Conselho de Heródoto.

Heródoto entrou no ateliê de Adônis e viu de tudo um pouco. Andando devagar, mãos cruzadas nas costas, olhando para todas aquelas criações de Adônis. Uma diversidade de artes. O velho chegou perto do rapaz que amolava uma ferramenta e disse:

-- Adônis, meu jovem, vejo que és um rapaz de muitos dons, mas estás dando muitos braços à tua mente. Compreendes?

-- Não, senhor. Sinceramente não entendo. O que queres dizer?

Heródoto avistando um balde com areia, foi até ele é encheu a sua mão.

-- Veja, filho. O que tenho aqui?

--Tens areia, senhor.

--Mas podes me dizer exatamente de que ela é composta? Ou se não tem impurezas nela? Ou ainda de quantas matérias ela foi formada?

-- Não, senhor. Realmente não sei. Sei apenas que são de muitos minerais.

--Certo. Diga-me, Adônis, você já viu alguém pegar um punhado de areia e dizer " suponho que aqui esteja um punhado de feldspato, posso sentir o zircão e a ilmenita, senti também a presença de magnetita, além de mica e cassiterita, tenho certeza de que se eu observar mais um pouco encontro outros minerais também?

Adônis quis rir um pouco, mas se conteve, limitando-se apenas a responder a pergunta:

-- Não, senhor Heródoto, de fato, não. Quando alguém vê areia, no máximo analisa se serve para o que pretende fazer.

Enquanto Adônis falava, o velho já havia observado o medalhão que Adônis usava.

-- O que é esse medalhão que usas, Adônis? -- perguntou.

-- Ah! Esse é o medalhão que era do meu pai.-- respondeu ele, meio emocionado.

--Mas, de que ele é feito?

-- Ah, senhor, é feito de ouro puro!

-- E qual matéria tem mais valor? O ouro puro ou a areia com tantas partes?

-- Certamente, o ouro tem mais valor. -- Disse Adônis, bem convicto.

Heródoto se adiantou na prosa e falou:

-- Assim também você pode ser, meu jovem. Sua arte tem muitas misturas, é fácil de escapar entre os dedos, drena muita energia e as pessoas não dão valor na proporção do desgate, nem do amor embutido nelas.

Adônis ouvia atentamente.

-- Veja o ouro, meu filho. O ouro puro é objeto de desejo. Sem misturas. Ouve, pois, o conselho deste velho.

-- Sim, senhor. Pode falar. -- respondeu o jovem.

-- Meu conselho é: segue uma linha. Concentre seus esforços em uma só ideia que valha a pena. Segue uma linha com tanta determinação que quando pensarem nessa linha, pensarão no teu nome. Empenha-te a fazer do teu nome um sinônimo para essa linha. Assim, quando procurarem por essa ideia, procurarão o seu nome como meio mais confiável para encontrarem o que buscam.

Heródoto, encerrou a conversa e saiu tão mansamente quanto entrou no ateliê, deixando Adônis ali, pensando.

Adônis pensou, pensou. Observou a vila onde morava, as senhoras indo e vindo.

Depois de alguns meses em todas as casas da vila havia uma corda de sisal, muito bem trançada, fina, apropriada pra estender roupas. As mulheres não punham mais as roupas sobre pedras para secarem, ou nas cercas de arame, onde rasgavam às vezes ou manchavam de ferrugem. Em todas as casas havia a linha de Adônis, como ficou conhecida.

Adônis não deixou de fazer o que gostava, mas deixava isso para as horas vagas.