TICO-TICO

Era um moleque de rua, daqueles de pé no chão e caixinha de engraxate nos ombros.

Não tinha nem nome direito. Toda gente o chamava de Tico-Tico, pois o atrevidinho imitava o pássaro como ninguém, assoviando enquanto batia a escova na caixa de madeira, presente de um carpinteiro, que trabalhava em uma obra da Rua do Sossego.

Tico-Tico era uma figura! Acordava cedinho e já ia para a estação de trem, levantar uns cobres, ora vendendo amendoim torradinho, ora engraxando sapatos, E com tal destreza, que freguês, acabava pagando uma gorjeta só para o ver fazer malabarismo com a escova e com a flanelinha encardida, enquanto assoviava, ora imitando o pássaro que lhe emprestava a alcunha, ora assobiando alguma melodia, sempre inventada.

Até corria um boato à boca pequena que, um tal Zequinha de Abreu, que era filho do boticário, enquanto engraxava os sapatos, pedia para o Tico-Tico assoviar alguma valsa, mas o moleque, que não tinha a menor ideia do que era uma valsa, começou a assoviar uma música em ritmo muito acelerado, enquanto o rapazinho tomava notas em uma caderneta.

Claro, isso era só um boato, mesmo porque não havia nenhuma testemunha dessa cena, mas era uma história contada nas rodas de conversas há anos.

Tico-Tico sustentava sozinho duas irmãs mais novas e a mãe, que era paralítica. Era admirado e muito conhecido, até mesmo pela nata da sociedade, que fazia questão de engraxar seus sapatos de verniz, sendo que muitos traziam vários pares para que ele pudesse ganhar um pouco mais.

Tinha orgulho de ser honesto e trabalhador, e não aceitava esmolas. Achava que, se ganhasse sem trabalhar, era como roubar o seu benfeitor.

Passaram-se os anos, e o Tico-Tico, agora um pouco maior, decidiu que queria ir à escola. E foi, de pé no chão, com caderninho e lápis doados pela dona do bazar, e de cabeça erguida.

Quem já havia se acostumado com aquele negrinho passando pela rua do comércio, sempre assoviando, sempre feliz, ficou chocado com a notícia que se espalhou como vento. O pobre Tico-Tico, depois de sair do grupo escolar, resolveu tomar um banho de rio, pois o calor era escaldante, e nem a correnteza forte o desencorajou.

Dizem os coleguinhas de grupo escolar que, após dar um mergulho, acabou desaparecendo. Foram horas de procura ao longo do rio. Enfim o encontraram no dia seguinte. O corpo enroscado em alguns galhos de árvores.

A tristeza tomou conta da cidade, até o prefeito, homem pouco chegado ao cheiro do povo, foi ao enterro, e ali disse a única coisa que lhe veio à boca, quando lhe foi solicitado dizer algumas palavras.

- O que mais posso dizer, se me faltam a palavra – disse com voz embargada -, o que mais podemos dizer se o nosso Tico-Tico voou para o céu?

Hoje ainda é possível ver em um canto da praça, a escultura de um negrinho, com uma caixa de engraxate nos ombros e um passarinho pousado na mão estendida para o alto, homenagem do prefeito, que custeou do próprio bolso aquela peça de bronze, e uma placa de mármore, com a seguinte inscrição!

“Aqui viveu o Tico-Tico, menino honesto e trabalhador, que não quis mais assoviar aqui na terra, assim foi voando para assoviar em algum ninho no céu!”