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                               A HISTÓRIA DE UMA CARTA DE AMOR.

     Na manhã de sol uma jovem negra relativamente bem vestida, empurrando uma cadeira de rodas, conduziu uma senhora de idade até um ponto elevado do terreno, onde havia um banco de pedras. A despeito da diferença de idades pareciam amigas, a julgar pela tagarelice das duas que avançaram sempre dispostas ao riso. Aquele passeio e aquele ponto de descanso também pareciam ser costumeiros para as duas.
     Do ponto elevado podiam ver as casas do pequeno povoado. Naquela manhã a maioria dos telhados apresentava aspecto renovado em razão de uma faxina geral iniciada uma semana antes, tendo em vista a limpeza das calhas.
    A jovem negra sentando-se sobre o banco de pedras depois de haver calçado a cadeira de rodas abriu uma garrafa da qual a senhora idosa tomou um bom gole de água. Devolvendo a garrafa, apontou com a mão para um dos telhados mais distantes. A moça, que segurando a garrafa ofereceu um lenço branco, não olhou para o telhado. Disse:
     - A senhora tem boa memória. Muito boa memória.
     Limpando a boca, a velha riu.
     - Muito boa! – confirmou com ar de orgulho – Eu me lembro do dia em que ele chegou. Mas isso é outra história.
     - Viu quando ele chegou? Quando pisou pela primeira vez por aqui?
     - Não! Não vi chegar. Lembro quando chegou, mas não o vi chegar. Não sei se escolheu, ou se escolheram para ele, mas foi para aquele chalé. E foi onde o vi pela primeira vez.
     - Das palavras da carta. A senhora as gravou na memória?
     - Eu li. Eu li a carta, como não? E eu me lembro de todas as palavras.
     - E era uma carta de amor? – quis saber a moça alvoroçando-se no banco.
     - Era! Era uma carta de amor.
     A senhora passou as costas da mão limpando os lábios. Continou:
     - Ele era muito reservado, de pouca prosa. Passava a maior parte do tempo lendo ou escrevendo. Amanhecia muitas vezes escrevendo. Não sei o que tanto achava de escrever, mas parecia estar sempre querendo escrever como se tivesse medo de lhe faltar tempo para gravar tudo o que queria. Era um homem muito resistente. Mas naquela noite dormiu debruçado sobre a escrivaninha.
      - E a senhora o viu dormindo debruçado sobre a escrivaninha.
      A senhora idosa riu. A moça também. A velha fez a admoestação com o dedo em riste.
     - Mas nem pense! Sua mente é muito suja.
     - Eu não pensei nada.
     - Então não sei? Era um homem sério. – disse em tom grave - Como eu ia dizendo, naquela noite ele devia estar muito cansado e adormeceu. A noite estava muita fria. Na manhã seguinte geou. Foi a maior geada de todos os tempos. E porque o frio era intenso eu achei que ele logo acordaria. Assim, não o acordei e quase me arrependi porque ele podia ter adoecido. Apenas aticei a lareira, fechei a porta e fui para casa.
     - Mas antes leu a carta.
     - Foi. Antes eu li a carta. Estava sobre o tampo da escrivaninha.
    A velha senhora se calou por um instante. Disse depois em tom quase inaudível:
     - Eu nunca recebi uma carta de amor.
     - Por que a senhora sempre me fala sobre a carta e nunca me conta o que estava escrito?
    - Eu não sei. Era uma carta muito bonita. Ele amava aquela mulher. E eu só soube disso quando li a carta. Aqui ninguém jamais soube que ele tinha amor especial por uma mulher. Ele nunca falou a respeito.
     - Ele nunca falava nada a respeito dele mesmo. Não é o que todo mundo diz?
     - Ele era assim. Nunca se achava com direito de expor seus problemas. Ouvia, ouvia e ouvia. Algumas vezes dava um conselho. Outras vezes apenas confortava.
     - Quais eram as palavras da carta?
     A mulher olhou para o rosto da moça negra. Disse:
     - Ela falava sobre o frio.
     - Ah! Contava que estava fazendo frio. Ele escreve sobre o tempo e a senhora diz que era uma carta de amor... – disse a moça com ironia.
     As duas riram. A velha voltou à natureza da carta.
     -- Era uma carta de amor. Era assim:
     Interessada, a moça prestou atenção.

“Querida amo você perdidamente dia após dia, ao longo de todas as estações do ano. Amar você tem sido a fonte de minhas energias e o seu nome é a minha oração de todas as noites.
Amo você no verão, quando as noites são cálidas e a vontade de vê-la sorrindo me faz sonhar com jardins e balanços. Vejo você entre as flores, linda, menina, e temo me aproximar provocando uma interrupção em seus sonhos.

Amo você no outono, quando os dias são límpidos, as folhas começam a cair e se juntam no chão como seres frágeis que se juntam expostas aos caprichos do vento que, num sopro, pode separá-los. Meu coração se aflige e para não perdê-la quero abraçá-la com ternura, num abraço tão apertado, tão desesperado.

Amo você na primavera, quando o mundo se enche de flores.
Amo você, minha querida, em especial no inverno. Porque se em todas as estações do ano o meu desejo mais forte é protegê-la, no inverno esse desejo torna-se uma premência. Não quero que passe frio de forma alguma, que se exponha aos perigos que o frio representa à sua saúde.

Por isso, meu amor, agora que estamos em pleno inverno, amo você perdidamente e me martiriza a idéia de não estar ao seu lado. Sei que está preparada para a estação e que não se descuida, mas imploro que você descanse e que não se exponha ao frio. Que cuide de você.

Sem você minhas noites são vazias. Meus braços são inúteis, minhas mãos imprestáveis. Meu corpo, amor, não tem o menor sentido em continuar existindo. Meus braços reclamam seus braços. Minhas mãos reclamam suas mãos. Meu corpo implora seu corpo.”

      A velha senhora parou de falar e novamente apontou com a mão na direção do telhado distante. A moça negra estava calada.
     - Na manhã seguinte – disse a velha – o carteiro não passou. Alguma coisa aconteceu segurando a balsa presa ao outro lado do rio e a balsa não trouxe o carteiro. Fui ao chalé por volta das dez horas da manhã. Ele estava sentado sobre o carpe, em frente a lareira, com os olhos fixos no fogo. Perguntei se estava se sentindo bem. Fez que sim com um movimento de cabeça.
     - E ele estava bem?
     - A rigor devia estar. Disse que estava pensando no sacrifício da lenha a se consumir na lareira para aquecê-lo. E como eu havia lido a carta, compreendi que naquele momento estava desejando dar a vida por aquela mulher a quem ela amava.
     - Era assim romântico?
     - Eu compreendi assim. Ele estava se sentindo menos potente do que um simples pau de lenha, pois não podia estar aquecendo-a naquela manhã gelada.
     - É! Ela deve ter ficado contente ao receber a carta.
     - Não a recebeu.
     - Não?
     - Não! Eu fiz a faxina de sempre. Ao arrumar a lareira me deparei com um pedaço da carta. Um fragmento que o fogo não transformou em cinzas.
     - Por que ele teria queimado a carta?
    - Não sei. Talvez para proteger a mulher a quem ele amava.
      A moça negra quedou pensativa. A velha mexeu nervosamente com as mãos abrindo uma pequena bolsa.
     - Olha aqui. É o fragmento da carta. O pedaço que o fogo poupou.
     - E por onde ele anda agora?
    - Não sei. Talvez esteja em algum chalé escrevendo. Se houver uma luz derramando-se da janela iluminando um jardim, e se for um chalé, ele pode estar lá dentro, em sua escrivaninha.
     - Agora a senhora deve guardar esse pedaço de papel. Precisamos voltar para casa.
    E assim a moça negra desceu empurrando a cadeira de rodas, conduzindo sobre ela uma mulher que um dia foi a arrumadeira de um escritor esquisito.


(Conto esscrito para nosso blog Venturas do Viver)
Lucas Menck
Enviado por Lucas Menck em 20/06/2009
Reeditado em 28/07/2009
Código do texto: T1658006

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Lucas Menck
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