê por lá?
- Fiz de tudo: motorista, lavador de vidros, carregador de mala, porteiro, chapeiro... Mas o frio me arrebentava. Odeio frio. Tu sabe. Pessoas frias também. É tudo muito diferente do que se vê nos filmes que mandam pra cá.
- E o inglês? Tá dominado? Fluente?
- Que nada! Mal falo e entendo o que falam. Não sei escrever, nadinha de gramática. Convivi com muitos latinos. A língua mãe era o portunhol. Aqui meu inglês não serve nem pra manobrista de hotel...
O cachorro feio e orelhudo já dava mostras de enfado. Honório tirou um petisco do bolso, ofereceu e o bicho se aquietou. Ofereceu um cigarro a Eduardo que recusou.
- Largou o cigarro? Trocou pela erva? Piscou Honório sarcástico.
- Queimar grana? Além de ser proibido fumar até em praças, sabia? Respondeu Eduardo, chutando uma binga largada na calçada.
- Aqui proibiram jogar lixo na rua. Dá multa. Pessoal nem liga pra leis. Tem passeata pra Meio ambiente, aquecimento global, queimada na Amazônia, mas a lixarada tá espalhada na terra e no mar. Viu a praia depois do Ano Novo? Toneladas de lixo...
- Por lá tem muito lixo também, muita pobreza, sem tetos... Exportam ilusão. E você, além de empreender cuidar de cachorro? Pergunta Eduardo.
- Eu tô me preparando pro ENEM, fazendo um cursinho on-line. Vou aproveitar as cotas para os pretos. Acho que vou me dar bem. Sou bom em Exatas, tenho que me dedicar mais ao Português. Tenho lido as redações mais pontuadas. Cada tema mano!
- Talvez eu tente o ENEM algum dia, depois de me firmar num emprego. Fiz entrevista para uma firma de limpeza que presta serviços para uma Corretora.
- Imóveis?
- Corretora de Valores. Sempre fui ligado nesses assuntos de Mercado. Vou ficar próximo à roda. Ver como funciona... Tenho uma selfie que fiz na Wall Street.
- Tu tá sabendo que a política aqui tá voltada pro Mercado? O Todo Poderoso...
- É quem governa de fato... Eduardo coça a cabeça.
- Pois é. E os pobres estão fora do Mercado. Não sabem poupar. São esbanjadores. Gastam e não investem. Não pensam no futuro, só no aqui e agora: futebol, cerveja e carnaval...
- O americano também não poupa. A dívida do cartão de crédito supera a poupança...
- Os chineses investem lá...
- ‘Revenge’. Imigrantes penaram nas mãos do gringo no passado.
- Pois eu Quis me matricular no workshop ‘Ensinando pobre a poupar’, do Paulo Guedes, mas faltou grana. Disse Honório com tristeza.
- Desanima não. Outros virão... Diz Eduardo consolando o amigo.
 - Assim espero, responde Honório puxando o cachorro feio e orelhudo para continuar o passeio.
- Qual o nome da fera? Pergunta Eduardo.
Honório atravessa a avenida e responde já do outro lado:
- Baby Yoda. É um Bloodhound legítimo.
- Bye Baby...

THE END
daguinaga
Enviado por daguinaga em 14/02/2020
Código do texto: T6866139
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
daguinaga
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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